28.9.15

Vidas Secas, Graciliano Ramos

Vidas Secas, escrito por Graciliano Ramos

Graciliano Ramos pertenceu à segunda fase do Modernismo brasileiro, assim como Jorge Amado e Rachel de Queiroz. Denunciava através de seus romances a injusta realidade brasileira. Durante a Era Vargas, foi perseguido por ter tendências de direita e preso. Mesmo assim, conseguiu publicar, em 1938, a obra em questão, que é um romance com uma narrativa composta por "contos independentes".

Entre 1920 e 1940, o índice de analfabetismo na população de 15 anos ou mais era alarmante: mais da metade da mesma não era alfabetizada. E, infelizmente, a região Nordeste contribuiu fortemente para esse percentual. Entre outros fatores, a péssima distribuição de renda fazia – e ainda faz – com que muitos tivessem de deixar o estudo precocemente para começar a trabalhar, gerando então uma péssima formação escolar ou até mesmo nenhuma. Do analfabetismo, muitos outros problemas são derivados: desemprego, fome, subempregos, exploração de mão de obra, incapacidade de argumentar e criticar. Esse aspecto é facilmente detectado no personagem Fabiano, que é explorado por seu patrão, não conseguindo ao menos saber se recebeu o salário merecido e argumentar ou se defender quando o soldado amarelo o prende arbitrariamente.

Consequentemente, essa população desprovida de educação acabava sendo esquecida, explorada e humilhada pela parcela que via nessa situação uma chance de tirar vantagem, como, por exemplo, os próprios patrões e o governo.

O que impulsiona os personagens é a seca, áspera, cruel e, paradoxalmente, a ligação telúrica, afetiva, que expõe naqueles seres em retirada, à procura de meios de sobrevivência e um futuro. Apesar desse sentimento de transbordante solidariedade e compaixão com que a narrativa acompanha a miúda saga do vaqueiro Fabiano e sua gente, o autor contou: "Procurei auscultar a alma do ser rude e quase primitivo que mora na zona mais recuada do sertão... os meus personagens são quase selvagens... pesquisa que os escritores regionalistas não fazem e nem mesmo podem fazer ...porque comumente não são familiares com o ambiente que descrevem...Fiz o livrinho sem paisagens, sem diálogos. E sem amor. A minha gente, quase muda, vive numa casa velha de fazenda. As pessoas adultas, preocupadas com o estômago, não tem tempo de abraçar-se. Até a cachorra [Baleia] é uma criatura decente, porque na vizinhança não existem galãs caninos". VIDAS SECAS é o livro em que Graciliano, visto como antipoético e anti-sonhador por excelência, consegue atingir, com o rigor do texto que tanto prezava, um estado maior de poesia.

"Vidas Secas" conta a história de uma família de retirantes nordestinos. Fabiano, Sinhá Vitória, seus filhos e a cachorra, Baleia, fogem da seca que assola o sertão nordestino já no início da narrativa. Fogem em busca de sobrevivência. Eles encontram uma casa e lá se instalam, mas acabam descobrindo que a mesma já tem dono e que, para ficarem ali, eles precisariam trabalhar.

A partir daí, acompanhamos o sofrimento dessa família exploradíssima durante toda a obra, seja pelo seu patrão, seja pelo governo opressor (representado pela figura do soldado amarelo). A partir daí, descobrimos os anseios e sonhos dessa família tão esquecida pela sociedade, conhecemos Baleia, solidária à família e muito observadora, que acaba sendo humanizada porque se solidariza, sente alegria e tristeza, porque demonstra suas opiniões e sentimentos. Inclusive, ela tem mais destaque que os próprios filhos de Fabiano. 

A história é contada em terceira pessoa por um narrador onisciente, que não só nos mostra os detalhes sobre o enredo e os personagens, mas também expõe os sentimentos mais íntimos de cada um deles. O que é muito interessante pois os personagens não conseguem se expressar bem, o que faz com que Fabiano se meta em alguns problemas.

O autor consegue chamar a atenção do leitor pelas suas fortes críticas à sociedade, ao governo opressor. Graciliano Ramos escreveu um livro cruel e verdadeiro, que te faz "acordar para a vida" e perceber que a situação da época da escrita da obra e a situação atual são extremamente semelhantes. Infelizmente, o livro termina da mesma forma que começou: triste e duro

Além da forte crítica social, a obra aborda um problema gravíssimo: a seca. Como sobreviver em um ambiente morto, desprovido de água e de comida? Como conseguir trabalhar em um local que não há o que desenvolver? Aqueles com dinheiro fogem; aqueles na miséria sofrem. Sofrem por fome, por sede, por falta de ajuda. Sofrem por serem rejeitados por uns e explorados por outros.

"Vidas Secas" é aqueles tipo de livro que faz o leitor enxergar como é a vida daqueles que não têm uma chance na vida, que são esquecidos e discriminados pela sociedade/governo. É um livro extremamente triste, mas necessário para que entendamos um pouquinho mais de uma triste parte da história do Brasil que continua a se repetir por aí, porque, apesar de ter sido escrita há quase oitenta anos, a obra de Graciliano Ramos ainda consegue retratar a sociedade, pois todos os problemas abordados – seca, analfabetismo, fome, desemprego, pobreza, exploração  permanecem acompanhando a população brasileira. 

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