17.4.15

Literalmente Falando #14: Sobre expectativas


Hoje vamos conversar sobre expectativas,  as grandes culpadas por - na maioria das vezes - não gostarmos de uma leitura, ou gostarmos mais do que esperávamos. Penso que muitas de nossas impressões em relação a um livro dependem muito do que pensávamos ou esperávamos deles antes da leitura; e estes fatores estão relacionados à expectativa.

Recentemente, li o bastante comentado “Americanah”, de Chimamanda Ngozi Adichie. Confesso que logo que o livro foi lançado não tive interesse em lê-lo, porém, minha curiosidade surgiu e cresceu muito conforme eu lia ou assistia as impressões de muita gente que acompanho. A opinião que me pareceu geral é a de que o livro é maravilhoso e provavelmente se transformará em um clássico contemporâneo. Assim, concluí que a leitura seria, no mínimo, interessante e resolvi encarar suas mais de 500 páginas.

Gostei? Sim, mas não tanto quanto imaginei gostar. Tive alguns problemas com a leitura e com a escrita da autora que não convém mencionar no momento. A questão é que meu interesse pela leitura de “Americanah” surgiu depois de ver as opiniões de outras pessoas e por alguma razão inexplicável aceitei sem margem para erro que o livro é uma obra-prima da literatura contemporânea, sem defeitos, a definição da perfeição. E, obviamente, me frustrei, porque não achei nada disso do livro da Chimamanda. Isso quer dizer que os outros leitores estavam mentindo ao dizerem que o livro é bom? 
Claro que não, estavam apenas expressando as opiniões deles, oras. Errada fui eu que, a partir destas opiniões, passei a enxergar o livro como algo de outro mundo sem sequer ter lido uma página do mesmo, entendem?

Não estou dizendo que é errado esperar algo de uma leitura ou levar em consideração a opinião de outros leitores. Mas prefiro acreditar que, inicialmente, um livro é apenas um livro que poderá, ou não, me agradar; e esta decisão deve ser feita tendo como base apenas a minha experiência com a leitura, sem interferências externas resultantes de expectativas.

Quando leio um livro e não gosto de alguns aspectos, fico incomodada, mas aceito razoavelmente bem os problemas. Porém, quando decido acreditar que a leitura é a nova obra-prima do mundo e encontro nesta algum “defeito”, fico extremamente irritada, me sinto enganada e revoltada. E isso não faz sentido algum, porque ninguém pode garantir com 100% de certeza que qualquer livro publicado é a melhor coisa que já foi escrita. E vale lembrar que o que é bom para mim, pode não ser bom para outra pessoa, certo? Logo, é realmente impossível afirmar de forma objetiva que um livro é horrível ou incrível, porque é tudo uma questão de perspectiva.

Sabendo de tudo isso, evito ao máximo me deixar influenciar por resenhas, sejam estas positivas ou negativas, a respeito de um livro que tenho interesse em ler. Porém, confesso que esta é uma missão difícil quando se trata de um livro bastante popular e comentado, porque sempre sou levada a crer que as páginas em questão irão me encantar ou decepcionar. Porque, sim, há também a possibilidade de as expectativas serem negativas; mas neste caso, acho que a experiência de leitura não é tão afetada e o resultado é agradável. Ano passado, quando comecei a ler “Mentirosos”, de E. Lockhart, já havia visto tantas opiniões sobre o livro que estava esperando me decepcionar e me culpar por ter perdido tempo com um livro ruim. No entanto, o que aconteceu foi justamente o oposto e me surpreendi.

Ou seja, expectativas podem ajudar ou atrapalhar muito. Ainda assim, prefiro que elas não existam. Prefiro me entregar a uma leitura sem esperar nada – nada mesmo, nem bom e nem ruim – e deixar que a história e a narrativa me mostrem se fiz uma boa escolha ou se apenas perdi o meu tempo. É difícil agir dessa forma e, como ficou claro pelo primeiro exemplo, nem sempre dá certo; mas, quando funciona, é ótimo e me poupa do estresse que é terminar um calhamaço com um sentimento de frustração. Digo isso porque se não tivesse esperado muito de “Americanah”, poderia até ter gostado mais dele.

Assim, meu conselho como leitora para vocês, também leitores é: não criem expectativas, nunca. Agora quero saber o que vocês pensam do assunto; digam aí nos comentários que a gente vai adorar saber.

4 comentários:

  1. Assino embaixo! ^_^ Por isso eu prefiro ler o livro sem ler ou assistir resenhas antes. Às vezes eu olho só a nota média que ele vem recebendo no Skoob, para ter uma ideia. Expectativas são muito complicadas (em qualquer aspecto da vida, eu diria). Um exemplo disso é O Apanhador no Campo de Centeio. Eu li sem nem saber do que se tratava e amei. Mas quase todo que lê por causa da fama do livro se decepciona. É realmente complicado ler o livro que o assassino de Kennedy leu e se deparar com uma história relativamente simples de um adolescente melancólico e birrento.
    Beijo!

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  2. Oi, Michas, tudo bem?

    Também tenho esse costume de criar expectativa e tenho ciência de que isso, muitas vezes, afeta minha experiência (pode ser tanto literária quanto cinematográfica). Geralmente, minha tendência é de achar o contrário da opinião usual. Um exemplo recente é a série Demolidor, da Netflix. Escutei todo mundo falando bem dela, mas como tenho um certo preconceito com à Marvel (na verdade, mais com alguns personagens do universo dela), assisti ao primeiro episódio com baixas expectativas. Ainda bem que vi, pois agora posso dizer que é, de fato, muito boa.

    Abraços,
    Lucas.

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  3. Nossa, eu também tenho essa coisa de reparar mais nos defeitos quando todo mundo elogia alguma coisa. Não sei muito bem como lidar com expectativas, porque não acho fácil parar de criá-las, é algo que está além do meu controle. Foi mais ou menos o que aconteceu comigo com Mentirosos, todo mundo falava "não crie expectativas", mas também falava que amou, então não tem como ir no livro sem interferência nenhuma, né? A não ser que a gente só leia livros completamente desconhecidos (o que eu acho bem legal, ler algo só pela capa e pela sinopse, mas como gosto muito de ler resenhas acaba sendo meio raro eu fazer isso). Mas uma coisa que às vezes funciona é só ler os livros "da moda" só depois que eles saem da moda. Só que aí a gente já pode ter perdido a vontade de lê-lo também. Enfim, complicado, mas adorei o tema da discussão. :)

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  4. Eu já errei por causa de resenhas que diziam que os livros eram estupendos. Mas o que me ajudou foi quando comecei a ignorar os comentários qualitativos genéricos (tais como "o livro é maravilhoso", "fantástico" etc etc). Agora dou atenção ao que está sendo elogiado no livro. Por exemplo, quando alguém diz que achou o livro maravilhoso por quebrar certos tabus, eu já sei que não vou gostar pois sou de orientação conservadora, ou quando elogiam muito o romance dos dois personagens (não gosto muito de livros que enfocam relacionamentos amorosos, leio poucos nesse nível, e porque são clássicos, como Jane Austen e correlatos). Depois que passei a usar essa técnica diminuí minha margem de erro em uns 70 a 80%.

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