10.7.15

Capitães da Areia, de Jorge Amado

Capitães da Areia, escrito por Jorge Amado

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 288
ISBN: 9788535911695
Desde o seu lançamento, em 1937, Capitães da Areia causou escândalo: inúmeros exemplares do livro foram queimados em praça pública, por determinação do Estado Novo. Ao longo de sete décadas a narrativa não perdeu viço nem atualidade, pelo contrário: a vida urbana dos meninos pobres e infratores ganhou contornos trágicos e urgentes. Várias gerações de brasileiros sofreram o impacto e a sedução desses meninos que moram num trapiche abandonado no areal do cais de Salvador, vivendo à margem das convenções sociais. Verdadeiro romance de formação, o livro nos torna íntimos de suas pequenas criaturas, cada uma delas com suas carências e suas ambições: do líder Pedro Bala ao religioso Pirulito, do ressentido e cruel Sem-Pernas ao aprendiz de cafetão Gato, do sensato Professor ao rústico sertanejo Volta Seca. Com a força envolvente da sua prosa, Jorge Amado nos aproxima desses garotos e nos contagia com seu intenso desejo de liberdade.

A Câmara dos Deputados rejeitou na madrugada de quinta-feira, 1º de julho de 2015, a PEC 171/93, que propõe a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. O tema está bastante presente nas discussões políticas mais acaloradas, sendo a maior parte da população a favor da redução. (Leia mais aqui.) Mas na madrugada do dia 2 de julho foi aprovada em nova sessão. (Lei mais aqui.)

"Capitães da Areia" nos mostra que 78 anos depois ainda não conseguimos solucionar um grave problema social no país: o dos menores infratores. Eles são, afinal, bandidos mirins ou frutos de uma sociedade excludente que impossibilita melhores perspectivas?

Capitães da Areia, 2011


Ao nos depararmos com a história dos Capitães da Areia, um grupo de meninos que vivem num trapiche abandonado na “Cidade da Bahia”, a Salvador da década de 30, somos apresentados ao outro lado da história. Os meninos vivem como adultos: roubam, usam armas, fumam, se deitam com mulheres. Sua sobrevivência árida não permite uma vida infantil.

As personagens desse livro representam tipos e, geralmente, seus apelidos revelam algo marcante de sua personalidade. Pedro Bala, líder do grupo de mais de 100 meninos, toma as decisões mais difíceis, arquiteta os planos de furto e troca os produtos dos roubos por dinheiro. Seu maior anseio é um sentimento que não consegue definir, algo maior que a liberdade que encontra nas ruas de Salvador.

O Professor é um dos poucos letrados do grupo e passa horas contando histórias que lê nos livros roubados, além de desenhar os transeuntes em papel de pão; tem uma alma sensível e é, verdadeiramente, um artista.

Pirulito encontrou na religião o conforto para sua alma de ladrão através do padre José Pedro, uma das poucas pessoas que se interessam em ajudar os menores abandonados.

O Gato é aprendiz de cafetão, que encontrou conforto nos braços de uma prostituta.

Sem-Pernas protagoniza os episódios mais tristes da narrativa; coxo, sem qualquer esperança de algo melhor em sua vida, ele nutre um ódio mortal por todos, exceto pelos Capitães da Areia. Culpa a tudo e todos pela situação de miséria que são obrigados a viver dia após dia.


Depois vai o Sem-Pernas. Vai calado, uma estranha comoção o possui. Vai como um crente para uma missa, um amante para o seio da mulher amada, um suicida para a morte. Vai pálido e coxeia. Monta um cavalo azul que tem estrelas pintadas no lombo de madeira. Os lábios estão apertados, seus ouvidos não ouvem a música da pianola. Só vê as luzes que giram com ele e prende em si a certeza de que está num carrossel, girando num cavalo como todos aqueles meninos que têm pai e mãe, e uma casa e quem os beije e quem os ame. Pensa que é um deles e e fecha os olhos para guardar melhor essa certeza. Já não vê os soldados que o surraram, o homem de colete que ria.

O maior medo dos meninos é serem pegos e levados ao reformatório, instituição semelhante a atual Fundação CASA. Lá eles sofrem castigos físicos e psicológicos, além de ficarem encarcerados em uma espécie de prisão para menores. As figuras autoritárias da polícia, do diretor e do próprio governo são o pesadelo dessas crianças.

Um dia aparece a Dora, menina de 13 anos que transformaria permanentemente a vida desses meninos. A Dora e seu irmão perderam a mãe numa epidemia de "bixiga" e começaram a vaguear por Salvador. Dora acaba indo morar no trapiche com os Capitães da Areia e mostra a essas crianças cheias de desesperança o amor, o cuidado e o carinho através de atitudes corriqueiras, como cuidar de um ferimento, coser uma roupa. É a figura feminina que dá esperança à aridez de suas vidas.


Ao ler essa obra é necessário levar diversos aspectos em consideração. Jorge Amado escreveu "Capitães da Areia" aos 25 anos de idade e chegou a dormir no trapiche com meninos de rua; já havia sido um preso político em outras ocasiões e a primeira edição, cerca de 800 exemplares, foi queimada em praça pública na capital baiana por apresentar ideias simpatizantes ao comunismo.

Mesmo que não se concorde com a ideologia exposta por Jorge Amado nesse clássico brasileiro é preciso levar em consideração os argumentos apresentados pelo autor. Afinal, por qual motivo passados quase 80 anos de publicação de "Capitães de Areia" o governo não conseguiu solucionar o problema dos menores infratores? Por que essa situação tem se agravado e os adolescentes se envolvem cada vez mais cedo em crimes cada vez mais hediondos? A redução da maioridade penal irá solucionar esse problema enraizado na sociedade brasileira? As instituições de correção estão no caminho correto de recuperação?

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