4.2.15

Elementos autobiográficos nas obras de Drummond e Bandeira

Como é bem sabido, Drummond e Bandeira foram poetas com alto volume de poemas autobiográficos. E esse é um fato que se explica se levarmos em conta o cenário literário nacional em que produziram suas obras. Não se buscava mais fazer poesia alienante como no Parnasianismo e no Simbolismo. Não se via mais razão para ir ao Ocidente clássico buscar a inspiração para suas criações estéticas. Não dava mais para ficar preso ao misticismo simbolista. Um novo mundo se apresentava e estava pronto para ser explorado pela literatura. Os cenários grandiosos da Antiguidade e as cenas oníricas perdendo espaço para o cotidiano. Afinal, um novo homem estava nascendo e precisava ser apresentado e analisado. E por que não o próprio poeta a se apresentar como esse homem do novo século com seus dilemas, suas preocupações, esperanças e decepções, sentimentos e histórias em suma? O “eu” cotidiano, comum, ganha seu lugar na arte, no belo. É a criação estética tendo como base a vida dos próprios artistas.

Indo a dois dos poemas mais conhecidos de cada autor, “Vou-me embora pra Pasárgada”, “Pneumotórax”, “Confidência do Itabirano” e “Poemas de sete faces” (por favor, leiam esses maravilhosos textos antes de continuarem esta leitura), vemos um conteúdo autobiográfico muito acentuado. Talvez, o que pareça destoar um pouco dos outros seja o primeiro citado, pois não temos nele lembranças ou poetização de uma cena da vida do poeta. Há uma projeção para um futuro fantástico, como se nota pelo uso dos tempos verbais e elementos referenciais; o autor mostra sempre um olhar para o “lá”. Um verso, porém, destaca-se: “Aqui eu não sou feliz”. Em meio a tanta fantasia, uma referência direta ao real. Vemos um escapismo falho. O eu-lírico incorpora o eu do poeta, que tenta escapar das tristezas e problemas da vida por meio da imaginação, da idealização de um não lugar, mas a realidade se mostra em sua frente: ele não se sente feliz. O texto pode não ser o que se espera quando se pensa em autobiografia, porém mostra a ligação do eu com a criação estética de forma relativamente intensa.

Os outros poemas fazem referência direta às histórias de vida dos poetas. Pneumotórax, por exemplo, traz um Manuel Bandeira fazendo humor da doença que o assombrou durante toda a vida (ainda na juventude foi acometido pela tuberculose, que era tão grave quanto AIDS no começo do séc. XX; viveu, porém, até seus 82 anos). Trata-se de poesia satírica tirada de uma cena que tantas vezes deve ter acontecido na vida do autor. Um tuberculoso no início do séc. XX ficava sob intensivo tratamento, mas sempre com pouca esperança de cura total, então a única coisa a fazer era tocar um tango argentino (música de melodia triste), ou seja, esperar a morte. E talvez esse sentimento de desesperança fosse a razão da busca por escapismo, de ida para Pasárgada. O “Aqui eu não sou feliz” causado por “A vida inteira que podia ter sido e que não foi”, consequência de uma doença cruel. Vemos, então, mais uma vez, o forte entrelaçamento entre o poeta, sua história de vida e sua criação estética, algo tão evitado pelos parnasianos, que buscavam objetividade em suas obras, distanciamento entre sua arte e o seu eu.   

Assim como nos poemas de Bandeira comentados aqui, percebemos em Drummond também certo desconforto com a vida, um ar lamuriento, mais nítido em “Poema de sete faces”, em que o poeta se faz personagem e diz que um anjo torto o mandou ser gauche na vida, ou seja, alguém fadado a ser inadaptado. É o retrato do homem moderno perdido em um mundo de mudanças. É em “Confidência do Itabirano”, porém, que vemos o acento autobiográfico mais intenso, um poema marcado por lembranças, por forte sentimento de nostalgia. Há nele também um escapismo falho, em que se tenta fugir para as lembranças de uma juventude idealizada, mas o final traz o choque da realidade: “Itabira é apenas uma fotografia na parede./ Mas como dói!”. O mesmo entrelaçamento visto nos poemas do outro autor se faz presente aqui.

Podemos concluir que, em todos esses poemas, as histórias de vida dos poetas e os sentimentos que elas evocam neles são elementos essenciais. Não há como pensar nesses textos sem levar em conta o elemento biográfico, a vida do autor elevada a matéria-prima da arte. É a transformação do individual em universal pela criação literária.

0 comentários:

Postar um comentário

Obrigado por visitar e comentar no Literature-se.
Assim que puder, visitarei o seu blog. Caso não tenha um, deixe twitter, Facebook ou e-mail para que eu possa respondê-lo :)
Dicas, sugestões e críticas construtivas? Comentários abertos para isso e muito mais, só contando com aquela boa dose de bom-senso necessário, né? ;)

 
Literature-se © Todos os direitos reservados :: Ilustração por Prih Mizuh (@pri_mizuh) :: voltar para o topo