11.6.15

O Alienista, de Machado de Assis

O Alienista, escrito por Machado de Assis

Editora: Penguim & Companhia das Letras
Páginas: 104
ISBN: 9788563560933
Clássico da literatura brasileira, este texto de Machado de Assis continua sendo, cento e trinta anos depois de sua publicação original, uma das mais devastadoras observações sobre a insanidade a que pode chegar a ciência. Tão palpitante quanto de leitura prazerosa, O alienista é uma dessas joias da ficção da literatura mundial.
Médico, Simão Bacamarte passa a se interessar pela psiquiatria, iniciando um estudo sobre a loucura em Itaguaí, onde funda a Casa Verde - um típico hospício oitocentista -, arregimentando cobaias humanas para seus experimentos. O que se segue é uma história surpreendente e atual em seu debate sobre desvios e normalidade, loucura e razão.
Ensaio sobre a loucura e a lucidez, sátira política e comédia de costumes, esta edição de Machado de Assis conta com uma esclarecedora nota introdutória do crítico britânico John Gledson, um dos grandes intérpretes do autor brasileiro.

“O Alienista” é um conto que onde podemos notar a genialidade e a ironia de Machado de Assis. Como descrito por John Gledson no texto introdutório, Machado buscava exemplificar a universalidade da peculiar experiência brasileira, ou seja, criar obras de ficção brasileiras, mas que pudessem ser compreendidas universalmente.

Na provinciana cidade de Itaguaí, Rio de Janeiro, vamos conhecer a história de Simão Bacamarte, médico, burguês, apaixonado pela ciência e que havia estudado boa parte de sua vida na Europa.

Casou-se com D. Evarista, viúva, vinte e cinco anos, quinze a menos que ele. Segundo descrito, nem bonita ou simpática, mas com as condições fisiológicas e anatômicas adequadas para gerar muitos filhos.

Com seu prestígio somado à enorme vontade de dedicar-se ao estudo das faculdades mentais, o médico resolve abrir uma casa de repouso, um hospício: a Casa Verde.

A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão, começo a suspeitar que é um continente.
Ilustração da adaptação em quadrinhos feita por Fábio Moon e Gabriel Bá

Inicialmente a população, de Itaguaí e toda região, incluindo o Rio de Janeiro, acredita que a Casa Verde será um sucesso no avanço científico. O doutor Bacamarte é bastante prestigiado, tendo recebido inclusive um grande baile de inauguração.

Simão Bacamarte começa a dar sinais de sua insanidade e a agir de modo quixotesco, juntamente com seu amigo e companheiro Crispim Soares, o boticário. Inclusive, há trechos em que Machado faz alusão ao célebre personagem.
E partiu a comitiva. Crispim Soares, ao tornar a casa, trazia os olhos entre as duas orelhas da besta ruana em que vinha montado; Simão Bacamarte alongava os seus pelo horizonte adiante, deixando ao cavalo a responsabilidade do regresso. Imagem vivaz do gênio e do vulgo!
O alienista, porém, leva extremamente a sério a expressão “de perto ninguém é normal” e acaba recolhendo para a Casa Verde qualquer pessoa que julgasse louca, tendo chegado a um quinto a população do hospício
De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados de espírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoação.
Irritada com a postura do alienista de internar toda e qualquer pessoa, a população faz um levante contra o médico, liderado por um barbeiro oportunista que tem intenções políticas em benefício próprio. A partir desse ponto, diversas reviravoltas vão acontecendo e conduzindo o conto ao seu genial desfecho.

O que torna a narrativa interessante e bastante fluída não é apenas o enredo; a linguagem elegante, a ironia, as diversas referências feitas por Machado de Assis a passagens bíblicas, ao período clássico grego, à Queda da Bastilha, tudo muito contextualizado e exaltando o conflito vivido pelos cidadãos de Itaguaí, tornam a leitura, além de prazerosa, enriquecedora.

Recomendo essa edição da Penguim & Companhia das Letras, que foi a que li, pois além da excelente e esclarecedora introdução, as notas de rodapé contextualizam muito bem o leitor às referências feitas pelos personagens e pelo narrador.

0 comentários:

Postar um comentário

Obrigado por visitar e comentar no Literature-se.
Assim que puder, visitarei o seu blog. Caso não tenha um, deixe twitter, Facebook ou e-mail para que eu possa respondê-lo :)
Dicas, sugestões e críticas construtivas? Comentários abertos para isso e muito mais, só contando com aquela boa dose de bom-senso necessário, né? ;)

 
Literature-se © Todos os direitos reservados :: Ilustração por Prih Mizuh (@pri_mizuh) :: voltar para o topo