23.1.15

Resenha: As virgens suicidas

As virgens suicidas, escrito por Jeffrey Eugenides.
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 231
ISBN: 9788535922196
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.
Num típico subúrbio dos Estados Unidos nos anos 1970, cinco irmãs adolescentes se matam em sequência e sem motivo plausível. A tragédia, ocorrida no seio de uma família que, em oposição aos efeitos já perceptíveis da revolução sexual, vive sob severas restrições morais e religiosas, é narrada pela voz coletiva e fascinada de um grupo de garotos da vizinhança. O coro lírico que então se forma ajuda a dar um tom sui generis a esta fábula da inocência perdida.

Sobre o que se trata

Tudo era comum: as árvores, os jardins, as casas, os vizinhos, as famílias... Mas uma coisa se destacava neste típico cenário suburbano dos anos de 1970 de uma cidade estadunidense. Cinco irmãs peculiares que viviam sob o olhar rígido de uma mãe fervorosa e de um pai resignado. Ou talvez fosse assim sob a perspectiva dos meninos do bairro que as observavam e se entretinham pela vida que emanava delas. Principalmente quando, subitamente, a mais nova, Cecilia (de treze anos), tenta se suicidar e, mais tarde, acaba fazendo uma nova tentativa, desta vez obtendo êxito.

A sociedade entra num estado de torpor, muitos tentando ignorar o fato, mas sendo um peso melancólico que afetou cada família, sobretudo a adolescência dos meninos vizinhos das irmãs Lisbon. Narrado sob a perspectiva desses jovens não nomeados, agora não tão jovens assim - sendo homens de meia-idade tentando reviver a situação para compreender um tormento que os acompanhou pelo resto da vida -, o livro tenta rememoriar festas, o cotidiano escolar, depoimentos e furtivas espionagens de garotos através de janelas, para expor uma tragédia que abateu a vida do subúrbio e dos pais Lisbon: o suicídio de todas as irmãs.

Minhas impressões

E não, isso não é uma revelação bombástica, um spoiler contado de maneira maldosa por uma blogueira. É o fato principal do livro, pelo qual ele é mundialmente conhecido. E também se encontra narrado logo nas primeiras páginas. Talvez este seja um exemplo literal - ou literário - do que tento explicar quando digo que não ligo para spoilers, e sim para como a história será contada, ou para o que de fato acontece naquele contexto. Porque ler As virgens suicidas significa destrinchar a vida das irmãs Lisbon, saber como elas se mataram e tentar decifrar o porquê disso. Terminar o livro e continuar com a única certeza que a dúvida representa. Ter a melancolia presente durante toda a leitura, mas sobretudo ao finalizá-la, e entender o quão única é a experiência de se ler um livro que te envolve e perturba mesmo não acontecendo nada de grandioso no enredo, sendo que o principal acontecimento você já sabia de antemão. Ou os principais acontecimentos.

Um tema que vi explícito de forma nada sutil no livro foi o da criação de uma criança. Muitas pessoas, quando se deparam com um adolescente rebelde ou um namoro adolescente proibido, dizem que é impossível impedir os jovens de fazerem o que fazem, que se querem algo, eles realizam, sendo os pais favoráveis ou não. E as família Lisbon é um grande exemplo de que esse pensamento é verdadeiro. O fato da Sra. Lisbon ser uma religiosa fanática e, a partir disso, coibir e cercear suas filhas e a adolescência delas, é algo gritante na história. O leitor se pergunta: se elas não fossem criadas sob uma redoma de vidro frágil e desconfortável, será que tentariam quebrá-la a machadadas tão severas?

O enredo e a escrita são simples, mas as personagens e a narrativa não o são. 

É difícil tentar compreender, junto dos garotos, o que se passava na cabeça das irmãs. Mas também foi difícil para eu entender o quanto os suicídios impactaram a vida deles. Isso está atrelado ao narrador. Tudo é narrado em primeira pessoa por um dos meninos. Mas também me dei conta de que é muito provável que não fosse apenas um menino me contando a história. E se revezassem? É impossível saber, e isso me fez concluir que a primeira pessoa do singular se refere à primeira pessoa do plural. Que o narrador é coletivo e fala por todos os meninos. E que, por isso, a morte das irmãs seja algo ainda mais pesaroso e lúgubre. 

E como eram adolescentes, o fascínio que as Lisbon despertaram neles talvez tenha sido exagerado, visto que sempre precisamos analisar a influência que um narrador em primeira pessoa exerce sobre a história. Mas é claro que fiquei completamente absorvida pelas irmãs Lisbon, assim como eles ficaram. Se paro para pensar sobre a singeleza das vidas que elas tiveram, e de como foram meninas comuns, logo em seguida sou tomada pela certeza de que isso é querer me enganar, e de que foram pessoas totalmente dignas de uma atenção especial, porque foram garotas especiais. Cada uma com a sua personalidade única, refletidas em seus suicídios. E de que isso explica o quão infrutífero é tentar entendê-las.

4 comentários:

  1. Mel, que jeito lindo de contar sobre uma história. Com essas palavras é impossível não querer começar a ler agora mesmo.
    Um livro que até então não tinha me chamado a atenção acaba de entrar para lista dos que quero ler!
    Bjos, Helena


    http://doslivrosumpouco.wordpress.com

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  2. Assisti o filme da Sofia Coppola e me apaixonei! Quero muito comprar o livro, sua resenha me deu mais vontade, haha

    http://laemjupiter.blogspot.com.br/

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  3. Nossa, fiquei com muita vontade de ler esse livro... Já ouvi falar do filme, mas também não tive chance de assistir ainda... Interessante! Abraços, Cris

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  4. Se não me engano tem uma adaptação cinematográfica desse livro né? Aliás, estou procurando esse livro por todas as livrarias da minha cidade, para apenas depois assistir ao filme, mas acho que vou ter que encomendar ou comprar pela internet. Taí um dos porquês de eu odiar morar em Goiânia: apesar de ser uma cidade grande, as livrarias geralmente só tem os mais vendidos e conhecidos. O mesmo me acontece com O orfanato da Srta Peregrine para crianças peculiares, que estou procurando há séculos e também não encontro. Minha mãe tem um mimimi decorado na ponta da língua sempre que digo que vou comprar por algum site, isso acaba me dando preguiça!
    Enfim, fiquei mais ansiosa ainda para ler depois dessa resenha, então acho que vou acabar deixando a preguiça de lado pra comprar logo.

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