30.8.15

A Biblioteca de Babel: o jogo da querência

Em primeira instância, é preciso notar que o Universo, para uns, é a Biblioteca. Essa primeira frase do texto já me despertou o deleite, já que sou um leitor assíduo e as bibliotecas sempre me proporcionam olhares mais poéticos acerca das coisas. Por isso, acredito que essa frase seja muito verdadeira para uns. A biblioteca possibilita, para mim, que o mudo exista, mesmo que tal afirmativa seja contraditória. Mas, aos olhos de um poeta, o que não é?

Em segunda, todos querem. Temos esse desejo da querença que nos impulsiona para descobrirmos coisas novas, argumentando sobre as que já existem, para, assim, sempre sermos deslumbrados. O desconhecido nos facina


O início do segundo parágrafo já me reteve, aliás, em suas primeiras linhas. Para mim, esse segundo parágrafo retoma a ideia do querer e da morte. O querer, aqui, é visto como algo que um viajante faria, a procura de sua identidade e, nessa busca eterna, acaba se deparando com a morte. Mas tal morte não é sofrida ou agonizante, é uma morte que permite a liberdade, assim como Machado de Assis aponta em Memórias Póstumas de Brás Cubas, pois, tendo status de morto, se é que morto tem status, você é passivo de julgamentos da sociedade e esses julgamentos não mais interferem na sua vida (ou na sua morte), pois você está livre. Para um escritor que deixa seus relatos em um livro, o julgamento post-mortem da população já não interessa, pois pôde deixar explícito seus pensamentos da maneira mais verdadeira possível. 

Como escreve o autor, afinal, “Afirmo que a Biblioteca é interminável”: nesses borbotões de palavras que possibilitam nossa existência, a vida é eterna. E, na morte, temos um grau de verdade absurdo, que nos retira das amarras sociais que nos impedem certas coisas. O morto é um eterno transgressor nessa perspectiva.

O quarto parágrafo também me chamou a atenção, e talvez eu seja alguém bem retido, na medida em que cita muitos números, falando de estantes, que podem ser nossos lugares no mundo, livros (nós), palavras (nossas ações), linhas e letras (o desfecho de nossas ações), como se todas essas instâncias fossem premeditadas e calculadas pelo homem. Como se, ao ver uma pessoa, nós possamos colocar sua existência no mundo a partir de um pré-julgamento, mas, como afirma o autor, “essas letras não indicam ou prefiguram o que dirão as páginas”. Esse parágrafo se intercomunica, ao meu ver, com o sétimo, pois, nesse último, o autor afirma que a biblioteca tem uma lei fundamental, assim como o Universo, na qual não existem dois livros idênticos. Mesmo se tratando de um mesmo assunto, cada livro é único e, se se estende isso ao universo, cada pessoa é singular em sua existência, havendo pontos de convergência e divergência. Cada um é um em sua singularidade.

No oitavo parágrafo, novamente, tive que parar para refletir. Talvez esse tenha sido o parágrafo que mais me chamou a atenção. É o parágrafo mais contundente em relação às nossas querenças desmedidas. Logo em seu início, diz-se que a biblioteca, ou o Universo, abarca todos os livros, todas as individualidades, e isso proporcionou nos homens o querer de uma felicidade extravagante, como se todos os problemas fossem eximidos e pudessem ser resolvidos. Relacionei-o com o conto Felicidade Clandestina de Clarice Lispector, no que diz respeito a essa felicidade que projetamos em algo ideal, para, assim, nos sentirmos leves na existência, transcendendo o que é ruim para não nos angustiarmos. 

Mais para frente, ainda nesse parágrafo, fica evidente que temos o “vão propósito de encontrar [nossa] Vindicação” (colchete colocado por mim), como diz o autor. E é aí que entra esse jogo de querença destruidora, como se fosse algo essencial ter um reivindicação na sua vida, para assim ser aceito. E isso gera, além de tudo, disputas que promovem o ódio entre as pessoas, impulsionando uma eterna competição para ver qual o melhor querer e, se julgam que o seu não é bom, execram-no, colocam-no à margem e ferem-lhe com palavras e discursos muitas vezes hipócritas. Isso, para uns, causa a loucura, a morte, a degradação moral.

Mas muitas vezes, em contrapartida, reina a esperança. A esperança da união por parte desses reivindicadores, a qual possibilitaria uma maior ordem no mundo, ou na biblioteca. Se todos os livros fossem unidos, formando um “livro total”, na biblioteca reinaria a sabedoria e a felicidade. Afinal, o que são uns livros diante da imensa Biblioteca?  
A escrita metódica distrai-me da presente condição dos homens. 
Para mim, a reflexão da frase está nela própria. Assim como eu penso, escrever, tendo a afirmação do autor como base, proporciona desvincular-se dessa realidade em que todos estão inseridos em um jogo no qual aquele livro-pessoa que mais se destacar será a obra-prima do universo-biblioteca. Esse jogo, por sua vez, é algo um tanto quanto superficial, na medida em que todos apenas tentam achar a razão e o sentido das coisas. 

Para o universo, essas pessoas são o degrau mais alto do pódio. E aqueles sonhadores que não buscam o sentido das coisas? Com certeza esses têm algo superior: a falta de angústia, a leveza de existir, pois, para aqueles, a falta de sentido apenas causa angústia e não podem, por causa dela, aproveitar os bons momentos da vida. Para que encontrar sentido em absolutamente tudo? Algumas coisas são feitas para não ter sentido, para despertar a beleza de ser, para retirar a gravidade das coisas. E os que estão no elevado pedestal do universo engolem essas qualidades. Triste realidade. 


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