8.3.15

Personagens femininas na literatura

A literatura é delimitada por escritores masculinos de acordo com uma tradição de prestígio aos homens frente ao mundo acadêmico. Mas nem por isso ela deixou de nos presentear com personagens femininas fortes e marcantes. Claro que isso tem se tornado cada vez mais frequente, mas ainda assim as mulheres são importantíssimas para muitas obras. Sem contar com o aspecto cultural que sempre se encontra nos textos de acordo com as variadas nacionalidades das quais se originam.


Apesar de em Odisseia e Ilíada, por exemplo, as mulheres humanas serem relegadas quase sempre a um segundo plano, sempre sob as sombras de um grande herói ou acontecimento, é de extrema importância a presença de deusas como Hera e Atena, esta última em ambas as obras. Elas participam de decisões e ditam alguns percursos, permitindo, inclusive, o êxito de heróis como Aquiles e Odisseu. Mas voltando os olhos para épocas mais recentes - e seguras -, é Jane Austen quem nos presenteia com personagens admiráveis e repletas de significações. Apesar dos romances "água com açúcar" pelos quais a autora é conhecida, e também do meio social ao qual está inserida (ela e suas personagens, devo ressaltar), há sempre uma crítica social forte nas entrelinhas, e também de forma explícita. Além da própria autora ser um exemplo de mulher na literatura, sempre sofrendo os desígnios de uma sociedade patriarcal, e ainda assim sendo expressiva em seu tempo - e na posteridade ainda mais, como se é de esperar -, Elizabeth Bennet e Anne Elliot (Orgulho e Preconceito e Persuasão, respectivamente) são, tomadas como exemplo, mulheres de personalidades definidas e incrivelmente humanas: se deixam levar pela questão social, como qualquer uma de nós, mas ainda assim são nobres, inteligentes e sabem o que querem. 

Ainda me impressionam mulheres que parecem se apoderar da história (e, em alguns casos, da narrativa). Virginia Woolf é impressionante neste sentido. Clarissa Dalloway, ao decidir comprar ela mesma as flores, parece tomar conta do cenário muito mais do que a autora havia intencionado. Isso também acontece com Daisy Buchanan, mas com menor intensidade devido à forma de narrativa existente em O grande Gatsby, de Fitzgerald. Quem disse que uma mulher precisa ser boazinha para ser impressionante e decidida? Você (e todos) pode até não gostar da personagem, que é uma das mais odiadas da literatura, mas ninguém nega a presença que ela possui, e o quão marcante ela é na vida do Gatsby - e em nossas próprias. E o que dizer de Orlando, também da Woolf, a quem nem a questão de gênero abala? Nascida homem, depois de uma semana acorda como mulher, sempre externando uma fortaleza, uma vivência única... Este é um belo exemplo de livro para se levar a questão de gênero além do texto. Uma tarefa árdua, eu compreendo, mas ainda assim a propósito. 

A quantidade de homens importantes na literatura, seja como personagens ou como autores, é grande e supera a de mulheres. Mas felizmente esta situação está mudando. A literatura contemporânea parece se desvencilhar dos preconceitos ditados contra as mulheres, e é muito expressiva a presença de, por exemplo, narradoras femininas. Elas existem para leitoras mulheres, mas não somente para elas. Estou falando aqui de chick-lits, YAs etc. Ainda que tomados por infelizes preconceitos, são extremamente importantes para a literatura - conquistam e formam assíduos leitores (eu, inclusive). E além deles, há muitos contemporâneos que pisam sobre o desprestígio feminino dentro da literatura. Uma autora incrível atual é Chimamanda Ngozi Adichie, feminista assumida que escreveu livros como Americanah e Sejamos todos feministas (este último é, na verdade, uma palestra dela sobre o assunto). 

O importante é percebermos que costumamos ler, sim, mais autores homens e tentar reverter isso para, pelo menos, uma posição de equilíbrio. Ou nos permitirmos conhecer novas escritoras e novas histórias marcadas por mulheres incríveis. A literatura é, acima de tudo, um testemunho de uma época, de sociedades, de costumes. Testemunham, também, tipos sociais sensacionais e isso não deixaria de se aplicar às mulheres. É altamente satisfatório encontrá-las em nossas leituras. São presenças que dão graça, força e inteligência à obra. 

3 comentários:

  1. Mell, que texto SENSACIONAL!
    Como mulher, sinto falta de uma representação feminina verdadeira na literatura. São poucos os livros que trazem uma mulher real, e fico muito feliz de ver isso mudando.
    Claro que o caminho é longo, e estamos indo em "baby steps", mas a mudança já começou!
    Parabéns pelo texto tão bem escrito e por estimular essa discussão tão importante.
    Beijos!

    http://dacarneiro.wordpress.com

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  2. Este post me criou um incomodo que não dá pra mudar agora, pois a minha meta de leitura de 2015 está fechada, definida.
    Mas próximo ano será mais um critério de seleção de livros e será metade escritoras e a outra escritores.

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  3. Eu provavelmente li mais obras de autores do que de autoras. Percebi agora o quanto é realmente nítido o que você disse no texto e agora realmente fiquei incomodada para mudar esse quadro. Todos falam muito da Jane Austen mas nunca tive o prazer de ler algum livro dela, então acho que vou coloca-la na lista de leitura para 2015, assim como Virginia Woolf (que me deixa mais esperançosa que a Jane, não sei o porquê).
    Falando em personagens marcantes, pouco sei de clássicos - por ter passado um bom tempo tendo certo preconceito contra a escrita, sempre achando que seria muito rebuscada (será que eu achava que todos os clássicos foram escritos em 400 A.C?), mas como atualmente já até me abri a leitura de clássicos como Jorge Amado, Machado de Assis, José de Alencar e Aluísio Azevedo, acho que vou cada vez me aprofundando mais nas épocas e escolas literária - mas posso dizer que achei Marta, de Seara Vermelha (Amado) uma mulher muito marcante, sendo bondosa, inteligente, altruísta.
    E de um lado totalmente oposto, posso falar que outra mulher que simplesmente "lacrou" nos livros mais atuais foi Amy Exemplar, a nada bondosa e nem um pouco altruísta, psicótica, vingativa mas perfeita Amy de Garota Exemplar, da Gillian Flynn.

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