22.1.15

Resenha: Vermelho Amargo, Bartolomeu Campos de Queirós

Vermelho Amargo, escrito por Bartolomeu Campos de Queirós.

Editora: Cosac Naify
Páginas: 72
ISBN: 9788575039625

O primeiro livro pela Cosac Naify de um dos maiores expoentes da literatura infanto-juvenil brasileira não poderia ser mais um. Vermelho Amargo revela uma face diferente do escritor Bartolomeu Campos de Queirós, e o insere definitivamente na literatura brasileira, para além de classificações. Um narrador em primeira pessoa revisita a dolorosa infância, marcada pela ausência da mãe substituída por uma madrasta indiferente.
Vemos os irmãos, filhos de um pai que não larga o álcool e de uma madrasta que serve em todas as refeições fatia cada vez mais finas de tomate, desenvolverem diversas anomalias para tentar suprir a ausência de afeto e a saudade da mãe. Um come vidro, a outra não larga as agulhas e o ponto cruz. Numa espécie de contagem regressiva, o narrador observa seus irmãos mais velhos irem embora de casa.
A prosa memorialística vale a pena, no entanto: afinal, esquecer é desistir, é não ter havido... Neste depoimento de inspiração autobiográfica, a prosa poética de Bartolomeu é dolorosamente bela. Como ele mesmo coloca na epígrafe, foi preciso deitar o vermelho sobre papel branco para bem aliviar o seu amargo.
Uma obra delicada como arame farpado, nas palavras do diretor teatral Gabriel Villela, que assina o texto de quarta capa.
O livro possui apenas 72 páginas de uma história densa e amarga. De cunho autobiográfico, relata as memórias de uma infância amarga e melancólica.

O narrador, um menino, nos apresenta à fria rotina da família composta pelo pai, pela madrasta e seus cinco irmãos após a morte da mãe, revelada logo nas primeiras páginas. Cada um dos irmãos tem sua maneira de lidar com a perda: o irmão que come vidro, a irmã obstinada a bordar seu enxoval, a irmão que finge ser uma gata. A figura do pai, alcoólatra e distante, intensifica o sofrimento do narrador desamparado e retalha a família página a página.

A separação da mãe é descrita de maneira muito dolorosa e ao mesmo tempo muito delicada e singela. Não há uma história em si, existe uma sucessão de memórias que evidencia o contraste da presença doce da mãe ao amargor de sua substituta. A imagem do tomate, a forma que o narrador utiliza para comparar as duas figuras femininas, ratifica a doce figura maternal ao amargor de sua substituta.

Oito. A madrasta retalhava um tomate em fatias, assim finas capaz de envenenar a todos. Era possível entrever o arroz branco do outro lado do tomate, tamanha a sua transparência. Com a saudade evaporando pelos olhos, eu insistia em justificar a economia que administrava seus gestos. Afiando a faca no cimento frio da pia, ela cortava o tomate vermelho, sanguíneo, maduro como se degolasse um de nós. Seis. (pg. 9)
Antes, minha mãe, com muito afago, fatiava o tomate em cruz, adivinhando os gomos que os olhos não desvendavam, mas a imaginação alcançava. Isso, depois de banhá-los em água pura e enxugá-los em pano de prato alvejado, puxando seu brilho para o lado do sol. Cortados em cruzes eles se transfiguravam em pequenas embarcações ancoradas na baía da travessa. (pg. 14/15)

É possível observar o contraste também na escolha e no tamanho das orações. As frases que descrevem a madrasta são curtas, mecânicas como a própria. Já ao descrever sua mãe o menino é delicado e estende suas memórias.

A forma encontrada para vencer a solidão, uma vez que seus irmãos não estavam tão interessados no sofrimento do garoto, foi se encontrar nos livros, aos quais há diversas referências.

Mas uma certeza me vigiava: ler era meu único sonho viável.

Apesar das poucas páginas, a leitura parece extensa, como se o leitor estivesse tentando vencer cada um dos dias compridos e melancólicos juntos da criança, que tenta se livrar a cada refeição interminável do vermelho amargo oferecido pela sua madrasta.

Os parágrafos da prosa poética poderiam compor pequenos poemas independentes, fortes o suficiente para se sustentarem. É possível notar o cuidado da escolha das palavras, a sonoridade das mesmas aplicadas às situações vividas pelo garoto.

Enfim, é uma leitura difícil, sofrida e amarga, em diversos trechos senti um nó na garganta graças às difíceis refeições vencidas com muito esforço, mas é muito bonita. Quem já amou e perdeu esse amor, certamente se identificará com o pequeno narrador.

1 comentários:

  1. Esta foi a minha primeira leitura do ano.
    Quando dou de cara com uma YA pequeno, de 200 e poucas páginas, termino-o em poucas horas. Mas Vermelho Amargo, com sua densidade inversamente proporcional ao número de páginas, me fez arrastar por horas, com sua enorme carga emocional.
    Adorei a resenha, Isabelle!


    Beijo*

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