25.1.15

Resenha: Americanah, Chimamanda Ngozi Adichie

Americanah, escrito por Chimamanda Ngozi Adichie.
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 513
ISBN: 9788535924732
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.
Lagos, anos 1990. Enquanto Ifemelu e Obinze vivem o idílio do primeiro amor, a Nigéria enfrenta tempos sombrios sob um governo militar. Em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos. Ao mesmo tempo que se destaca no meio acadêmico, ela depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra.
Quinze anos mais tarde, Ifemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos, mas o tempo e o sucesso não atenuaram o apego à sua terra natal, tampouco anularam sua ligação com Obinze. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que deixou e na vida de seu companheiro de adolescência.
Principal autora nigeriana de sua geração e uma das mais destacadas da cena literária internacional, Chimamanda Ngozi Adichie parte de uma história de amor para debater questões prementes e universais como imigração, preconceito racial e desigualdade de gênero. Bem-humorado, sagaz e implacável, Americanah é, além de seu romance mais arrebatador, um épico contemporâneo.

Sobre o que se trata

Ifemelu é uma mulher forte e de personalidade marcante. Não se curva às opiniões racistas e feministas, e vive fazendo comentários críticos quanto às pessoas. Ela já está há treze anos como imigrante nos Estados Unidos, vinda da Nigéria, onde batalhou por se formar, nas dificuldades como uma recém emigrante sem dinheiro até  no conforto como uma famosa blogueira de boa formação acadêmica. Mas agora ela quer voltar ao seu país de origem, e isso é difícil de dizer para qualquer pessoa sem que a grande pergunta surja estampada em seus olhos: mas por quê? Quando descobriam que nem oferta de emprego ela tinha na Nigéria, ficavam ainda mais incrédulos.

Por que Ifemelu, uma cidadã americana formada em comunicação e mestranda em Princeton, com uma vida promissora nos EUA, desejava morar num país caótico (e africano) e abandonar a América? 

Permeando assuntos polêmicos que fazem parte da vida de Ifemelu como uma negra imigrante nos Estados Unidos, e até mesmo questões próprias de cada país, a narrativa acompanha a sua infância, a sua adolescência e os seus treze anos nos Estados Unidos de uma forma íntima, crua e honesta. 

Além disso, o livro aborda a vida de Obinze, o namorado nigeriano do colegial que Ifem precisou deixar para trás para tentar viver uma vida digna noutro país. As greves acadêmicas devido à ditadura militar colocavam em risco a formação universitária dos jovens nigerianos, e aqueles que conseguiam visto para outros países se sentiam com sorte. Ela foi morar com sua tia e primo que já residiam na América, mas, depois do episódio de 11 de setembro, tornou-se impossível para Obinze voltar a ver Ifemelu. E o amor que construíram com base numa cumplicidade encantadora, é consumido pela distância de uma forma desumana.

Minhas impressões

Americanah é uma gíria usada por Ifem e seus amigos para designar os nigerianos que retornavam de temporadas nos Estados Unidos forçando o sotaque como que para ostentar a viagem. Era símbolo de status viajar e passar um tempo em países como os EUA e a Inglaterra, mas Ifemelu e, sejamos sinceros, a maioria dos jovens, não tinham esta oportunidade. Ifem, e o próprio livro, demonstram, já no título, serem intensamente críticos.

O romance envolve o leitor e nos faz torcer por um reencontro, mas é o ponto fraco do livro no sentido de apenas existir para guiar a narrativa de discussões e de críticas por uma história que permite tal condução. Só por isso, o livro se torna rico e justifica suas 513 páginas, as quais passam num piscar de olhos. A escrita é fluida e me senti conversando com a autora, ouvindo uma história de sua própria boca. Quem dera isso fosse verdade, pois Chimamanda é tão interessante quanto Ifemelu, talvez ganhando vantagem em relação à sua personagem justamente por tê-la criado.

E o livro é repleto de sinceridade e honestidade. Desde suas críticas até em seu romance. Além disso, é humano. Seus personagens são humanos demais. Tudo isso torna a história crível, parecendo-nos até mesmo um depoimento verídico. Pergunto-me o quanto da própria experiência da Chimamanda não está contida nas páginas do livro. Se por um lado gostei muito das críticas que surgiram da primeira até a última página, também me apaixonei pelos personagens. Ifem, apesar de cometer muitos erros, é admirável e única. Possui um blog de sucesso e debate questões como a condição do negro na América (em relação a negros não americanos e a negros americanos, inclusive deixando explícito que ela não sabia o que era racismo antes de emigrar). Obinze é repleto de compreensão e responsabilidade. São personagens que poderiam muito bem existir. E é justamente por isso que se torna fácil se identificar com eles e com seus dramas. No final, eu estava tão envolvida, e torcendo tanto pelos dois, que quando terminei a última frase uma emoção muito forte me dominou. Por dois simples motivos: por tudo o que aconteceu com os dois e por eu ter acabado de "perder" um livro. Eu quis mais.

Ainda, a autora possui várias palestras, inclusive você consegue encontrar algumas no Youtube, que tratam sobre temas interessantes. Uma delas, chamada Sejamos todos feministas, foi convertida em livro pela Companhia das Letras, que é quem publica todos os seus livros no Brasil (Meio sol amarelo, Hibisco Roco e Americanah). É igualmente honesta ao tratar sobre a questão de gênero, e alguns detalhes que ela ressaltou de nossa cultura me surpreenderam por eu encará-los de outra maneira. É muito bacana o discurso na íntegra, e felizmente você pode baixá-lo em seu e-reader de graça (Saraiva, Kobo, Kindle, iBook).

2 comentários:

  1. Oi, Mell! Faz um tempinho que sou bem curiosa pra ler alguma coisa da Chimamanda. As duas palestras dela no TED às quais eu assisti são sensacionais. We should all be feminists é ótima, e muito importante, mas a que eu assisti primeiro me marcou mais, talvez por se tratar de um tema sobre o qual eu definitivamente não tinha pensado ainda (ao contrário do feminismo): The danger of a single story. Se você não viu ainda, veja! Acho que você vai gostar.

    Sobre o livro, fiquei feliz de ler sua resenha tão positiva, porque comprei ele há um tempinho (tou esperando chegar, cadê você, moço da entrega? hahaha) e estou bem curiosa e cheia de expectativas. Uma ex-colega minha de faculdade escreveu um TCC bastante focado em Hibisco roxo e me recomendou muito a leitura, apesar de ela já ter me avisado que não é leitura de férias, não. Por isso, decidi começar por Americanah, até porque vai virar filme com a Lupita, né? (e assim eu começo o projeto de ler o mundo também, yay!)

    Beijo!

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  2. Este é um livro que quero muito ler, tanto que já o comprei.
    Da autora, li Meio sol amarelo e foi suficiente para me apaixonar por e por toda sua obra.

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