3.4.15

Resenha: Luzes de emergência se acenderão automaticamente, Luisa Geisler

Luzes de emergência se acenderão automaticamente, escrito por Luisa Geisler.




Editora: Alfaguara
Páginas: 296
ISBN: 978-85-7962-316-5
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
De certa forma, um relacionamento são duas pessoas que se recusam a desistir uma da outra. Duas pessoas igualmente ferradas, claro. É o que escreve Henrique, ou Ike, em cadernos que carrega consigo para todos os lugares. São cadernos em que fala de seu dia a dia, dos amigos, e de sonhos difusos que ele guarda para o futuro.Henrique mora nos subúrbios de Porto Alegre com os pais, e é um garoto que se considera, em todos os aspectos, uma pessoa normal. Está na faculdade, trabalha num posto de gasolina em meio período, tem uma namorada. Fala pouco, é introspectivo, mas cultiva amizades sólidas. Tudo muda quando seu melhor amigo, Gabriel, bate a cabeça num acidente banal e, pouco tempo depois, é hospitalizado em coma. Após uma cirurgia de emergência, não há muito que fazer por ele, dizem os médicos. Apenas esperar. E Ike, os pais de Gabriel, o irmão mais velho e os amigos aguardam o menor sinal de melhora.É então que, perto do Natal, Ike começa a escrever. São cartas em sequência ao amigo, como uma conversa, onde relata o que se passa na ausência do amigo. Para “quando tu acordar”, diz ele. “Queria saber quando tu ia acordar, como tu tá, o que tem acontecido, se tem algo que dê pra fazer”, escreve Henrique. As cartas são entremeadas por narrativas curtas, que dão a elas uma dimensão adicional: até que ponto Ike sabe realmente o que acontece à sua volta? O que pensam os outros?
Gabriel e Henrique são melhores amigos; são vizinhos desde os 6 anos em Canoas, Rio Grande do Sul. Em uma tarde comum Gabi entra em coma por conta de um acidente doméstico banal. Seu melhor amigo, Henrique (Ike), não sabe como lidar com a sua ausência e fica meses sem sequer visitá-lo no hospital. Para tentar amenizar a falta do amigo, Ike decide escrever cartas para que, quando ele acordasse, soubesse o que aconteceu enquanto estava "dormindo". O livro é composto pelas cartas intercaladas com alguns capítulos descritos por um narrador onisciente.

Ike é jovem, vinte e poucos anos, e tem uma vida um pouco sem graça e mal sucedida. Cursa Administração (desistiu de Química Industrial), trabalha em uma loja de conveniências de um posto de gasolina e namora Manuela (Manu), com quem tem um relacionamento à beira do fracasso.

As situações vividas pelo Ike e as referências feitas por Luisa são bastante palpáveis e comuns a todos nós. Ike está preocupado com FIES, não tem certeza se gosta mesmo de cursar Administração, mas não pode desistir porque seus pais o quase matariam como da última vez. Porém apesar da situação pesada vivida por Henrique o livro é bem leve e engraçado e as situações descritas por ele são bastante comuns, casos que nos divertem no dia a dia.
Eu conheço a Manu. Ela ouve barulhos de noite e já fica "Ok, é isso aí, já era, eu vivi bem essa vida curta". Entra sabão no olho dela e ela já começa me falar "Pois é, agora tô cega pra sempre, como é que eu vou ver meu primeiro filho?" (...)
Com Gabi em coma Ike começa a sair com os amigos em comum, mas sempre levando seu bloco de anotações para repassar todas as informações ao amigo. Mente sobre o acidente para semi conhecidos, pois não quer que o amigo entre pra uma lista de “formas mais bizarras para se entrar em coma”. Conhece pessoas, fica bêbado, usa drogas, vai a festas, tenta até um grupo de autoajuda para pessoas que perderam alguém importante, tentando preencher o vazio deixado pelo amigo.

Luisa Geisler não tenta amenizar a linguagem, usa gírias, palavrões e mantém a maneira informal gaúcha e isso contribui para que as cartas sejam bastante verossímeis, assim como os personagens e situações descritas.

A história não tem um enredo clássico, com início, meio e fim, nem um clímax. Talvez por isso ela seja interessante, porque é a vida da forma como ela é, revelando um personagem fictício com uma vida que poderia ser de qualquer um.

Recomendo a leitura, pois é um retrato da juventude atual que até então tem sido pouco ou mal explorada nos livros contemporâneos.
“Mas”, ele disse, “luzes de emergência se acendendo automaticamente podem ser úteis”.“Dá pra usar no cinema, em prédios, na rua, coisa e tal”.
“Imagina essas luzes na nossa vida. Hein, tá dando alguma merda que te tira a noção, que deixa as coisas mais nebulosas. As luzes acendem.”“Deve ter pessoas assim, que são luzes.”

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