3.8.15

Reflexões sobre o Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente

“À barca, à barca, houlá! que temos gentil maré”! 

Olá, pessoal, sejam bem-vindos à barca do inferno, mas não se preocupem, será só um passeio rápido. Primeiro, vamos falar do autor dessa que é talvez a peça mais conhecida do teatro português.

Gil Vicente, também chamado de mestre Gil, é considerado o primeiro grande dramaturgo português, e é provável que seja o maior até hoje, dada sua influência até em autores de peças teatrais mais recentes, como Sttau Monteiro. Mestre Gil vive sendo revisitado. Não é possível determinar com precisão a data de seu nascimento, mas a hipótese mais forte é que tenha sido em 1466. Quanto ao local exato, é um mistério, só se sabe mesmo que foi em Portugal, porém é sabido que ele passou boa parte de sua vida em Lisboa, onde obteve sua formação cultural. Ao contrário de Camões, que lutou muito pra conseguir publicar sua grande obra, Gil Vicente era como uma celebridade da corte, querido pela aristocracia, e teve um grande período de atividade, que durou de 1502, quando publicou o "Monólogo do Vaqueiro", e 1536. Durante esse tempo, publicou um total de 46 peças.

A obra de mestre Gil está inserida no período Humanista, também conhecido como Segunda Época Medieval, ou Primeiro Renascimento. Ou seja, era um mundo em mudança, onde ainda estavam presentes muitas características do medievo, mas já se notavam novas formas de pensar, de fazer arte e de viver. A obra vicentina deixa isso bastante nítido. Por exemplo, embora os temas cristãos sejam fortíssimos nela, há também a presença bastante frequente de elementos pagãos, de retomada da cultura da Antiguidade, como em o "Auto da Feira". É interessante também lembrar que Gil Vicente faz um teatro para a corte, mas que ao mesmo tempo é popular em temas e linguagem, ao contrário do que veríamos na arte do período renascentista em seu auge.

O "Auto da Barca do Inferno" é a peça mais conhecida do autor, embora haja muitas outras célebres, como o já citado "Auto da Feira", a "Farsa de Inês Pereira", o "Auto da Horta" etc. "Auto da Barca do Inferno" é uma peça de conteúdo bastante moralizante e pedagógico, trabalha com estereótipos de classes sociais, tratando, sobretudo, de seus vícios, ou seja, é um teatro que envolve com alegorias. Mas, antes disso, falemos sobre o enredo, que é bem simples. A peça se passa num porto de onde estão saindo duas barcas, uma que leva ao inferno e outra que leva ao paraíso, então começam a aparecer os mortos, que serão julgados para decidir em qual barca terão de entrar e seguir viagem, ou seja, trata-se de uma alegoria do juízo final.

Cada personagem, como já foi dito, representa uma classe social e seus vícios, fazendo da obra uma crítica mordaz à sociedade em que Gil Vicente estava inserido. Usemos algumas figuras da peça para exemplificar. O primeiro tipo inserido no auto é o aristocrata arrogante representado pelo Fidalgo. Esse pensa que sua posição social lhe garante tratamento especial depois da morte, mas acaba por se surpreender negativamente, pois seus direitos de nascimento de nada valem aqui, pois o julgamento é moral. O Fidalgo ainda pensa que pode escapar do seu destino por ter deixado quem rezasse por ele, mas novamente se enganou, pois a partida dele mal foi sentida, afinal, era um ser indesejável por ser tirano e arrogante. Pode-se ver, portanto, que a crítica aqui não é individual, Gil Vicente não trabalhava com conflitos psicológicos; o Fidalgo é a representação do comportamento fútil e soberbo da classe a qual pertence. Seria, então, o dramaturgo português adepto do pensamento burguês? Definitivamente não. 

O burguês também não escapa das críticas afiadas da peça e pode ser visto tanto na figura do onzeneiro quanto na do sapateiro, ambos sempre lesando seus clientes para garantir lucro, sempre colocando o dinheiro acima de seus princípios éticos e morais. Mestre Gil critica tanto a estrutura medieval opressora e obsoleta quanto os acentuados desvios morais e ideológicos da sociedade moderna, o que é notável, pois poucos são os homens que vivem entre dois mundos e conseguem analisar ambos, e Gil Vicente vivia entre a decadência do mundo medieval e o surgimento do mundo moderno.

Embora a questão mais político-econômica abordada acima seja de grande importância, a questão religiosa é que é o centro da peça, afinal, já é evocada até no título com a palavra “inferno”, e os personagens principais são o diabo (que acusa) e um anjo (que julga). Gil Vicente faz críticas bastante fortes à Igreja, o que já levou até alguns estudiosos a questionarem se o autor não se simpatizaria com o protestantismo e o erasmismo, que estão entre as representações máximas da ruptura com a Europa feudal. Poderíamos até ser levados a pensar dessa forma se nos prendêssemos apenas à Igreja representada pela figura do Frade, que é namorador, adepto de luta com espadas e um admirador de canto e dança populares. Isso mostra o desconforto de Gil Vicente com a situação da Igreja de seu tempo, uma instituição corrompida, cheia de sacerdotes sem vocação nenhuma mas que estavam ali por uma simples questão de prestígio social. 

Parece uma ruptura de mestre Gil com a Igreja, mas não é. É apenas um desejo de reforma, não uma reforma como a protestante, um movimento de separação, mas uma reforma interna e moral. Isso fica mais nítido se levarmos em consideração os últimos personagens a chegar ao porto, os cavaleiros de Cristo. Eles são a representação do Cristianismo puro, da vida por Cristo. São exaltados e, ao lado do parvo Joane, são os únicos a entrar na barca do paraíso. Fica assim mais claro que Gil Vicente não rompe com a Igreja em sua obra, pelo contrário. Na verdade, ao exaltar os cavaleiros cruzados, ele mostra mais ainda estar entre dois mundos, pois, em uma obra cheia de características modernas (para a época do autor, é claro), ele evoca e exalta figuras totalmente medievais.

Teria ainda muito a falar do "Auto da Barca do Inferno". Gostaria muito de falar de cada personagem, mas o texto ficaria demasiadamente extenso, o que não é a intenção aqui. Espero, porém, que o pouquíssimo abordado neste post possa motivá-los a ler essa obra e ajudá-los a compreender melhor também. Como de praxe, gostaria de indicar outra produção que tem ligação com o que abordei na postagem, trata-se do "Auto da Barca do Motor fora da Borda", de Sttau Monteiro. É uma peça moderna, portanto muito mais próxima de nós em linguagem e contexto social. Nela os personagens do "Auto da Barca do Inferno" encontram figuras relativas a eles no mundo moderno. Vale muito a pena a leitura, pois é divertidíssima.

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