18.2.15

Resenha: O Cemitério de Praga


O Cemitério de Praga, de Umberto Eco

Editora: Record       
Páginas: 480
ISBN: 9788501092847


Personagens históricos em uma delirante trama fantástica. Trinta anos após O nome da rosa, Umberto Eco nos envolve, mais uma vez, em uma narrativa vertiginosa, na qual se desenrola uma história de complôs, enganos, falsificações e assassinatos, em que encontramos o jovem médico Sigmund Freud (que prescreve terapias à base de hipnose e cocaína), o escritor Ippolito Nievo, judeus que querem dominar o mundo, uma satanista, missas negras, os documentos falsos do caso Dreyfus, jesuítas que conspiram contra maçons, Garibaldi e a formação dos Protocolos dos Sábios de Sião. Curiosamente, a única figura de fato inventada nesse romance é o protagonista Simone Simonini, embora, como diz o autor, basta falar de algo para esse algo passar a existir...

                                                                             “Uma obra destinada a se tornar um clássico” –
                                                                                                                                           La Repubblica


Para adiantar minha opinião e falar a verdade, comprei esse livro com muita empolgação e esperava muito dele. E talvez esteja aí o porquê de eu ter me decepcionado um pouco: esperei até demais dessa obra.

O livro não é ruim, muito pelo contrário. É um livro muito rico, com enredo excelente e com um quadro perfeito do século XIX na Europa pintado por Eco. A narrativa mistura elementos históricos e ficcionais mantendo a verossimilhança, interna e externa, a todo instante, o que é bem difícil de fazer e só mostra a genialidade do autor. Além das personagens inventadas, vocês encontrarão nomes bem conhecidos, como Freud e Garibaldi, por exemplo.

Simonini, o protagonista, é realmente uma personagem construída com maestria, e não me lembro de ter sentido tanta raiva de uma personagem antes. Ele é um ser asqueroso, do tipo que mente, dissimula, perjura, assassina, faz armações cruéis, enfim, um psicopata típico. E, como descobrirão com a leitura, tem mesmo sérios problemas psicológicos. Calma, não fiquem com raiva de mim, pois não é spoiler, vocês perceberão isso logo no início.

Antes de ler qualquer livro, procuro pesquisar um pouco acerca dos fatos sobre os quais a obra discorre, e isso foi de extrema importância para eu não ficar totalmente perdido lendo O Cemitério de Praga. Como disse antes, é um romance histórico, muito histórico até. Os eventos ficcionais se misturam muito com eventos reais, neste caso, não tão conhecidos pelo público comum ou explorados em obras literárias; conhecer, então, as referências históricas é essencial aqui. Não esperem algo como Dumas, que nos vai dando o panorama da época e dos eventos históricos narrados aos poucos e de forma confortável. Eco espera que já os conheçamos. E vale a pena conhecer mesmo, pois é realmente genial o modo como ele consegue colocar coerentemente todos os grandes casos de antissemitismo do século XIX em menos de 500 páginas. A maneira como o autor apresenta Os Protocolos dos Sábios de Sião sendo construídos por Simonini ao longo do século é realmente de admirar.

Mas nem tudo são flores nesta obra, e, depois dos elogios, explicarei o porquê de ter me decepcionado um pouco com o livro. Por mais que o enredo seja excelente, a narrativa não flui muito bem; é tudo muito monótono, com orações longas demais e descrições ainda mais longas. É muito fácil se perder lendo e ter de ler um capítulo todo de novo para compreender em qual ponto da estória nos encontrávamos. Juntando isso, as frases em latim e em francês sem tradução no rodapé (como se todos tivessem ótimo latim), as palavras pouco convencionais do próprio português (aí talvez seja culpa do tradutor), as orações longuíssimas e os excessos de descrições muitas vezes desnecessárias e usadas somente para quebrar o ritmo da narrativa, podemos dizer que é um livro bastante cansativo.

A leitura vale a pena, mas tem que ter muita paciência. Para ser sincero, acho que só fui até o final para não jogar dinheiro fora e por se tratar de uma obra do Eco. Então deixo alguns conselhos: lembrem-se de que uma das principais características desse autor é justamente seu excesso de erudição, portanto, preparem-se bem para ler a obra, pesquisem os assuntos citados na orelha da capa do livro e tenham muita paciência e persistência, pois, acreditem, vão precisar.

1 comentários:

  1. Concordo, é un livro pesado, dificil de ler. Quer quer ler Umberto Eco deve ter uma boa base literária, e comecar pelo O nome da rosa, menos pesado do q este. Mas e um livro fantastico. Parabéns pelo blog e pelos vídeos!

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