13.11.15

A Cabeça do Santo, Socorro Acioli

A Cabeça do Santo, escrito por Socorro Acioli

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 176
ISBN: 9788535923698
Livro cedido pela editora em parceria com o blog

Pouco antes de morrer, a mãe de Samuel lhe faz um último pedido: que ele vá encontrar a avó e o pai que nunca conheceu. Mesmo contrariado, o rapaz cumpre a promessa e faz a pé o caminho de Juazeiro do Norte até a pequena cidade de Candeia, sofrendo todas as agruras do sol impiedoso do sertão do Ceará.
Ao chegar àquela cidade quase fantasma, ele encontra abrigo num lugar curioso: a cabeça oca e gigantesca de uma estátua inacabada de santo Antônio, que jazia separada do resto do corpo. Mas as estranhezas não param aí: Samuel começa a escutar uma confusão de vozes femininas apenas quando está dentro da cabeça. Assustado, se dá conta de que aquilo são as preces que as mulheres fazem ao santo falando de amor.
Seu primeiro contato na cidade será com Francisco, um rapaz de quem logo fica amigo e que resolve ajudá-lo a explorar comercialmente o seu dom da escuta, promovendo casamentos e outras artimanhas amorosas. Antes parada no tempo, a cidade aos poucos volta à vida, à medida que vai sendo tomada por fiéis de todos os cantos, atraídos pelo poder inaudito de Samuel. Em meio a esse tumulto, ele irá descobrir a verdade sobre o desaparecimento do pai e se apaixonar por uma voz misteriosa que se destaca entre as tantas outras que ecoam na cabeça do santo.
Já consagrada por seus livros infantojuvenis, a escritora Socorro Acioli apresenta este seu primeiro romance dirigido ao público adulto, desenvolvido na oficina Como Contar um Conto, promovida por Gabriel García Márquez em Cuba.
Comprometido em cumprir a promessa que fez à mãe, Mariinha, em seu leito de morte Samuel parte para a cidade de Candeia afim de encontrar seu pai e sua avó materna, pessoas que provavelmente não pensaria em conhecer não fosse o pedido da mãe.

Desolado pela morte da única pessoa que tinha, Samuel vai a pé de Juazeiro do Norte à Candeia, como um romeiro sem fé para cumprir o último desejo de Mariinha.

Ele não tinha mais sapatos e seus pés, àquela altura, já eram outra coisa: um par de bichos disformes. Dois animais dentados e imundos. Duas bestas, presas aos tornozelos, incansáveis, avante, um depois do outro, avante, conduzindo Samuel por dezesseis longos e dolorosos dias sob o sol.
Ao chegar, maltrapilho, ao seu destino Samuel vê-se desamparado numa cidade fantasmagórica assombrada pelo passado de um santo sem cabeça que foi sua ruína. É enxotado da casa da avó e sente-se perdido em relação à sua própria história.

Desamparado ele procura abrigo para passar as noites em Candeia numa caverna, mas acordado no meio da noite por muitas vozes femininas que rezavam à procura de um amor, descobre estar na cabeça do santo Antônio decapitado.

Depois de alguns dias sem entender o por quê das vozes, Samuel se dá conta de que elas sempre são ouvidas no mesmo horário, de manhã e à tarde e confirma que são rezas. Consegue então identificar entre a confusão as histórias das mulheres que rezam para o santo Antônio.

Candeia era quase nada. Não mais que vinte casas mortas, uma igrejinha velha, um resto de praça. Algumas construções nem sequer tinham telhado, outras, invadidas pelo mato, incompletas, sem paredes. Nem o ar tinha esperança de ser vento. Era custoso acreditar que morasse alguém naquele cemitério de gigantes.

Ainda abrigado na cabeça do Santo, Samuel faz amizade com Francisco, menino de cerca de 13 anos que ia sempre à gruta para ver as revistas pornográficas que ganhava dos caminhoneiros.

Intrigado com a história do forasteiro que ouvia as vozes Francisco pensar em ambos tirarem proveito das moças solteiras da pequena cidade.

Francisco, juntamente com o radialista da cidade promovem falsos milagres a partir do dom inusitado de Samuel. A cidade até então um resquício do que já tinha sido, torna-se novamente como um ponto de peregrinação, reavivando a fé dos romeiros e tornando próspero o trio de "milagreiros".

[Fonte]

A partir desse ponto da história existe uma grande reviravolta que sela não só o destino da pequena Candeia, mas também a do próprio Samuel, que embora não soubesse havia uma forte ligação com a terra de seu pai desconhecido.

Acompanhamos o enriquecimento de Samuel por seus falsos milagres, a ascensão de um município abandonado e o desenrolar de acontecimentos improváveis, mas verossímeis.

Ao ler esse livro é preciso levar em conta que ele se enquadra no gênero realismo mágico, ou seja, os acontecimentos fantásticos ocorrem como parte do cotidiano das pessoas sem que haja estranhamento ou explicação lógica para esses elementos.

Mas o elemento fantástico, o milagre cotidiano, é um tipo de elemento comum em pequenos vilarejos, em cidades interioranas e sertanejas. O divino, o fantástico é aceito sem hesitação.

A cabeça do santo realmente existe e fica localizada no município de Caridade, no Ceará.

Esses elementos, associados a uma cidade pobre abandonada pela má gestão política, a fome, a sede e a miséria do sertanejo torna esse livro brasileiríssimo e muito verossímil. Imagino que essa história fantástica poderia ser contada, por exemplo, pelo meu avô nordestino e ao finalizar o livro, que foi lido em poucas horas, fiquei com essa impressão de que poderia ser um "causo" contado pelas pessoas mais velhas da minha família, mas com uma escrita tão fluída, poética e envolvente, digna de uma grande contadora de história.

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