1.7.15

Libertinagem, de Manuel Bandeira

Libertinagem, escrito por Manuel Bandeira

Editora: Global
Páginas: 122
ISBN: 978-85-260-1889-1

No post desta semana, decidi falar um pouco de um dos meus livros preferidos. E não é um romance; falarei sobre um livro de poemas do grande Manuel Bandeira. Acredito, então, que vale a pena trazer breves informações sobre o autor

Bandeira foi um escritor, professor, crítico de literatura e artes plásticas, ensaísta e tradutor brasileiro (pouca coisa rs) que nasceu em Pernambuco (Recife para ser mais exato) em 1886 e morreu em 1968. Viver 82 anos já parece um tempo razoável hoje, mas imagina no caso de uma pessoa de uma época em que a expectativa de vida era significativamente menor e que, ainda por cima, passou a vida toda achando que estava por um fio devido a uma tuberculose que a atacou ainda na juventude. Esse é o caso de Bandeira. Mas falemos mais dele em relação a sua obra. Bandeira é sempre lembrado como um dos maiores poetas modernistas da primeira fase do movimento e era tido como uma espécie de padrinho pelos poetas mais jovens.

Libertinagem é o quarto livro do autor e considerado por muitos especialistas o primeiro dele totalmente afinado com a poesia modernista. O livro foi publicado originalmente em 1930 numa edição com 500 exemplares que Bandeira bancou com o próprio dinheiro. É neste livro que encontramos o poema mais célebre do poeta e que provavelmente todos conhecem: ‘’Vou-me embora pra Pasárgada’’. Além desse, há outros poemas também bastante conhecidos, como ‘’Pneumotórax’’ e ‘’Evocação do Recife’’.

Trata-se de um livro riquíssimo, com poemas que, além de marcarem a história da literatura nacional, nos colocam diante dos mais diferentes sentimentos. Há desde poemas curtos e cômicos como ‘’Porquinho-da-Índia’’ a poemas mais longos e densos como o citado ‘’Vou-me embora pra Pasárgada’’. Uma verdadeira viagem por sensações e sentimentos. Vejamos dois poemas do livro:

Porquinho-da-Índia

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-Índia
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Para os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

- O meu porquinho-da-Índia foi minha primeira namorada.

Andorinha

Andorinha lá fora está dizendo:
- ‘’Passei o dia à toa!’’

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...

Como se percebe, há uma distância grande entre os tons dos dois poemas, enquanto um é praticamente uma piada, cheio de humor, o outro é de um grande pessimismo, de quem se percebe desperdiçando a vida. E ainda tempos ‘’Pneumotórax’’, que junta o humor ao trágico. Percebam:

Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispneia e suores noturno.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.
...........................................................................
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o  pulmão direito infiltrado
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

É muito interessante como Bandeira consegue tirar poesia até de uma consulta médica. Dá pra notar aqui a mesma comicidade de ‘’Porquinho-da-Índia’’ e o mesmo pessimismo de ‘’Andorinha’’, quando o eu-lírico fala da ‘’vinda inteira que podia ter sido e que não foi’’.

Nesses três poemas, já é possível notar muitos traços de Libertinagem e da obra do Bandeira em si, como o lirismo sem pieguismo, o entrelaçamento entre vida e obra (como usar sua doença para fazer poesia em ‘’Pneumotórax’’), a linguagem mais coloquial e voltada pro essencial e o gosto por temas como infância e morte; no plano formal, percebe-se também a musicalidade dos versos mesmo sem o uso de métrica ou rimas, fruto de uma técnica apurada.

Para quem gosta de poesia, é leitura obrigatória, pois, alem de se tratar de uma leitura muito gostosa que pode ser feitas em alguns minutos, serve como excelente introdução ao modo modernista de fazer literatura, tanto em relação à forma quanto aos conteúdos. Bandeira é um autor que nos ganha no primeiro poema e, então, nos vicia.

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