6.5.15

Na escuridão, amanhã, de Rogério Pereira

Na escuridão, amanhã, escrito por Rogério Pereira.
Editora: Cosac Naify
Páginas: 128
ISBN: 978-85-405-0530-8

Ambientada inicialmente no interior de um estado sulino, a narrativa desvenda uma roça anti-idílica, sufocante, em que os protagonistas se enredam cada vez mais na ausência de comunicação, perseguidos pela ideia de um Deus sem
piedade. Ao migrar para a cidade em busca de vida melhor, a família encontra a aniquilação. Surpreendente em sua força claustrofóbica, este primeiro romance revela um autor excepcional.

Uma família moradora da zona rural se muda para a periferia de “C.”, uma cidade grande localizada em algum estado do sul do país. Assim como a cidade, nenhum dos membros da família, pai, mãe, dois irmãos e uma irmã, possuem nomes. A figura do pai tirano é repudiada a cada frase, a cada página da narrativa.
“Atravessei a fronteira, mãe. Não retornarei. Sei que é impiedoso, covarde, dizer-lhe: prefiro a guerra, os tiros, o estrondo frio da morte, os corpos despedaçados, os mortos amontoados a esta nossa família; ou a tua, ou a dele.”
A decisão tomada pelo pai não promoverá perspectivas de um futuro melhor, ao contrário, na cidade a família se fragmenta, é extinta. A vida torna-se ainda mais vazia e desprovida de diálogos.
“Para onde se vai quando não se sabe o caminho?”
O livro é narrado pelos dois irmãos. Um deles, expatriado, escreve cartas carregadas de ódio e amargura endereçadas ao pai e o outro narra os relatos acontecidos no dia a dia e que se encarregaram de esfacelar a frágil estrutura familiar.

Todos os tipos de abuso são cometidos por esse pai demonizado pelos filhos. A fragilidade e submissão da mãe não permitem qualquer alteração na situação familiar. A única esperança que se agarra é a fé em um Deus que os filhos não só não acreditam, mas repudiam por dar-lhes essa sorte. Diversas passagens trazem o questionamento de um dos filhos à falta de resposta para as orações de sua mãe, que é seu único consolo e sua possível salvação.
“Ela sorria. Mas não era feliz. Ninguém era. Nunca tivemos talento para a felicidade. Ser feliz custa muito, e o nosso tempo já nasceu reduzido.”
Apesar da cidade promover a extinção da delicada estrutura familiar, são os fatores internos que causarão sua total aniquilação. A morte, a perda e a ausência são frequentes nesse núcleo familiar, e são determinantes no futuro de todos os membros.
“Minha avó carrega a morte como as pedras no bolso de uma suicida em direção ao rio. Mas ela nunca entrará.“
“Na escuridão, amanhã” é um livro sobre perdas, ausências e silêncios que permeiam a vida de uma família com relações estremecidas. A história do livro traz à tona as situações vividas por diversas famílias pobres do campo ou das periferias brasileiras: abuso do pai, ausência materna ante a situação vivida, vingança e falta de diálogos.

É uma leitura bastante densa e difícil de digerir, é um livro claustrofóbico, que apesar de suas poucas páginas não é possível fazer uma leitura rápida devido ao sofrimento e desespero narrados pelos irmãos.

0 comentários:

Postar um comentário

Obrigado por visitar e comentar no Literature-se.
Assim que puder, visitarei o seu blog. Caso não tenha um, deixe twitter, Facebook ou e-mail para que eu possa respondê-lo :)
Dicas, sugestões e críticas construtivas? Comentários abertos para isso e muito mais, só contando com aquela boa dose de bom-senso necessário, né? ;)

 
Literature-se © Todos os direitos reservados :: Ilustração por Prih Mizuh (@pri_mizuh) :: voltar para o topo