30.8.15

Robinson Crusoé, de Daniel Defoe

Robinson Crusoé, de Daniel Defoe
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 405
ISBN: 9788563560414
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.
O argumento básico de Robinson Crusoé é universalmente conhecido. Isolado em sua “Ilha do Desespero” (ao largo da atual Venezuela) após um trágico naufrágio, o marujo inglês luta pela sobrevivência valendo-se de todos os escassos meios a seu alcance. Com o tempo e os utensílios recuperados do navio, ele chega a se tornar um competente marceneiro e agricultor, além de pastor de cabras e profundo conhecedor da Bíblia - a única leitura disponível. Sem contato com qualquer ser humano por mais de duas décadas, certo dia Crusoé salva um nativo do assassinato por canibais que haviam aportado numa das praias da ilha, e logo o faz seu criado, dando-lhe o nome de Sexta-Feira. Alguns anos mais tarde, o acaso leva um navio inglês às proximidades da ilha, dando início a um longo conflito com a tripulação amotinada.
O livro também conta com uma alentada introdução de John Richetti, professor emérito de literatura inglesa na Universidade Columbia e reconhecido especialista na obra de Daniel Defoe.

Sobre o que se trata

Robinson Crusoé é uma história muito conhecida hoje em dia, sobretudo por ecoar em diversos filmes e livros posteriores à obra e inclusive, atuais (quem nunca assistiu "Náufrago", com Tom Hanks?). É de conhecimento geral se tratar sobre um naufrágio e todas as dificuldades pelas quais um homem passa, sozinho, numa ilha deserta. E foi apenas com estas considerações superficiais que embarquei junto de Robinson Crusoé, filho de um pequeno comerciante inglês. Para o pai, ele deveria seguir a carreira no Direito, porém, desde muito jovem recusou firmemente a ideia de um futuro cômodo, mas pacato e ausente de aventuras. 

Ele queria aventuras, se sentir vivo e conhecer o mundo. Ao entrar em conflitos com os desejos de seus pais em relação ao seu destino, o teimoso Robinson Crusoé parte de casa. Sua carreira no mar, onde decidiu querer estar, mostra-se, quase sempre, repleta de infortúnios, revelando ao rapaz uma dura realidade à qual não estava acostumado. Sua passagem pelo continente africano o humilha e rebaixa à desumana condição de escravo, uma fuga desesperada o leva ao Brasil onde se torna um senhor de engenho, mas, na sua propensão à busca por sucessivas mudanças e aventuras, ele decide deixar em suspenso todo o seu conforto na colônia para embarcar novamente, agora por assuntos comerciais de seu interesse – mas de novo em direção à África. E é com esta decisão, a qual mais tarde tanto abominou, que Crusoé se lança sobre uma tempestade e um naufrágio. De rico senhor de engenho e escravos a mero náufrago solitário e possuidor apenas da roupa que vestia na ocasião – que mais tarde se desfez com o desgaste do tempo.

Acompanhamos de perto, devido à narrativa em primeira pessoa, o acidente, as constantes adaptações do personagem na ilha onde passou a viver e as dificuldades por que passou durante longos vinte e sete anos longe do “mundo civilizado”. Mas, acima de tudo, somos testemunha da transição de seu estado de desespero inicial à racionalidade que passa a defini-lo

Minhas impressões

Mais do que um simples homem indefeso, Crusoé se torna o produtor de seu sustento  planta, fabrica, defende, explora. Perplexos, percebemos o quão capaz o homem pode ser. É claro que a ilha na qual o protagonista foi parar não tinha tantos perigos como vemos em Tarzan, do escritor Edgar Rice Burroughs, por exemplo, história repleta de animais selvagens e predadores. Esperava confiantemente a presença de tais figuras em Robinson Crusoé, mas o autor decidiu ser bonzinho e situar a história numa ilha mais segura, se bem que menor e ainda assim frequentada por canibais (o que também pouco se mostrou durante o enredo). 

O que parece contribuir para a defesa desse ponto negativo é o fato de Crusoé ser construído, durante todos os anos em que permaneceu na ilha, no sentido de mostrar ao leitor a sua relação de homem para com a ilha, o meio selvagem e natural, distante do mundo no qual o homem é o grande dominador do ambiente. Quis colocá-lo numa situação solitária e desamparado em todos os sentidos (roupas, alimentos, ferramentas) para provar a ideia de que o conhecimento se adquire através da razão; uma espécie de tábula rasa que, frente à capacidade de racionalizar, seria preenchida por esforço próprio. 

Neste sentido, grande parte do livro se propõe a descrever as adaptações pelas quais Crusoé passa na ilha, tornando-o cansativo em muitas passagens, mas surpreendentemente não menos interessante. Algo muito impressionante é perceber o quanto o tempo narrativo é influenciado por este aspecto mais descritivo da narrativa; os longos vinte e sete anos são sentidos não somente por Crusoé, mas também pelo leitor. O tempo é delimitado segundo as atividades da personagem, bem como o espaço, que só é explorado enquanto apropriação das necessidades. É claro que estas características existem em grande parte por conta da primeira pessoa, já que o livro é narrado pelo próprio Robinson Crusoé, mas é interessante notar os recortes que este ponto de vista faz. 

A dominação de Crusoé não apenas da ilha, da qual se via como senhor supremo, mas também da narrativa (e de qualquer outra coisa a seu redor), torna-se evidente quando surge em cena o selvagem Sexta-Feira, assim nomeado por Crusoé. Ao salvá-lo da morte, o protagonista passa então, depois de anos sem sequer trocar um simplório diálogo enfático com um ser humano, a conviver com um semelhante. Porém, as diferenças extremas entre os dois faz surgir cenas sensacionais no enredo. Como exemplo, há a religião, tema que aparece diversas vezes durante o livro. Crusoé tem dificuldades em fazer com que Sexta-Feira aceite a religião cristã, e muitas vezes ele próprio entra em crise diante de indagações tão incisivas e sinceras.
"Amo não diz que Deus é poderoso e grande, mais forte e poderoso que o Diabo?" "Sim, sim", respondi, "Sexta-Feira, Deus é mais forte que o Diabo, Deus está acima do Diabo, e por isso pedimos com os nossos pés, resistindo às suas tentações e extinguindo o fogo de seus dardos em chamas." "Mas", respondeu ele, "se Deus tão forte, mais poderoso que Diabo, por que Deus não mata Diabo, pra ele deixar de fazer maldade?"
Como mencionei acima, comecei a leitura apenas com o básico do básico que se pode saber sobre a história e me surpreendi com a riqueza do enredo e das personagens. Apesar de muitas vezes me indispor com Crusoé, pois este é uma personagem de seu tempo  colonialista, dominador, egocêntrico , ainda assim consigo compreender que é complexo e merecedor de atenção. Ler Robinson Crusoé é entrar em contato com uma obra importante para sua época (bem como para a posteridade) e que faz parte daquele tipo de história que conhecemos sem detalhes, apenas por conta do senso comum.

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