14.5.15

Turismo para cegos, de Tércia Montenegro

Turismo para cegos, escrito por Tércia Montenegro.

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 224
ISBN: 9788535925463
Livro cedido pela editora em parceria com o blog


A vida de Laila está prestes a se esfacelar. Jovem aluna de artes plásticas, ela tem os planos interrompidos por uma doença degenerativa e incurável que vai lhe custar a visão. Conforme a cegueira avança, tarefas corriqueiras tornam-se desafios e tudo o que lhe era familiar precisa ser explorado e redescoberto. Assim, também há algo de novo no envolvimento com Pierre, um funcionário público aparentemente inexpressivo que irá cuidar de Laila com dedicação.
Neste surpreendente romance de estreia, Tércia Montenegro tateia os caminhos que afastam e aproximam os indivíduos, revelando, com linguagem poética, um fluxo sinuoso de incertezas e, acima de tudo, a voracidade pelo desconhecido que reveste tantos encontros humanos.

Laila e Pierre são pessoas que normalmente não se imaginam vivendo como um casal. Laila é jovem, bonita, ousada, estudante de artes plásticas e com o espírito livre; Pierre pode ser descrito como o seu oposto: feio, funcionário público acomodado no seu cargo vitalício, sem amigos próximos e vive rotineiramente um dia após o outro.

Pierre tenta, por orientação do seu psicólogo, de diversas formas encontrar um passatempo que lhe sirva de terapia. Em uma dessas tentativas acaba tendo aulas de pintura com Laila. Quando se conhecem, a doença degenerativa de Laila já está bastante avançada e ela dá a notícia de que não poderá mais dar suas aulas pelo fato de estar ficando cega. Esperando uma reação comum aos seus amigos e familiares, a pena, Laila se surpreende com a reação não convencional de Pierre: mostrar-lhe o que ele chama a “alma do seu avô”, que também ficou cego e resolveu talhar em madeira as viagens que fazia enquanto ainda enxergava e que eram marcadas em um grande mapa.

Quando o avô estava muito velho, o zigue-zague de seus trajetos finalizou um desenho confuso, cheio de ângulos. Então ele percebeu que se tornava cego e contratou um marceneiro para que lhe fizesse a réplica da figura que durante anos esboçara sobre o mapa. Assim o desenho tornou-se palpável, numa estranha peça de madeira.

Dessa forma nasce o romance dessas duas personagens antagônicas. Comprometido a avivar o gosto de Laila pela vida, Pierre decide então levá-la a viagens às praias de Fortaleza, local onde se passa a história, Bahia e Minas Gerais. Porém, contrariando as expectativas do leitor o livro não é a respeito das viagens que podem trazer alguns dias de alegria a uma moça cega, é sobre o rompimento desse relacionamento que nunca teve amor de fato.

Impossibilitado de realizar mais viagens devido à sua situação financeira, Pierre decide comprar um cão-guia para Laila ter mais liberdade na sua rotina monótona e quem narra a história do relacionamento do casal é a vendedora do pet shop que vende o cão-guia e acaba se tornando próxima de Pierre.

No primeiro momento a figura de uma jovem artista plástica que fica cega e perde a possibilidade de trabalhar com aquilo que mais ama pode nos causar empatia pela protagonista, porém Laila é uma personagem que subverte as expectativas e apesar de ser vítima do seu corpo, é uma pessoa forte e que manipula psicologicamente Pierre num relacionamento abusivo.

Essa característica de Laila chama a atenção à vendedora do pet shop que acaba espionando a vida do casal e se aproxima de Pierre para alertá-lo da situação humilhante na qual ele se encontra. À primeira vista pode parecer cruel essa postura, mas os relatos de Pierre confirmam a manipulação que Laila faz com todos à sua volta.

Reconstruir destroços bastava. Como quando se faz uma faxina, batendo os tapetes pela janela. Eu nunca tive tapetes, mas gostava da imagem: a poeira evolando em espirais que ninguém imaginava estarem ali, contidas nas tramas, agarradas à pele do tecido. Entre duas pessoas, acontecia identicamente, os desgastes acumulavam nas réstias. Roedores invisíveis do afeto envelheciam a malha, tornavam as coisas pálidas. Por muitas vezes quis bater um relacionamento assim, vigorosamente espancá-lo até o acúmulo despencar.

O livro é bastante surpreendente, pois primeiramente imagina-se que se tratará de um romance clichê entre duas pessoas de personalidades opostas e que vencerão suas diferenças em viagens inesquecíveis.

Esse clichê é quebrado face à realidade da falta de dinheiro, da rotina massacrante e a total falta de vontade de superação da doença por Laila. É interessante a forma como a autora subverte esse lugar-comum da literatura através de uma personagem com uma limitação física, mas com uma mente ardilosa que manipula e toma atitudes insuspeitas.

0 comentários:

Postar um comentário

Obrigado por visitar e comentar no Literature-se.
Assim que puder, visitarei o seu blog. Caso não tenha um, deixe twitter, Facebook ou e-mail para que eu possa respondê-lo :)
Dicas, sugestões e críticas construtivas? Comentários abertos para isso e muito mais, só contando com aquela boa dose de bom-senso necessário, né? ;)

 
Literature-se © Todos os direitos reservados :: Ilustração por Prih Mizuh (@pri_mizuh) :: voltar para o topo