5.2.15

Resenha: Sagrada Família, Zuenir Ventura


Sagrada Família, escrito por Zuenir Ventura

Editora: Alfaguara

Páginas: 232
ISBN: 9788579621413
Com nostalgia e bom humor, o narrador faz uma viagem ao passado, à ficcional cidade de Florida, para recontar o que viveu em meio a uma numerosa família fluminense. "Este é um livro fortemente inspirado em memórias, mas para não criar problemas familiares com parentes ainda vivos, inventei muita coisa, troquei nomes, romanceei episódios. O que eu queria mesmo era contar uma história que representasse a hipocrisia daquela época", conta Zuenir, sobre sua infância e adolescência vivida em universo "tipicamente Rodrigueano".

O primeiro romance do jornalista Zuenir Ventura, consagrado pelos livros “1968 – O ano que não terminou” e “1968 – O que fizemos de nós” e da reportagem transformada em livro “Chico Mendes – Crime e Castigo”, une elementos ficcionais e biográficos de uma forma nada convencional.

A história narrada pelo agora médico Manéu, que menino se orgulhava da grafia do seu nome até descobrir que se tratou de um erro, remete à sua infância em Florida, cidade fictícia localizada na região serrana do Rio de Janeiro. Apesar de ter como trama principal a vida de sua família, com personagens bastante caricatas das pequenas cidades brasileiras da década de 40, o livro reconstrói um importante período político no cenário do Estado Novo de Vargas, às vésperas da II Guerra Mundial.

O livro, como próprio autor admite, tem inspiração nas obras de Nelson Rodrigues

Despretensioso e muito bem humorado o narrador revela toda a hipocrisia da moralidade e sexualidade da sociedade àquela época.

Suas férias eram sempre na casa da tia Nonoca, jovem, viúva e bonita, que ainda guardava luto do marido falecido. Tia Nonoca tomava sua injeção religiosamente uma vez por semana e é nessa atividade corriqueira que Manéu inicia a perda de sua inocência e começa a se atentar à hipocrisia vivida por sua família conversadora. Ao escutar o sofrimento da tia na farmácia e resolver espiar o que acontecia ele acaba descobrindo que a injeção não era bem o que ele imaginava.

“Regiões do corpo até então quietas e serenas, como o sexo, se agitavam e assumiam novas formas, se enrijeciam de repente. Uma parte de mim sentia grande prazer nessa transformação, outra se angustiava. Eu queria que alguém explicasse o que estava acontecendo comigo, mas não tinha coragem de perguntar. E perguntar a quem?” (pg. 20-21).

O autor relata também personagens famosos de Florida, como dona Edith, dona de uma casa de prostituição com regras formais de comportamento dentro de seu bordel.  Além de Douglas, um típico bad boy da época, bonito e agressivo, que se envolve com uma de suas primas, filha de tia Nonoca, e que transforma de maneira inesperada a vida de toda aquela família.

De caso a caso, Manéu avança no tempo revelando a falsa moralidade vivida na cidade, como a proibição das meninas dormirem de bruços no colégio de freiras para que se evitasse o contato de suas partes íntimas com o lençol. Todos os acontecimentos são narrados enquanto o país e o mundo passam por um momento político bastante sensível, o que tem certa influência em algumas personagens.

Com a idade já avançada, Manéu que havia se mudado de Florida, regressa à pequena cidade e rememora algumas situações vividas pela família e começa a ter evidências de algo inesperado.

O livro é muito bem humorado e narra de maneira bastante divertida toda a hipocrisia do recato imposto à época e aborda temas bastante polêmicos. O seu desfecho, em especial, pode chocar por nos revelar um fato bastante pesado e sobre o qual até então não havia evidências, mas a experiência da leitura é extremamente válida e certamente quem vive em cidades pequenas irá reconhecer muitas figuras caricatas. 

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