3.4.15

Machado de Assis contista

Quando se fala Machado de Assis, geralmente nos vêm à mente os grandes romances do autor, como Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas. Mas Machado foi um grande contista também, um dos melhores que tivemos, na verdade.

Em seus contos, podemos ver muitas das características marcantes dos romances, como o tom irônico, as críticas sociais, as reflexões filosóficas e até o uso da dúvida, como em Missa do Galo. Assim como em Dom Casmurro, que deixa a pergunta se Capitu traiu Bentinho ou não, no conto referido, não sabemos se o Sr. Nogueira, quando jovem, teve alguma relação com Conceição, mulher do amigo dele. Conceição traiu o marido ou não? Leia o conto, que é curtinho, e nos conte rs

Gostaria de falar hoje, porém, sobre outro conto de Machado, chamado A Igreja do Diabo. Neste, há questões filosoficamente interessantíssimas. O enredo é basicamente sobre, como o título já indica, o diabo querendo criar uma igreja. Ele decide que fará uma igreja que conseguirá mais fiéis do que a de Deus, pois, na sua, todos poderão fazer o que quiser, poderão se jogar à vontade em todos os vícios e pecados. O que surpreende é que Deus permite que o diabo inicie esse projeto. E o que surpreende mais ainda é que a igreja de Lúcifer acaba se mostrando um verdadeiro fracasso, pois as pessoas acabam não fazendo tudo de ruim, tudo de errado, pegam-se fazendo caridades, por exemplo, às escondidas.  

Levando em consideração o enredo, percebe-se que o texto lança reflexões sobre a relação entre a natureza humana e as religiões. E, para ilustrar, podemos usar os seguintes trechos:
Um dia, porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas.
Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.
O texto de Machado mostra a precária e complexa natureza humana. A existência de um indivíduo é o conjunto de contradições nesse conto. O homem não é um ser totalmente bom nem totalmente mau, uma oposição ao frequente maniqueísmo dos textos românticos. Então, o conto A Igreja do Diabo vem mostrar justamente isso, os homens não conseguem praticar só as virtudes nem só os vícios. Essa constatação surpreende o Diabo, que não consegue entender o porquê de seus seguidores começarem a praticar boas ações. Somos, portanto, levados a pensar que nenhuma religião com regras de ética inflexíveis pode ter total sucesso. O homem sempre tende a transgredir essas regras, sejam elas consideradas moralmente boas ou não.

Em conclusão, o texto mostra que o homem vive entre Deus e o Diabo se levarmos em consideração que um é a representação do bem e o outro, do mal, embora nem sequer possamos definir o que são esses conceitos, o que aumenta ainda mais a complexidade de nossa existência.

0 comentários:

Postar um comentário

Obrigado por visitar e comentar no Literature-se.
Assim que puder, visitarei o seu blog. Caso não tenha um, deixe twitter, Facebook ou e-mail para que eu possa respondê-lo :)
Dicas, sugestões e críticas construtivas? Comentários abertos para isso e muito mais, só contando com aquela boa dose de bom-senso necessário, né? ;)

 
Literature-se © Todos os direitos reservados :: Ilustração por Prih Mizuh (@pri_mizuh) :: voltar para o topo