19.2.15

Resenha: O Irmão Alemão, Chico Buarque

O Irmão Alemão, escrito por Chico Buarque
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 200
ISBN: 9788535925159
Sergio Ernest nasceu em Berlim em 1930. Chico Buarque viria a saber da existência de seu irmão apenas em 1967, aos 22 anos. Estava com Vinicius de Moraes e Tom Jobim na casa de Manuel Bandeira, quando este mencionou, de maneira fortuita, “aquele filho alemão do seu pai”.
Sérgio Buarque de Holanda morou em Berlim entre 1929 e 1930. Ainda solteiro, lá viveu uma aventura amorosa, e voltou ao Brasil sem ter conhecido o filho que resultou do affair. Embora não fosse exatamente um segredo, essa passagem jamais chegou a fazer parte da conversa familiar.
Transcorrida muitas décadas, Chico Buarque decidiu tomar o assunto – e o silêncio que o cercava – como matéria literária. Havia começado a escrever seu romance em torno de um irmão de quem nada sabia quando encontrou nos guardados da mãe, por acaso, uma correspondência entre autoridades do governo alemão e seu pai, ali chamado de Sergio de Hollander. Já no poder, os nazistas queriam se certificar de que a criança, então sob a guarda do Estado, não tinha antepassados judeus, a fim de liberá-la para adoção. A descoberta desencadeou uma pesquisa exaustiva sobre a vida e o paradeiro do garoto.

Como descrito na sinopse, Chico Buarque tomou conhecimento de seu meio irmão alemão através de Manuel Bandeira. O assunto, bastante vago nas conversas da família Buarque de Hollanda, deu espaço à fantasia para preencher as lacunas não explicadas pelo seu pai Sérgio Buarque de Hollanda.
Durante toda a narrativa a dúvida permeará o leitor. Se por um lado existem provas concretas dos relatos como nomes, documentos e correspondências, a dúvida é até que ponto se trata de relatos ou se são apenas devaneios do narrador.

O livro conta em primeira pessoa a história de Francisco Hollander, ou Ciccio, filho mais novo de Assunta e Sérgio de Hollander. Seu pai é um verdadeiro bibliófilo, amigo íntimo de grandes escritores, dos quais trazia vários exemplares autografados. Sua paixão por livros transforma a casa da família numa respeitável biblioteca particular e é descrita à exaustão durante toda a narrativa.

Até então, para mim, paredes eram feitas de livros, sem o seu suporte desabariam casas como a minha, que até no banheiro e na cozinha tinha estantes do teto ao chão. E era nos livros que eu me escorava, desde muito pequeno, nos momentos de perigo real ou imaginário, como ainda hoje nas alturas grudo as costas na parede ao sentir vertigem. (pg. 16)

O irmão mais velho, Mimo, não era muito dado às leituras. Seu real interesse na vida era seduzir o maior número possível de meninas virgens que pudesse encontrar, mas, apesar disso, era extremamente próximo ao pai. Essa relação causava grande desconforto no narrador.

Ciccio se sentia inferior e invejava quase tudo em seu irmão: sua beleza que conquistava todas as mulheres que quisesse, as mulheres propriamente ditas e sua relação com o pai. Suas atitudes o denunciavam: as moças com quem se relacionava eram exclusivamente aquelas que ele tinha certeza que acompanharam seu irmão em algum momento e era capaz de aprender francês apenas para ler algum livro no original e impressionar o pai.

Ele, um estudante de Letras bastante presunçoso, remexia os livros do pai para sempre poder levar algum livro autografado em suas aulas e causar certa inveja em seus colegas e professores. Em algum desses momentos acabou por pegar um livro que carregava dentro uma carta que daria inicio à sua busca. A carta de Anne Ernest, a namorada alemã de seu pai enquanto esteve em Berlim, revelava que ela teria um filho seu.

A partir dessa descoberta o narrador vai iniciar uma busca para encontrar seu irmão alemão. A investigação, sempre às escondidas, com buscas secretas e insinuações, é desenrolada na dualidade do livro. Embora bastante convincente, alguns trechos do livro parecem fantasiosos.

Toda a narrativa se entrelaça ao cenário político brasileiro da ditadura militar e suas terríveis consequências para época, repercutindo de maneira direta na vida familiar do próprio narrador.

A história de Francisco de Hollander pode ser resumida em uma frase citada pelo próprio em certa altura do livro:

A vida não passa de uma longa perda de tudo que amamos, disse Victor Hugo. (pg. 178)

Enfim, a leitura do livro é bastante dinâmica e rápida, pois é quase impossível se desvencilhar do mesmo enquanto tentamos desvendar o paradeiro do irmão alemão junto com o protagonista. A história me envolveu bastante e o amadurecimento de Chico Buarque só lhe fez bem.

1 comentários:

  1. Meu namorado é alemão e disse que ia comprar esse livro pra mim só por causa do título! rss
    Eu nem sabia do que se tratava, parece bem interessante!

    http://www.meuepilogo.com

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