21.6.15

A hora da estrela, de Clarice Lispector

A hora da estrela, escrito por Clarice Lispector

Editora: Rocco
Páginas: 88
ISBN: 85-325-0812-X
Último livro escrito por Clarice Lispector, A hora da estrela é também uma despedida. Lançada pouco antes de sua morte em 1977, a obra conta os momentos de criação do escritor Rodrigo S. M. (a própria Clarice) narrando a história de Macabéa, uma alagoana órfã, virgem e solitária, criada por uma tia tirana, que a leva para o Rio de Janeiro, onde trabalha como datilógrafa.
Em A hora da estrela Clarice escreve sabendo que a morte está próxima e põe um pouco de si nas personagens Rodrigo e Macabéa. Ele, um escritor à espera da morte; ela, uma solitária que gosta de ouvir a Rádio Relógio e que passou a infância no Nordeste, como Clarice. Na Dedicatória do Autor, um pequeno texto que introduz a história propriamente dita, a autora dedica a obra e ela própria à música de Schumann, Beethoven, Bach, Chopin, Stravinsky, Richard Strauss, Debussy, Marlos Nobre, Prokofiev, Carl Orff, Schönberg e outros "que em mim atingiram zonas assustadoramente inesperadas".
A despedida de Clarice é uma obra instigante e inovadora. Como diz o personagem Rodrigo, "estou escrevendo na hora mesma em que sou lido". É Clarice contando uma história e, ao mesmo tempo, revelando ao leitor seu processo de criação e sua angústia diante da vida e da morte.

A obra, publicada em 1977 e escrita por Clarice Lispector, é catalogada como uma novela brasileira e relata as impressões de um narrador perturbado pela sua própria escrita e pela necessidade que sente de falar sobre alguém que apresenta uma história de vida densa e sofrida, que é “verdadeira embora inventada”, o que revela uma característica universal de seu enredo. A obra, então, abarca misérias anônimas, e isto se insere nos treze títulos que o livro possui. Não apenas “A hora da estrela”, mas também “A culpa é minha” (viés também inserido durante a narrativa, o qual acarreta num desconforto por parte do leitor), “Ela que se arranje”, “O direito ao grito”, “Quanto ao futuro”, “Lamento de um blue”, “Ela não sabe gritar”, “Uma sensação de perda”, “Assovio no vento escuro”, “Eu não posso fazer nada”, “Registro dos fatos antecedentes”, “História lacrimogênica de cordel” e “Saída discreta pela porta dos fundos”. Além disso, tal multiplicidade de nomes revela uma necessidade do narrador de escrever e transbordar a miséria da história.

A personagem é jovem, possui apenas dezenove anos e é uma migrante nordestina (situação semelhante à de Josué do filme “Central do Brasil”, o qual também se muda para a cidade grande e, depois da morte de sua tutora, vê-se sozinho e à mercê das misérias da vida). Macabéa representa a maior miséria humana, uma pessoa que, apesar do narrador dizer “o corpo, única posse real” , sofre de diversos problemas de saúde e, no final, fica sujeita a um grave acidente. Não bastasse a própria resignação da personagem frente à sua condição social e financeira, ela parece, aos olhos do leitor e do próprio narrador, não ter consciência sobre o seu grave estado físico – com ânsias de vômito frequentes, uma fome que leva à inação e à inusitada dificuldade de comer, ovários murchos, odor forte, aspecto morrinhento, forte dor de dente e de cabeça, com tuberculose pulmonar... E apesar da decadente miséria humana e física, ela surge, através do que o narrador consegue nos transmitir, com uma delicadeza interior. Sua incapacidade de perceber o mundo à sua volta e ainda assim ser feliz revela a felicidade dos idiotas, e uma alienação de provocar indignação do leitor e até mesmo no próprio narrador que chega a gritar pela própria Macabéa, quando esta continua imersa num estado letárgico e impotente. As colegas de quarto de Macabéa exemplificam tal miséria, aqui uma miséria anônima e abrangente, sobretudo em seus nomes: Maria da Penha, Maria Aparecida, Maria José e Maria “apenas”.

Olímpio é o nordestino namorado de Macabéa que, diferentemente dela, demonstra-se preparado para viver na cidade grande, pois é ambicioso, sagaz e oportunista. Ele finge muito bem, e sabe como usar as palavras, outro grande contraste com a protagonista, a qual se vê ausente até mesmo da capacidade de se expressar, mesmo sendo datilógrafa. Glória, a colega de trabalho de Macabéa, também é o seu oposto, pois além de saber se relacionar com um homem (ou com qualquer outra pessoa), ela é inteligente, possui bens materiais e busca a sua própria glória. É ela quem indica a cartomante Madame Carlota à Macabéa, a qual é responsável por proporcionar a epifania da personagem principal. Ela prevê um futuro bom e feliz para Macabéa, e a morte desta em sua porta (situação que surgiu de uma experiência pessoal da própria Clarice Lispector, quando ela frequentou uma cartomante que lhe disse coisas muito positivas e, depois disso, imaginou como seria engraçado que algo de muito ruim lhe acontecesse logo depois de tantas premonições interessantes) é apenas a consequência dele – a “hora da estrela” é mais do que uma simples quebra de expectativa, ela nada mais é do que o único momento de brilhantismo que a protagonista poderia ter em meio a uma vida inerte e repleta de ausências e lacunas:
“Assim como ninguém lhe ensinaria um dia a morrer: na certa morreria um dia como se antes tivesse estudado de cor a representação do papel de estrela. Pois na hora da morte a pessoa se torna brilhante estrela de cinema, é o instante da glória de cada um e é quando como no canto coral se ouvem agudos sibilantes.” 
Porém, engana-se quem pensa que “A hora da estrela” é uma novela sobre uma nordestina miserável. Ela é apenas o segundo plano desta obra genial. O que acontece é que ela é uma metaficção, ou seja, a ficção que tem consciência da sua própria ficção. O narrador, Rodrigo S. M., tem muito da própria autora, e ele próprio (também ficção) revela que narra sobre algo inventado. Ele é o primeiro plano da história. Tudo o que sabemos de Macabéa é filtrado por sua perspectiva, por sua escrita. E quem é Rodrigo S. M.? É a resposta de Clarice Lispector para a esquerda que tanto a criticava por não escrever romances de denúncia. Ele é um intelectual flutuante (sem gênero, raça, cor) de elite que pouco sabe o que é passar por misérias na vida – que desconhece a realidade da Macabéa e mesmo assim pensa que consegue traduzir os pensamentos e sentimentos da nordestina. E por que um narrador masculino, sendo que a maioria das personagens protagonistas de Clarice é uma figura feminina? Não seria uma crítica clara à dominação discursiva por homens e personagens homens? Quantas escritoras existiam até então? Rachel de Queiroz era, provavelmente, a única prestigiada da década de 30. E quantos homens assinam o discurso sobre o próximo, sobre a camada miserável do Brasil (Freyre, Euclides da Cunha)? Com Rodrigo S. M., Clarice faz uma crítica irônica àqueles que a criticava, e a ela própria, que não se isenta da culpa, de sua posição social. “A hora da estrela” é o livro menos hipócrita que eu conheço; a autora não apenas aponta o problema, como em “Vidas secas”, por exemplo, ela faz parte do problema. Fica um grande convite para a auto-reflexão, pois se desviando da postura de “o inferno são os outros”, temos que saber vestir Rodrigo S. M. Nós somos Rodrigo S. M.

Portanto, ele é Clarice Lispector. Tem dificuldade de lidar e escrever sobre os fatos, e a tarefa de contar sobre alguns acontecimentos da vida de uma nordestina, inclusive sobre o fatídico acidente, parece consumi-lo a ponto de ele sentir a necessidade de morrer junto de sua protagonista. Ainda, imprime à obra uma prosa intimista, marcada pelo fluxo de consciência. E, ao retardar o início da narração sobre a história de Macabéa, ele reflete um autoquestionamento importante, sobretudo em relação ao próprio ato de escrever. 
“Para que escrevo? E eu sei? Sei não. Sim, é verdade, às vezes também penso que eu não sou eu, pareço pertencer a uma galáxia longínqua de tão estranho que sou. Sou eu? Espanto-me com o meu encontro.” 

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