21.3.15

Sobre Os Lusíadas

Eu queria voltar a falar sobre poesia aqui, mas não sabia sobre o que falar mais especificamente, então tive a ideia de retomar algo que citei bem vagamente no meu primeiro texto para o blog: as epopeias. Decidi, porém, que me focarei só em uma, Os Lusíadas, de Camões.


No último texto que publiquei, falei bastante sobre clássicos, então é quase uma obrigação trazer à coluna a obra considerada de maior importância da língua portuguesa. Pois bem, como já disse na primeira postagem, trata-se de uma epopeia clássica, ou seja, um grande poema narrativo que discorre sobre um acontecimento grandioso envolvendo heróis e vilões igualmente grandiosos e, logicamente, é escrita em versos e segue uma fórmula bastante rígida, neste caso, oitavas decassílabas (estrofes com oito versos e dez sílabas poéticas cada um) e esquema rímico AB AB AB CC, como podem ver no exemplo abaixo tirado da proposição da obra:

“As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;”

E, falando em proposição, vale ressaltar outra característica das epopeias clássicas, a divisão das partes da obra:

1 – Proposição: a introdução, em que o poeta revela sobre o que a obra versará.
2 – Invocação: parte em que o poeta pede a ajuda das ninfas para contar a história (no caso da obra de Camões, elas são as tágides, as ninfas do rio Tejo (principal rio de Portugal), que foram inventadas pelo autor).
3 – Dedicatória: como o nome já diz, o texto é dedicado a alguém nesse momento (por questões burocráticas, Camões dedicou o poema ao jovem rei D. Sebastião).
4 – Narrativa: a história em si.
5 – Epílogo: o encerramento da história.

O fato narrado em Os Lusíadas é realmente grandioso, nada menos do que o momento mais importante da história de Portugal,
As Grandes Navegações. A narrativa começa no que chamamos de in media res, que, traduzido literalmente do latim, significa ‘no meio das coisas’ ou ‘nas coisas mediais’, ou seja, a narrativa começa já no meio da jornada, com Vasco da Gama (famoso navegador) e sua tripulação a caminho das Índias, tentando contornar a costa da África e enfrentando as armações de Baco e dos mouros (muçulmanos). Toda a aventura dos portugueses é mitificada, com inserção, inclusive, dos deuses greco-latinos, como o citado Baco, o grande vilão da história, que fará de tudo para que os portugueses não consigam realizar os grandes feitos para os quais estão destinados. Esses terão que enfrentar um deus sagaz e mal-intencionado, povos hostis, tempestades e até um gigante de pedra, que é a personificação do Cabo das Tormentas, rebatizado como Cabo da Boa Esperança.

(x)

Os elementos da mitologia greco-latina são de enorme importância, pois toda a narrativa segue um padrão de "Baco arma alguma coisa para prejudicar os portugueses, Vênus intervém, eles superam as dificuldades impostas pelo deus invejoso". Toda essa intriga envolvendo os deuses romanos tem início no Concílio dos Deuses, que devem decidir ajudar ou não os lusitanos em suas aventuras. No final do Concílio, Júpiter, persuadido por Vênus, que se simpatiza com os portugueses, decide que eles devem, sim, alcançar as glórias que os esperam. Baco, porém, com receio de ser esquecido, decide ir contra essa decisão e arma várias ciladas paras os navegadores. Creio que o receio dele se deva ao fato de os portugueses serem cristãos, ou seja, de uma religião que tende a rejeitar o sincretismo. Por mais que haja a questão das especiarias e tudo mais, vale lembrar que a catequização de outros povos era um dos maiores objetivos das Grandes Navegações, o que fica sempre claro na obra aqui em questão. A luta contra os muçulmanos deixa isso evidente. Deixa claro também que, como lembra Jérôme Baschet, as Conquistas (resultantes das Grande Navegações) são consequência direta da Reconquista, ou seja, movidas por uma visão ainda medieval. 

A obra quase toda carrega um tom de exaltação, de louvor aos grandes feitos lusitanos. E a exaltação não fica só nas Grandes Navegações, a história de Portugal é o tempo todo recuperada e exaltada, desde sua pré-história. Teremos, então, relatos de outros momentos importantes da história do país, como sua fundação, quando D. Afonso Henriques declara que o Condado Portucalense agora era um reino independente e guerreia contra sua própria mãe pela terra que hoje chamamos de Portugal. O poeta invoca as ninfas para justamente lhe dar inspiração e competência para construir o discurso altivo que a história de seu país merece:

"E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mim um novo engenho ardente
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mim vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto, e sublimado,
Um estilo grandíloquo e corrente,
Por que de vossas águas Febo ordene,
Que não tenham inveja às de Hipocrene."

O epílogo, porém, traz um tom melancólico, desesperançoso, pessimista:

“Não mais, Musa, não mais que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.”

O som alto e sublimado é substituído por um destemperado e enrouquecido. Isso se explica pelo fato de Camões já estar observando a decadência de Portugal, que começa já pela perda de valores, pela deturpação dos ideais nacionalistas, que são reduzidos a ganância e arrogância em um Estado já engolido pela burocracia. Não é difícil de imaginar o porquê de ele pensar assim se levarmos em conta a dificuldade que teve para publicar sua obra, que só fazia exaltar os grandes feitos de seu povo. Eis o motivo de dedicar a obra ao rei; conseguindo o apoio do monarca, mais fácil seria de conseguir superar a Inquisição, que poderia implicar com alguns aspectos do texto. Afinal, embora a obra tenha um teor bastante cristão, é cheia de elementos pagãos necessários para fins artísticos, o que foi reconhecido por Frei Bertholameu Ferreira em seu parecer que permitiu a publicação da obra. Aqui estão as palavras exatas:

“Vi por mandado da santa & geral inquisição estes dez Cantos dos Lusiadas de Luis de Camões, dos valerosos feitos em armas que os Portugueses fizerão em Asia & Europa, e não achey nelles cousa algűa escandalosa nem contrária â fe & bõs custumes, somente me pareceo que era necessario aduertir os Lectores que o Autor pera encarecer a difficuldade da nauegação & entrada dos Portugueses na India, usa de hűa fição dos Deoses dos Gentios. E ainda que sancto Augustinho nas sas Retractações se retracte de ter chamado nos liuros que compos de Ordine, aas Musas Deosas. Toda via como isto he Poesia & fingimento, & o Autor como poeta, não pretende mais que ornar o estilo Poetico não tiuemos por inconueniente yr esta fabula dos Deoses na obra, conhecendoa por tal, & ficando sempre salua a verdade de nossa sancta fe, que todos os Deoses dos Gentios sam Demonios. E por isso me pareceo o liuro digno de se imprimir, & o Autor mostra nelle muito engenho & muita erudição nas sciencias humanas. Em fe do qual assiney aqui.”

Não haveria mesmo o que acusar de anticristão na obra, pois sempre é o Deus cristão que é exaltado, e recebe os agradecimentos das personagens quando essas conseguem superar as dificuldades impostas por Baco e resolvidas com a ajuda de Vênus (logicamente, as personagens não sabem disso).

Quanto ao rei, parece ter se sentido bastante honrado e acreditou mesmo nas palavras de Camões:

“E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitânia antiga liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade;
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deus (que todo o mande,
Pera do mundo a Deus dar parte grande);”

Não muito tempo depois, foi lutar contra os mouros na Batalha de Alcácer-Quibir e nunca mais voltou. Criou-se até um mito de que ele não tinha morrido e um dia retornaria (o Sebastianismo). Daí as coisas em Portugal só desandaram, pois D. Sebastião era jovem e não tinha herdeiro, o que resultou em muitos conflitos políticos e, pouquíssimo tempo depois, na dominação espanhola, quando Felipe II, rei da Espanha, foi proclamado rei também de Portugal.

Acabei não falando muito da parte lírica do texto, mas isso não significa que ela não exista, muito, muito pelo contrário mesmo. Estamos falando de Camões, afinal. O lirismo estará presente o tempo todo no texto. Há passagens lindas, como a do Adamastor, que conta sua história, de como viu sua perdição ao se apaixonar por uma ninfa e como a versão de Camões da história dos infortunados amantes Pedro e Inês, bastante inspirada na peça A Castro, de António Ferreira. Vejam que linda essa estrofe sobre a morte de Inês:
"Assi como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lascivas maltratada
Da minina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está, morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, co a doce vida."

Logicamente, há muito mais para ser falado sobre essa obra magnífica, mas não quero cansar vocês. Para quem se interessou, minha maior recomendação é a leitura do texto integral d’Os Lusíadas, mas, se você acha que é uma leitura difícil e não dá para enfrentar no momento, eu digo para ficar tranquilo, pois a obra é bem mais fácil de ler do que imaginamos. Não vou mentir, no começo é difícil se acostumar mesmo, mas, depois que a gente se acostuma, a leitura fica bastante prazerosa, tanto pelo ritmo quanto pela história, principalmente se você é como eu e adora épicos cheios de mitologia greco-latina e reviravoltas. 

Se mesmo assim você não está convencido a ler o texto integral, há uma adaptação chamada Em Mares Nunca Navegados, da Carmen Seganfredo e A. S. Franchini. Nunca li essa adaptação em específico, mas já li outras dos mesmos autores e adorei, então fica aí a dica. Para quem se interessar pela verdadeira batalha enfrentada por Camões para publicar o livro, indico uma peça do Saramago chamada Que farei com este livro?, que trata justamente disso e é interessantíssima. Enfim, vale muito a pena dar uma chance a Os Lusíadas. Motivos não faltam, é muito provavelmente a obra mais importante da literatura em nossa língua, tem um enredo interessantíssimo, é cheia de passagens belíssimas, ensina muito sobre mitologia e história. E, se esses motivos não são suficientes, caros, Camões levou a vida inteira escrevendo isso, então, não devemos desdenhar como o pessoal da época dele. 

2 comentários:

  1. Nossa, o que foi esse post? Adorei!!! Faça mais desse tipo, por favor!
    Eu nunca tive vontade de ler Os Lusíadas. Claro que eu sabia mais ou menos sobre o que se tratava, mas acho que foi um dos livros obrigatórios no colégio que eu pulei (e olha que eu amo um clássico). Mas sabe que com tantos detalhes aqui eu me animei? Quem sabe um dia eu crie coragem e realmente o leia?

    Beijos

    Meu Meio Devaneio

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  2. Muito obrigado, Soraya!
    E pode deixar, que vou sempre me esforçar para trazer textos bastante informativos. :)
    E leia, sim, Os Lusíadas quando sobrar um tempinho, pois é uma leitura muito enriquecedora.

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