22.3.15

Resenha: Tempo de espalhar pedras, Estevão Azevedo

Tempo de espalhar pedras, escrito por Estevão Azevedo.

Editora: Cosac Naify
Páginas: 288
ISBN-13: 9788540507593
Devoto de qualquer entidade que confirme sua predestinação, Silvério crê que irá encontrar a grande pedra, mesmo quando até as pequenas rarearam. Rodrigo, um dos filhos de Diogo, sente um desejo irresistível por Ximena, filha do maior desafeto de seu pai. Outro filho de Diogo, Joca, diz ter matado nos gerais o famigerado Rosário, e mantém uma amizade com um homem de vida pródiga e sem lastro que a justifique. Sancho, que largou o garimpo para servir ao coronel, vive amancebado com a índia que dorme em seu terreno e que só emite palavras incompreensíveis.
Nas muitas serras ao redor do vilarejo, quando já não há solo que não tenha sido maculado por explosões e picaretas, os homens têm a fatal percepção: as únicas superfícies ainda intocadas e que podem esconder pedras preciosas são aquelas em que suas próprias casas estão erguidas. É nessa essa moldura que as diversas tramas do romance estão inseridas: a do vilarejo paulatinamente destruído por homens que, tomados pelo desespero e pela cobiça, buscam sob vielas e praças, sob salas, quartos, cozinhas e quintais suas últimas esperanças de sobrevivência ou fortuna.
Num povoado sem nome os homens escavam a terra em busca de diamantes que não existem mais. O grupo submisso, controlado por um coronel que não se compadece do sofrimento alheio, busca em meio à terra seca formas de sobreviver à vida escassa e árida. Desprovidos de maiores ambições, os garimpeiros gastam seu dinheiro do árduo trabalho com dois ou três dias de descanso desperdiçando até a última moeda com cachaça e mulheres-dama.

A miséria da vila é descrita com elegância pelo autor, dando a essas vidas tão banais a importância que, provavelmente, não teriam. Dando nome e sentido na ausência de significado de suas vidas comuns, Estevão Azevedo nos apresenta um romance ao estilo de Romeu e Julieta desprovido de qualquer pompa.

Os garimpeiros mais velhos e respeitados da cidade, Gomes e Diogo, são rivais antigos por motivos que se perderam no tempo, ao contrário do ódio crescente de ambos. Ximena, filha de Gomes é uma das moças mais desejadas, mas acaba se apaixonando e tendo um romance com Rodrigo, filho caçula de Diogo, fato que selará o destino não apenas de suas famílias, mas de toda a vila. Vivendo às escondidas, até quando possível, um amor febril e intenso os dois jovens não se importam com as desavenças familiares.
(...) a mão que queria acarinhar, embrutecia-se, lacerava as peles, desenhava danos, o corpo se chocava com o outro corpo como se quisesse esmagá-lo, reduzi-lo a nada...
Outro personagem que marca a história é Silvério, um católico fervoroso, que repete orações à exaustão esperando sua pedra prometida. Silvério vive à beira da loucura e é um personagem bastante caricato, aceita toda a má sorte do seu destino, sua miséria e suas alucinações (que acontecem com frequência graças ao estado permanente de fome) como uma provação de Deus, que lhe enviará um diamante e mudará sua sorte.

O livro possui diversas referências ao livro Cem Anos de Solidão, obra prima do escritor Gabriel García Márquez.

O coronel que aterroriza o povoado com sua implacável justiça se chama Aureliano, nome de um dos diversos personagens do livro de Márquez. Além disso, ao avançarmos as páginas assistimos à completa e literal desconstrução de um vilarejo de vida miserável, tal qual ocorre com Macondo, cidade em que se passa a história de Cem Anos de Solidão. Essa referência nos leva à reflexão de que esse povoado sem nome poderia ser qualquer cidade da América Latina e de continuamos condenados a sofrer os mesmos males, mesmo que esses venham de forma diversas: a guerra civil, o cólera ou o fim da atividade econômica local, nesse caso a extração de diamantes.

Recomendo a leitura de ambos os livros para cortejar suas semelhanças e refletir quanto à situação política e social dos latino-americanos.

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