29.8.15

Jonathan Strange & Mr. Norrell, de Susanna Clarke

Jonathan Strange & Mr. Norrell
Editora: Seguinte
Páginas: 821
ISBN: 9788535907148
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.

É difícil começar a falar desse livro. Mais difícil ainda é defini-lo. As palavras que vêm à minha mente quando penso sobre ele são “diferente”, “único”. É difícil também decidir meus sentimentos em relação a essa leitura. Mas deixemos isso para mais à frente.

A autora, Susanna Clarke, é uma britânica que, antes de Jonathan Strange & Mr. Norrell, tinha escrito apenas contos, nada que a fizesse conhecida, vivia praticamente no anonimato. Muito talento até então escondido, mas apenas porque ela não queria escrever qualquer coisa. Então trabalhou muito nesse seu romance de estreia, levando simplesmente dez anos para escrevê-lo. E tanta paciência e dedicação resultaram em uma obra única, incrivelmente bem escrita e, consequentemente, muito bem-sucedida. Conquistou muitos elogios do público e da crítica; entre esses, Neil Gaiman, que, inclusive, é quem escreveu a introdução do livro cheia de elogios a Clarke. O livro também é citado entre um dos melhores de todos os tempos no gênero fantasia em diversas listas de sites especializados no assunto.

É difícil falar do enredo sem dar spoilers. E dar spoilers de um livro de mais de oitocentas páginas é um crime, portanto, tentarei falar o mais superficialmente possível, dando só a ideia geral da trama. É uma obra sobre magos, seres mágicos e lendários e coisas do tipo, o que levou a ser comparado a O Senhor dos Anéis e a ser chamado até de Harry Potter para adultos. Essas comparações, porém, são um desserviço à obra e aos leitores! Não há semelhanças em nenhum nível, nem no estético nem no conteudístico, são obras extremamente diferentes. Há quem compare também aos livros de Jane Austen. Aí já não sei, uma vez que nunca li nada da autora. Mas acredito que haja, sim, alguma semelhança, já que a própria Susanna Clarke não esconde que tem Austen como uma grande influência.  

A história de Jonathan Strange & Mr. Norrell se passa numa Inglaterra alternativa do começo do séc. XIX. Quase tudo é igual à verdadeira Inglaterra desse período, com uma diferença que acaba mudando muita coisa: há magia. Na verdade, no começo, as sociedades de magos não passavam de grupos de estudiosos da magia, e não de magos propriamente dito. Exemplificando, a palavra mago era usada como usamos filósofo hoje, referindo-nos na maioria das vezes a estudiosos de Filosofia e não a filósofos ao exemplo de Platão, Descartes, Sartre etc. Pensava-se que não havia mais magia na Inglaterra, até que surge Mr. Norrell, uma figura que se diz um mago de verdade. Logicamente, ninguém o leva a sério no começo, mas ele acaba provando seus poderes de maneira surpreendente. A história, porém, só começa mesmo quando Mr. Norrell decide ir para Londres e oferecer seus serviços de mago ao governo, para ajudar a Inglaterra contra o Império Francês, liderado por Napoleão. Depois de muita descrença, acaba realizando um grande feito, que o faz ficar famoso. E é então que o livro, para mim, começa de verdade. Só bem mais adiante é introduzido à história Jonathan Strange, que viria a ser discípulo de Mr. Norrell e ter grande importância na história de seu país.

Uma das maiores virtudes de Clarke é, sem dúvida, a construção das personagens. Não há vilões e mocinhos, todos estão em tons de cinza. Cada personagem parece muito real, sem que se escondam suas virtudes e defeitos. E isso faz deles marcantes. Não é possível esquecer facilmente personagens como Norrell e Strange, Lady Pole, Stephen Black etc.

O livro como um todo é muito bem planejado. Toda a mitologia é bastante rica e verossímil, levada muito a sério. É até curiosa a quantidade de notas de rodapé explicando coisas do passado e do futuro da magia inglesa. Isso dá uma grande imersão ao mundo criado por Clarke, uma sensação de que tudo aquilo é real. Sem dúvidas, são poucos os autores que conseguem passar tanta verdade em suas narrativas.

Para não ser dito que fui só elogios, tenho algumas críticas. No começo desta resenha, disse que fico confuso em relação a meus sentimentos para com o livro. Isso se dá porque ao mesmo tempo que o achei incrível, achei-o um tanto chato em alguns momentos. Sim, há aquelas passagens que não vemos a hora de acabar, com a esperança que o próximo capítulo traga algo interessante. Na verdade, o começo do livro todo é assim. São necessárias mais de cem páginas para a história começar de fato. E sejamos sinceros, é difícil se animar com um livro de mais de oitocentas páginas que demora mais de cem para ficar interessante. Algumas notas de rodapés enormes no começo dão uma vontade grande de desistir do livro, embora essas mesmas notas se tornem algo muito interessante depois. Em muitos momentos, parece que certas passagens e até capítulos quase inteiros seriam facilmente descartáveis e estão ali só ocupando espaço.

Outra crítica que gostaria de fazer não é em relação à obra, mas à edição, que traz revelações sobre o enredo nas orelhas, portanto, aconselho que não leiam as informações contidas nelas. Eu tentei evitar ao máximo falar sobre o enredo e sobre a mitologia da obra, e a editora deveria fazer o mesmo. Pois, como disse, é uma obra diferente, única, e o mais interessante é ser surpreendido, descobrir essa Inglaterra mágica sozinho, lentamente. E a curiosidade é um fator muito importante para vencer um calhamaço desse tamanho, então a dica é que evitem ler resenhas e opiniões de outros leitores.  

Enfim, é um livro que recomendo, mas não a todos. Tem que ter tempo e força de vontade para ler uma obra como essa. Além de enorme, não é cheia de aventuras e peripécias extraordinárias. O ritmo é moderado, e boa parte das páginas é usada caracterizando personagens e a sociedade em que vivem. Se você é o tipo de leitor que gosta disso, que gosta de Dickens, por exemplo, há uma grande chance de gostar muito de Susanna Clarke. Se é um leitor mais impaciente, há uma grande probabilidade de não gostar. 

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