4.3.15

O Conde de Monte Cristo, um exemplo de clássico

Como me propus a escrever também sobre obras clássicas nesta coluna, decidi abordar o tema esta semana. Encontrei, porém, alguns obstáculos, algumas questões que apareceram de cara: o que é um clássico? Sobre qual livro devo falar? Pois bem, a resposta para a primeira questão ainda será discutida por toda a eternidade, e eu não tenho a mínima audácia de tentar trazer uma definição absoluta aqui, afinal, como disse Paul Valéry
"Existe uma infinidade de maneiras de definir o clássico"
Escolher o livro foi mais fácil. Embora seja muito difícil dizer qual é minha obra literária preferida, quando me pedem para responder a essa questão, O Conde de Monte Cristo está sempre entre os primeiros a aparecer na minha mente. Sendo ele também considerado uma obra canônica por unanimidade (acredito eu, embora haja sempre o povo do contra), percebi que cairia como uma luva para esta postagem.

Para saber o que faz esse livro receber o título de clássico, busquei ajuda no célebre Por que Ler os Clássicos, do Italo Calvino. No total, o autor nos traz catorze definições. Dentre elas, a que mais me chamou a atenção foi a seguinte: 
"Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura''
Ou seja, é uma história que você já conhece, mesmo sem ler, por já estar fixada na cultura e ser alvo constante de releituras, como adaptações para outros meios de comunicação, seja numa tentativa de resgate da história original, seja na construção de uma nova inspirada nela. Percebemos bem isso com o Conde de Monte Cristo, que já vem sendo adaptado para o cinema desde 1918, nos primórdios do cinema, e teve as populares adaptações de 1975 e 2002, com Richard Chamberlain e Jim Caviezel, respectivamente, vivendo o protagonista, Edmond Dantès. A obra de Alexandre Dumas recebeu também, em 1998, uma minissérie estrelada pelo ator francês internacionalmente conhecido e admirado, Gérard Depardieu. E, para não se dizer que o livro teve impacto só no Ocidente, a animação japonesa Gankutsuō, de 2005, revela-o como um fenômeno que ultrapassou limites temporários e geográficos, outra característica dos clássicos, que servem como modelo de excelência para obras posteriores.

Essa influência toda da obra já gerou até pequenas polêmicas. Lembro que muita gente dizia que a novela Avenida Brasil imitava a série estadunidense Revenge. Realmente são histórias com muitos pontos semelhantes. Mas a explicação para isso é muito mais simples do que o plágio. Ambos os enredos se inspiraram nas aventuras de Edmond Dantès, com a injustiça sofrida por ele, sua ascensão e busca por vingança, que ele construiu minuciosamente. Na verdade, a novela não imita a série (da qual só assisti aos primeiros episódios, então me perdoe se falar besteira), ambas se inspiram em um clássico, são releituras modernas dele. Veja bem, as três histórias começam com os protagonistas em situações confortáveis: Edmond era um simples marinheiro feliz que acabara de ser promovido e iria casar com a mulher que amava; Emily (ou Amanda) e Nina eram crianças igualmente felizes. Todos tiveram essa felicidade arrancada por injustiças resultantes da ganância de outros. Em um momento das trajetórias dessas personagens, elas conseguem se reerguer: Edmond, preso no Castelo de If, encontra o Abade Faria, que lhe revela onde está escondido um grande tesouro. Nina é adotada por uma família rica. Emily recebe a herença de seu pai. Os três, a partir daí, puderam arquitetar seus planos de vingança, conseguindo se infiltrar na alta sociedade, onde se encontravam então os traidores. Vê-se que a novela não copia a série, ambas simplesmente seguem um processo natural, que é tentar recriar um clássico. A polêmica talvez não existisse, caso houvesse referências diretas à obra original, como acontece no filme Vingança Adormecida, em que uma das personagens dentro do reformatório alimenta seu desejo de vingança com a leitura d'O Conde de Monte Cristo, e em V de Vingança, em que V tem como filme preferido uma das adaptações dessa obra de Dumas.

Olhando essa influência toda d'O Conde de Monte Cristo refletida nessas releituras, tanto as que reaproveitam a história original, quanto as que a tentam recriar sob nova roupagem, compreendo o significado para a definição de clássico mais conhecida do Italo Calvino: 
"O clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer"
São obras que expõem a alma humana, cheias de sentimentos que não se delimitam pelo tempo e o espaço, como a história do Conde de Monte Cristo, que nos fazem experimentar do mais puro amor ao mais terrível ódio. Os clássicos são os livros que melhor conseguem representar o ser humano, por isso são obras que nunca terminam de dizer o que têm para dizer, continuam inspirando gerações, continuam a ser recriados por outros autores, são fórmulas seguras de encantamento. Continuam a dizer por outras vozes o que vieram dizer, por isso o tempo é impotente contra eles. Continuaremos lendo e assistindo à história de Edmond Dantès, nomeado Edmond mesmo, Emily, Nina ou qualquer outro nome. Se tudo na arte se imita, os clássicos são as maiores vítimas da imitação, que, neste caso, não é passível de repreensão, pelo contrário, é justificável e louvável, pois clássicos servem para ser recriados mesmo.

Termino, então, fazendo um convite para a leitura dessas obras que vencem o tempo e o espaço. Pense que você pode acabar descobrindo que aquela série que você adora tem por trás uma obra ainda mais grandiosa. E, indicando já uma dessas obras, não fique com medo de encarar O Conde de Monte Cristo. Sei que é enorme, mas a experiência é muito recompensadora, não só pelo que eu disse aqui, mas pela história em si, que é uma das mais impressionantes que já li, envolve-nos de tal maneira que suas mais de mil páginas (não em todas as edições) parecem diminuir para menos que a metade. Alexandre Dumas foi, sem dúvida, um dos melhores contadores de história de todos os tempos. E não esqueça, se tiver exemplos de outras boas releituras de clássicos e polêmicas parecidas com a de Avenida Brasil e Revenge, deixe-nos saber nos comentários!

1 comentários:

  1. Oi, Marllon. Gosto muito dos livros clássicos e um dos motivos por eu gostar tanto é justamente por eles serem inesgotáveis e terem tantas possibilidades de interpretações, nos surpreendendo a cada releitura. O livro do Calvino que você citou é muito bom, assim como "O Conde de Monte Cristo". Já viu esse vídeo sobre Dumas? https://www.youtube.com/watch?v=fC_9Fv6-kb4 Gosto muito dessa professora. :)

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