18.10.15

A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, Jorge Amado

A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, escrito por Jorge Amado

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 118
ISBN: 9788535911831

"Saí da leitura dessa extraordinária novela [...] com a mesma sensação que tive, e que nunca mais se repetiu, ao ler os grandes romances e novelas dos mestres russos do século XIX", declarou Vinicius de Moraes. Escrita em 1959, esta pequena obra-prima de concisão narrativa e poética é tida por muitos como uma das mais extraordinárias novelas da nossa língua. 
Numa prosa inebriante, que tangencia o fantástico sem perder o olhar aguçado para as particularidades da sociedade baiana, Jorge Amado narra a história das várias mortes de Joaquim Soares da Cunha, vulgo Quincas Berro Dágua, cidadão exemplar que a certa altura da vida decide abandonar a família e a reputação ilibada para juntar-se à malandragem da cidade.
Algum tempo depois, Quincas é encontrado sem vida em seu quarto imundo. Sua envergonhada família tenta restituir-lhe a compostura, vesti-lo e enterrá-lo com decência; mas, no velório, os amigos de copo e farra dão-lhe cachaça, despem-no dos trajes formais e fazem-no voltar a ser o bom e velho Quincas Berro Dágua. Levado ao Pelourinho, o finado Quincas joga capoeira, abraça meretrizes, canta, ri e segue a farra em direção à sua segunda e agora apoteótica morte.

Quincas Berro Dágua talvez seja o campeão em mortes. Na narrativa temos duas prováveis mortes físicas, mas conseguimos observar as outras mortes que rondam o malandro. Sua morte moral se dá quando ele abandona a família para viver nas ruas; a social, quando é encontrado morto e é quase enterrado como indigente; quanto a física há controvérsias: a família jura que ele morreu dormindo, já seus amigos que sua morte se deu quando ele se jogou no mar.

Antes de entregar-se às ruas da Bahia o funcionário público Joaquim Soares da Cunha vivia uma vida tradicional: era ótimo empregado, pai e marido. Por cinquenta anos Joaquim suportou a severidade de uma vida pacata sem grandes emoções ao lado de sua filha Vanda e sua esposa Otacília. Depois de se aposentar ele inesperadamente chama as duas de "jararacas" e vai viver a vida que sempre quis entre dos botecos de Salvador.

Conhecido por todos os donos de bares, malandros, vendedores ambulantes, prostitutas e marinheiros, Quincas era estimado e respeito na vadiagem. Por outro lado, era o constrangimento da família.
Quando Quincas é encontrado morto pela primeira vez pela sua amante quem verdadeiramente sofre com sua partida são seus amigos de baderna, a família respira aliviada com a sua partida, embora finjam luto apesar do visível aborrecimento com os gastos do velório e enterro.

Era um morto pouco apresentável, cadáver de vagabundo falecido ao azar, sem decência na morte, sem respeito, rindo-se cinicamente, rindo-se dela, com certeza de Leonardo, do resto da família.

O pequeno conflito que a narrativa mostra é a indecisão entre o perdão e o rancor que sua filha Vanda trava, ela é a única pessoa da família que parece verdadeiramente se importar com a morte de Joaquim. Em alguns momentos esse perdão parece ser fruto da sua consciência pesada por odiar um morto e em outros o desejo sincero de ter tido um pai que a amasse.

Era curioso: não se recordava de muitos pormenores ligados ao pai. Como se ele não participasse ativamente da vida da casa.
Deixados a sós com seu "paizinho" os vagabundos resolvem dar a Quincas Berro Dágua sua última noite de bagunça pelas ruas de Salvador. Toda a cidade da Bahia ficou contente em reencontrar o vagabundo por excelência a tomar suas pingas e dançar mais uma vez.
Aí entra o conflito da família não aceitar sua segunda morte, apesar do corpo de Joaquim não estar mais presente.

Apesar de já sabermos desde o início o que se passará nas mortes de Quincas a sucessão de peripécias narradas valem a leitura. O morto era e é uma pessoa debochada, sem escrúpulos para falar o que pensa, levando ao leitor a uma série de fatos inusitados e engraçados.
Jorge Amado enaltece a vida fácil e comum de um bêbado, que opta por viver do jeito que sempre quis depois de cinco décadas de monotonia.
A escrita leve e fluida, com passagens que nos fazem gargalhar, tornam essa leitura rápida, prazerosa e, certamente, inesquecível.

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