2.8.15

Olhai os lírios do campo, Érico Veríssimo.

Olhai os lírios do campo, escrito por Érico Veríssimo.

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 288
ISBN: 8535906096
Livro cedido pela editora em parceria com o blog

Primeiro best-seller de Erico Verissimo, “Olhai os lírios do campo” representou uma guinada na carreira literária do escritor. Várias edições se esgotaram em poucos meses. Segundo Erico, o sucesso foi tão grande que "teve a força de arrastar consigo os romances" que publicara antes em modestas tiragens.
Eugênio Pontes, moço de origem humilde, a custo se forma médico e, graças a um casamento por interesse, ingressa na elite da sociedade. Nesse percurso, porém, é obrigado a virar as costas para a família, deixar de lado antigos ideais humanitários e abandonar a mulher que realmente ama. Sensível, comovente, Olhai os lírios do campo é um convite à reflexão sobre os valores autênticos da vida.

“E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;” Matheus 6:28.

Eugênio torna-se, com sacrifício próprio e paterno, médico. Nascido em uma família beirando à miséria, seu maior anseio era um futuro financeiro abastado e um nome respeitado na alta sociedade. Sentia-se diariamente humilhado e diminuído por todos devido à sua pobreza transparecer em suas roupas rasgadas e em seu rosto cansado. Acompanhamos em primeira pessoa o ponto de vista do próprio Eugênio sobre a mesquinhez de sua vida, onde há, intercalados, fatos presentes de sua infância, adolescência e juventude.

Ângelo, alfaiate maltrapilho e pai de Eugênio, vivia uma vida de submissão e abnegação para tornar possível um futuro menos degradante aos dois filhos. Apesar de seu sacrifício, os sentimentos que consegue despertar no filho é a vergonha, a piedade, nunca o amor. E o protagonista relata todo o seu remorso por jamais conseguir se desculpar e fazer jus ao sacrifício do pai.

Aconteceu, então, o inevitável. Os olhos de Eugênio encontraram os do pai. Ângelo sorriu para o filho, não um sorriso de quem concede perdão, mas um sorriso servil e constrangido de quem pede perdão. Perdão por não ter dinheiro, por ser alfaiate, por andar malvestido, por não passar de um pobre-diabo.

Buscando a ascensão social que tanto almejava, Eugênio casa-se por conveniência com Eunice e deixa de lado o seu amor por Olívia, que foi sua colega de faculdade, mas com quem mantém um relacionamento e uma filha fora do casamento. A provável morte de Olívia desencadeia em Eugênio essa série de flashbacks descritos no livro e sua reflexão sobre a infelicidade que se encontra por ambicionar uma vida confortável.

“... O doutor Teixeira Torres diz que é um caso perdido. Ela sabe que vai morrer... pediu para vê-lo..."
Eugênio sente essas palavras com todo o corpo, sofre-as principalmente no peito, como um golpe surdo de clava.

A intenção de Genoca, quando ambicionava tornar-se médico, era viver uma vida dedicada aos pobres, doar-se à miséria, mas suas prioridades são invertidas e, ao tornar-se “doutor”, de fato percebe que só o fez porque essa profissão gerava um grande prestígio. Toda vez antes de entrar em cirurgia, Eugênio sente o estremecimento de ter feito a escolha errada em mais uma área de sua vida.

Por fim, acompanhamos o amadurecimento de Eugênio e, por se tratar de um livro em primeira pessoa, conseguimos nos colocar no lugar dele, entendemos suas falhas, seus questionamentos, suas virtudes e fraquezas. É interessante observar como o eterno conflito entre felicidade e sucesso é exposto de maneira verdadeira, sem maniqueísmos ou julgamentos.

Como é característico do Verissimo temos como pano de fundo o cenário político brasileiro juntamente com a escrita sensível e poética do autor.

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