1.5.15

Ventos que sopram para além da razão

"O Morro dos Ventos Uivantes", de Emily Bontë, não é leitura para crianças, e digo isso de coração, porque destrói sem misericórdia as nossas mais caras ilusões sobre o amor romântico. De clima denso, tenso e ritmo duvidoso, explora o lado mais humano dos relacionamentos, com sua falsa nobreza de sentimentos, obrigações filiais, preconceitos morais e, muito mais básico que tudo isso, o nosso lado carente, autocentrado, egoísta. A vontade, a necessidade das personagens (e nossa) de que os mais profundos desejos sejam realizados, seja através da conquista, seja pela benevolência de quem nos rodeia.

Já li/ouvi que Catherine e Heathcliff são "personagens ruins" e, portanto, odiosos. A meu ver, são humanos, sem a camada de ternura com que nos recobrimos para disfarçar as imperfeições. Brontë não disfarçou nada, antes, despiu-os do véu que os tornaria "palatáveis", mostrando-nos as inseguranças, explosões de gênio e os desejos, sempre eles, não sufocados, subindo à tona e mantendo o casal prisioneiro de seu ego, de sua incapacidade mútua de libertar-se.

Imagem do filme de 1992, com Ralph Fiennes e Juliette Binoche
Engana-se quem diz que são "ruins", são especialíssimos, ambos, e nós, com todas essas características transbordantes.

Catherine, moça nascida em família nobre, com todos os mimos de sua classe, pretende um amor calmo, suave, morno, que lhe conceda tudo o que sua doce alma feminina conceber, e anseia o dominador Heathcliff. Este, cigano apaixonado, todo fogo e fúria, é obcecado por Catherine. Ficamos, então, com o paradoxo mais clichê do amor romântico: a atração entre os opostos, que na verdade é só um fio condutor para uma fantástica e trágica história. Catherine se debate em dúvidas; Heathcliff tenta subjugá-la usando a força dos sentimentos mal direcionados.

Fosse um romance atual, dada a idade inicial da moça, estaríamos às voltas com festas e os dilemas juvenis atuais, permeados com as facilidades e contratempos da tecnologia mais recente. Mas estamos na Inglaterra do século XIX, e a desigualdade social e a discriminação racial (na falta de melhor termo, sabendo que os ciganos são vistos há tempos não como raça, mas como nação) estabelecem diretrizes e conflitos, beirando o romance gótico.

Sim, o livro é sombrio, felizmente. Sim, ele nos remete ao lado, em uma palavra, doentio de alguns relacionamentos. E perdoem-me aqueles que procuravam uma leitura "água com açúcar", essa enche as prateleiras de livrarias e bancas de jornal e nos proporciona diversão e maravilhosos sonhos em cenário cor de rosa.

Mas nenhum deles foi consagrado como um clássico da literatura universal.

2 comentários:

  1. Sombrio e realista. Lógico que fiquei com vontade de ler,né? =)

    Que resenha incrível!

    http://detantoqueli.blogspot.com.br/

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  2. Valéria Valerio3 de maio de 2015 05:49

    Olá, Suzzy, obrigada pelo seu comentário! Fico feliz por ter provocado sua curiosidade, depois, conte - nos o que você achou!
    Um abraço!

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