20.8.15

Estação Atocha, Ben Lerner

Estação Atocha, escrito por Ben Lerner
Editora: Rádio Londres
Páginas: 242
ISBN: 9788567861043
Livro cedido pela editora em parceria com o blog

Adam Gordon é um jovem poeta americano que, graças a uma prestigiosa bolsa de estudos, muda-se para Madri, pelo período de um ano, com o objetivo oficial de completar um projeto de pesquisa. Adam é um jovem brilhante mas muito instável, narcisista e frequentemente tomado por um sentimento de alienação de si mesmo. Viciado em cafeína, usuário eventual de haxixe, comicamente inseguro com as mulheres e com forte tendência a se automedicar, Adam se vê mergulhado em uma busca constante por autenticidade, girando em torno dos limites da linguagem. Página após página, o protagonista alterna momentos hilários com ruminações existenciais, o que alimenta a sensação de distância entre seu universo interior e o mundo externo. Todo esse quadro reforça a suspeita de que suas relações afetivas, suas sensações, sua poesia e até mesmo sua personalidade sejam fraudulentas, uma grande mentira.

O projeto de Adam Gordon durante sua estadia em Madri consiste em estudar a influência da guerra na literatura e desenvolver um poema sobre o momento político vivenciado, além de trabalhar na tradução de alguns poemas.

Na época em que se mudou para a Espanha a Europa passava por um momento de grande efervescência política, sendo Gordon praticamente uma testemunha ocular dos atentados de 11 de março de 2004 em vários pontos da rede ferroviária de Madri, inclusive na estação Atocha.

Apesar de estar inserido nesse ambiente artístico de militância e intensa participação política o jovem se sente alheio à situação, literalmente um estrangeiro, sem qualquer autoridade para expressar opiniões.



O livro, narrado em primeira pessoa, conta não apenas a alienação e desinteresse político de Gordon, mas a alienação à sua própria vida, sua auto sabotagem e falta de perspectiva sobre o futuro. Segundo Adam, que não participava de qualquer evento organizado pela fundação que lhe oferece a bolsa de estudos, seu espanhol é rudimentar e sua postura de poeta é uma farsa. Em todas as passagens encontramos um jovem que se deprecia e não tem fé em si mesmo. Totalmente desconexo da realidade ele passa seus dias fumando haxixe, tomando café e muitos remédios, além de ler aleatoriamente alguns livros. Gordon planeja cada um dos seus movimentos e falas para adequar-se à imagem de poeta e intelectual incompreendido e é incapaz de se relacionar com a maior parte das pessoas.
Por muito tempo, eu convivera com a preocupação de ser incapaz de passar por uma profunda experiência artística e me custava acreditar que alguém mais fosse, pelo menos entre os meus conhecidos. Nutria profundo ceticismo a respeito das pessoas que alegavam que um poema ou uma música tinham "mudado a vida" delas, especialmente porque, observando-as antes e depois dessa experiência, não conseguia detectar a menor mudança.
Apesar de sua atitude deliberadamente blasé, o protagonista conquista a nossa simpatia. Ao avançarmos as páginas do livro conseguimos detectar que, na realidade, a imagem de impostor e poeta medíocre é a que o Gordon faz de si mesmo. Quando fala para seus amigos que seu espanhol e sua poesia são igualmente ruins sempre ouve exatamente o oposto. Lemos Adam narrar incrédulo toda vez que alguém elogia "o grande poeta americano" ou concorda sem discussões que sua opinião é a mais coerente, ou como o próprio gosta de falar: quando não descobrem que ele é uma farsa.

Adam é um anti-herói contemporâneo e sua postura é o reflexo de grande parte da nossa juventude, que não enxerga as pequenas virtudes cotidianas, que acredita que é necessário realizar grandes feitos para vencer o vazio existencial, constantemente preenchido com drogas e amenidades.

Felizes eram as épocas em que o céu estrelado representava o mapa de todos os caminhos possíveis, épocas caracterizadas por uma integração social tão perfeita que, para conectar o herói à totalidade, não eram necessárias as drogas.
O que mais me prendeu na história do jovem poeta é a identificação com seus conflitos pessoais. Adam, assim como grande parte de jovens adultos, tem o desejo de realizar algo grandioso, algo que toque o sentimento alheio, quando ainda não conseguiu definir a relevância das coisas na própria vida e depende do dinheiro dos pais.

O sentimento de deslocamento que o acomete a cada instante da narrativa não é apenas por estar num país estrangeiro, mas por estar num momento transitório, tendo de iniciar a vida adulta e arcar com todas as suas responsabilidades.

Acredito que os leitores que estão entre os seus 20 a 30 anos irão se identificar com os questionamentos vividos por Gordon, com sua auto sabotagem, ironia, deboche, surtos e pânicos inerentes a esse período de transição entre adolescência e maturidade.

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