23.5.15

Inicia-se no Romantismo uma literatura genuinamente brasileira?

Hoje gostaria de trazer uma discussão interessante sobre a literatura brasileira. Será que existe uma literatura genuinamente nacional? 

Para discutir isso, farei uso de textos de Antônio Cândido, um dos maiores teóricos da literatura no Brasil, e exemplificarei as ideias com o poema “Gigante de Pedra”, de Gonçalves Dias, talvez o autor mais importante da primeira fase da poesia romântica brasileira, portanto, seria interessante que fizessem a leitura desse poema antes de continuarem a leitura deste texto. E por que escolhi esse poema? Porque é um poema romântico, e muitos acreditam que a partir do Romantismo começamos a ter uma literatura verdadeiramente brasileira, uma vez que é a escola que começa a valorizar a cultura nacional, como se percebe pelos textos indianistas. Além disso, há toda a questão política envolvendo a independência do país, o que se acredita ter gerado também um desejo de independência cultural, o que afetaria diretamente a literatura. Mas será que isso realmente acontece?  

Antônio Cândido traz, em “Literatura de dois Gumes” (A Educação Pela Noite e Outros Ensaios), a mesma ideia que encontramos na introdução de Iniciação à Literatura Brasileira, também do autor, a ideia de que nossa literatura não é tão original como pensamos de início. É, na verdade, prolongamento da literatura europeia e faz, portanto, parte da literatura ocidental. Temos então uma literatura que vem como imposição dos modelos e tendências europeias, mas que necessitou se adaptar à cultura e a temas da sociedade brasileira, fazendo da nossa literatura uma variante da literatura ocidental. Portanto, a literatura no Brasil nos primeiros séculos foi mais um meio de impor a cultura europeia em nossas terras.

No poema “Gigante de Pedra”, podemos perceber esse movimento de imposição e adaptação. Ao mesmo tempo em que Gonçalves Dias escreve seu poema inspirado nas tendências de uma escola literária europeia, o Romantismo, com sua valorização do passado, a fantasia, o sentimentalismo, a religiosidade etc., vê-se na necessidade de adaptar esses temas à realidade local. Temos, então, nesse poema de Gonçalves Dias, a figura do índio, onde o europeu veria o cavaleiro, temos a imaginação do poeta (meio de transmitir sua subjetividade, como é comum no Romantismo) transformando a natureza em um gigante de pedra e, ao mesmo tempo, vemos também elementos da religião cristã (como Deus e Moisés) trazida para cá pelos portugueses. Ou seja, há temas pintados com as cores locais, mas, por outro lado, há a imposição da cultura europeia. Alguns exemplos no poema do que foi dito:
De lavas ardentes seu membros fundidos
Avultam imensos: só Deus poderá
Rebelde lançá-lo dos montes erguidos,
Curvados ao peso, que sobre lhe ‘stá.
A cruz sempre viva do sol no cruzeiro, Deitada nos braços do eterno Moisés.
Para engrandecer nosso país, a transfiguração da realidade se mostra bastante presente nesse poema, uma vez que, embora o gigante, que é a nossa terra, esteja dormindo, outros elementos ganham vida e movimento aqui, como “Banha o sol os horizontes,/ Trepa os castelos dos céus,/ Aclara serras e fontes,/ Vigia os domínios seus [...] A lua que aos céus monta”. Um lugar cheio de vida, mas que ainda espera seu despertar. Temos a visão de uma terra viva e bela.

Acreditamos que se encaixe bem aqui uma afirmação de Cândido em “Literatura de Dois Gumes”: “No Brasil, sobretudo naqueles séculos, esse estilo equivalia a uma visão – graças à qual foi possível ampliar o domínio do espírito sobre a realidade, atribuindo sentido alegórico à flora, magia à fauna, grandeza sobre-humana aos atos. [...] ao dar transcendência às coisas, fatos e pessoas, transpõe a realidade local à escala do sonho”.

Cândido chama de tendência genealógica: “a interpretação ideologicamente dirigida do passado com o intuito de justificar a situação presente”. A tendência genealógica se caracteriza, então, a meu ver, pela busca das origens e natureza de um povo. Se os autores europeus buscavam no cavaleiro essa origem, os brasileiros tiveram que buscar outra figura. Temos então a figura do índio.   

Cândido diz também que: “O triunfo dessa opinião unilateral significa o apogeu da “tendência genealógica” durante o Romantismo, quando foi fortalecida pelo intuito, politicamente compreensível, de negar os valores ligados à colonização portuguesa”.

Temos nesse poema também essa tendência de se dirigir ao passado, de buscar no índio, não nos portugueses, a nossa origem. Isso pode ser percebido quando o eu-lírico diz que: “Viu primeiro os íncolas/ Robustos, das florestas,/ Batendo arcos rígidos,/ Traçando homéreas festas,/ À luz dos fogos rútilos,/ Aos sons do murmuré!”. Ou seja, se o gigante viu “primeiro” os índios, enfatiza-se que são os verdadeiros donos e as origens desta terra.

Vemos, portanto, uma tentativa de fugir da cultura europeia, de afirmar a nossa independência na literatura, porém, esta continua sendo feita seguindo padrões e tendências importados. De qualquer forma, mesmo preso a padrões literários europeus, o poeta consegue nesse poema expor as particularidades da sua terra, seus sentimentos sobre ela e seu modo de vê-la. Por meio da fantasia e imaginação romântica, ele mostra a natureza viva de seu país. Por meio do saudosismo da escola literária que seguia, mostra a figura do índio, ainda que elemento idealizado e folclórico representante da terra e não como figura propriamente histórica, assim como os cavaleiros para os europeus como foi dito mais de uma vez aqui. Ou seja, por meio de padrões e normas gerais da cultura ocidental, o poeta consegue extrair o seu particular e o da sua terra, sem, porém, diminuir o fato de que a literatura brasileira é só mais uma parte da literatura ocidental, regida pelos europeus. 

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