16.4.15

Caderno de um ausente, de João Anzanello Carrascoza.

Caderno de um ausente, escrito por João Anzanello Carrascoza.
Editora: Cosac Naify
Páginas: 128
ISBN: 9788540506558
Neste segundo romance, a estrutura formal continua a ser a principal pesquisa literária do autor. Como o título traz, o narrador desta história, um homem de cinquenta e tantos anos, escreve em um caderno anotações de vida para sua filha recém-nascida, Beatriz. Temeroso de que não acompanhará a maturidade da filha, uma vez que a diferença de idade é muito grande, o homem se põe a narrar a história da família entremeando por impressões filosóficas e poéticas sobre a trajetória de uma vida. A intenção do pai, porém, não é mostrar uma verdade, mas sim a delicadeza - "e eu só sei, Bia, que, em breve, não estaremos mais aqui, e, enquanto estivermos, eu quero, humildemente, te ensinar umas artes que aprendi, colher a miudeza de cada instante, como se colhe o arroz nos campos, cozinhá-la em fogo brando, e, depois, fazer com ela um banquete". Mas mesmo essas palavras, que compõem pequenos trechos escritos ao longo do primeiro ano de vida da crian
ça, não são suficientes para satisfazer o pai - "eu ia te contar o segredo do universo como quem sussurra uma canção de ninar, mas eu não posso, filha, eu só posso te garantir, agora que chegaste, a certeza da despedida".
No texto deste "caderno", o leitor pode acompanhar também a inquietação do pai, ao longo de um ano, pela saúde da mãe de Bia, que vive doente e requer cuidados tanto quanto a criança. O leitor irá reparar que o texto diagramado apresenta espaços em branco ao estilo de Dos Passos - além de expressarem os vazios que a ausência já ocupa, são hesitações deste pai ao tentar escrever a educação sentimental para a filha.

“Caderno de um ausente” é um diário às avessas escrito por um pai de meia idade à filha recém-nascida. Consciente do pouco tempo que provavelmente passarão juntos, o pai, professor com mais de 50 anos, decide suprir a possível ausência na vida filha através do diário, no qual relata principalmente o passado e o que se esperaria de um futuro ideal.
"... eu ia te ensinar por que de não em não o tempo se sacia de nós, o tempo nos nega os desejos e nos avilta os sonhos, por que não existe a terra prometida senão em nós, e por que ela está cercada de continentes barrentos e istmos movediços, eu ia te levar para passear nos bosques que o meu imaginário esculpe, eu ia te ensinar a podar os ramos mais altos das árvores, porque se é preciso aprender a plantá-las é igualmente vital que se saiba apará-las, se eu pudesse, Bia, eu ia te ensinar tudo isso e muito, muito mais, eu ia até te contar baixinho, eu ia te contar o segredo do universo como quem sussurra uma canção de ninar, mas eu não posso, filha, eu só posso te garantir, agora que chegastes, a certeza da despedida".
O pessimismo presente na escrita do pai torna a narrativa triste e melancólica apesar de não haver, até então, nenhuma evidência da concretização dessa separação. Ao apontar as possibilidades da vida ele prefere apontar as dúvidas às certezas e nessa melancolia o narrador faz uma reflexão sobre a vida e os detalhes cotidianos que dão sentido aos dias.
“E, se um homem pode dormir salgado de mar e pela manhã se descobrir guardador de rebanho, e se um outro acordou inseto na mente de um escritor, e se dos desenhos de uma pintora floresceu um abaporu, e se numa tela imóvel irromperam formigas e um cão andaluz, e se campos e ramos e rosas pariram territórios imaginários, tu podes amanhecer tristeza, entardecer esperança e anoitecer sol.”
Não devemos esperar grandes acontecimentos nessa narrativa, pois é o tipo de livro que não existe uma história em si, mas uma sucessão de memórias somadas à reflexão acerca da vida.


O projeto gráfico do livro é repleto de lacunas em branco, assim como a vida cheia de ausências e silêncios que é prevista para a recém-nascida Bia pelo pai que se deu conta de sua finitude e pequenez diante da vida e da morte, narrado lindamente numa prosa poética muito sentimental. A escrita do autor é contida, concisa e silenciosa.

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