28.9.15

Feliz Ano Velho, Marcelo Rubens Paiva.

Feliz Ano Velho, escrito por Marcelo Rubens Paiva.

Editora: Alfaguara
Páginas: 272
ISBN: 9788579624193
Livro cedido pela editora em parceria com o blog

Feliz ano velho é o primeiro livro de Marcelo Rubens Paiva. Aos vinte anos, ele sobe em uma pedra e mergulha numa lagoa imitando o Tio Patinhas. A lagoa é rasa, ele esmigalha uma vértebra e perde os movimentos do corpo. Escrito com sentido de urgência, o livro relata as mudanças irreversíveis na vida do garoto a partir do acidente. Ele é transferido de um hospital a outro, enfrenta médicos reticentes, luta para conquistar pequenas reações do corpo. Aos poucos, se dá conta de sua nova realidade, irreversível. E entende que é preciso lutar. O texto expressa a irreverência e a determinação da juventude, mesmo na adversidade, e a compreensão precoce “de que o futuro é uma quantidade infinita de incertezas”.

Como uma brincadeira, em segundos, pode transformar a vida de um jovem? Ao fazer, segundo o próprio Marcelo, a cagada de mergulhar de cabeça, bêbado, num lago com cerca de meio metro de profundidade o autor sofre as consequências irreversíveis da sua responsabilidade.
 Subi numa pedra e gritei:
– Aí, Gregor, vou descobrir o tesouro que você escondeu aqui em baixo, seu milionário disfarçado.
Pulei com a pose do Tio Patinhas, bati a cabeça no chão e foi aí que eu ouvi a melodia: biiiiiiiiin.
"Feliz ano velho" é uma autobiografia geracional, marcada por diversas referências à cultura pop, à efervescência política entre as décadas de 70 e 80. Mas, apesar das referências aparentemente datadas, o livro vem atravessando gerações desde o seu lançamento em 1982.

A vontade de tornar-se músico, os relacionamentos amorosos, o uso de droga e álcool, as relações familiares, a descoberta do posicionamento político, o desejo de ser alguém importante e ter seu nome lembrado são questões universais na vida dos jovens; os anos avançam e continuamos tendo os mesmos questionamento que as outras gerações.

Marcelo entrelaça relatos dos seus tediosos e longos meses no hospital com suas memórias de infância e adolescência para manter viva sua esperança de recuperá-la. A impressão é que estamos ouvindo o relato de alguém próximo, que nos conta comicamente os pormenores mais constrangedores de passar a depender, literalmente, de alguém para tudo até para fazer sua higiene pessoal.

Existem também os momentos em que ele desacredita de qualquer recuperação e se questiona do porquê sua vida ser marcada por tragédias.
[...] Foi aí que eu descobri o que é uma UTI. É uma espécie de ante-sala do céu ou do inferno. Se você entrou nela, ou morre, ou sai com profundas lesões. Eu não tinha tanta certeza se eu preferia sair ou passar pro outro lado.
Sua vida universitária é a que mais lhe rende histórias. Estudando Engenharia Agríciola na Unicamp, Marcelo nos relata diversos episódios cômicos da sua vida entre Campinas e São Paulo. Ficamos sabendo que ele quase se tornou músico sendo, inclusive, bastante elogiado por Tom Zé em um concurso que participou na TV Cultura. Nesse momento o autor se envolveu na política através de movimentos estudantis, como a UNE, e era bastante questionador sobre as questões políticas da época.

Marcelo Rubens Paiva é filho de Rubens Paiva, ex-deputado federal que, como muitas outras pessoas, sumiu durante o período da ditadura militar e teve sua morte confirmada apenas em 2014 pelos militares brasileiros.
Meu pai me ensinou a andar a cavalo.
Meu pai me ensinou a nadar.
Me incentivou a ser moleque de rua.
Me ensinou a guiar avião (tinha uma na firma dele e, depois de decolar, eu pegava no manche e ia mirando até São Paulo).
Mas meu pai não pôde me ensinar mais.
Vale ressaltar que, por se tratar de uma autobiografia, os fatos são sempre parciais e a linguagem é bastante informal, repleta de gírias e palavrões. Em alguns momentos é possível notar um certo exagero do autor ao narrar algumas de suas memórias, principalmente no que dizia respeito às mulheres com que saía. Mas qual jovem, com seus 20 anos, não tenta se vangloriar ou mesmo distorce os fatos para que eles sejam mais agradáveis a si mesmo?

O livro foi uma forma do autor se exorcizar pela enorme culpa que sentia ao cometer uma besteira que acabou o deixando tetraplégico.

Apesar de se tratar de um fato pesado, sobre uma pessoa nova com uma vida marcada por vários episódios trágicos, "Feliz ano velho" tem a esperança de que, apesar dos pesares, a vida pode ser levada de uma forma leve.

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