21.1.15

Não contem com o fim da poesia

[Créditos]
Tenho notado que pouquíssimas pessoas hoje leem poesia. Fora do ambiente acadêmico, parece que ninguém mais tem interesse em discutir um poema. Nos grupos literários espalhados pelas redes sociais, só vejo comentários sobre narrativas. Vivemos a idade da prosa. Mas não foi sempre assim.

Dizer exatamente onde começou a literatura é difícil, uma discussão que não poderei levantar aqui. Por isso, vamos nos limitar e começar pela Grécia antiga. Lá é onde está a base da cultura ocidental e, por conseguinte, da nossa literatura. E, se aceitarmos Homero como o primeiro grande escritor do Ocidente, temos poesia e narrativa misturadas no início de tudo, os famosos poemas épicos, conhecidos também como epopeias. Vocês provavelmente já ouviram falar de A Ilíada e A Odisseia ou até mesmo as leram. Pois bem, são poemas narrativos que falam sobre, respectivamente, o final da guerra de Troia e o retorno de Ulisses para casa. Essas obras seguem um padrão bastante rígido de métrica, ou seja, cada verso tem um número bem definido de sílabas poéticas. Dá um trabalho enorme escrever assim. Mas há uma razão para isso. A literatura grega não era simplesmente para ser lida, era para ser acompanhada por música (sempre era levada uma lira para a declamação dos poemas, daí os termos “lírico” e “lirismo”). O padrão rígido seguido em cada verso garantia a musicalidade da obra literária. Essa combinação de literatura com música acontecia também nas peças de teatro e nos poemas não narrativos, ou seja, em toda a tríade clássica de gêneros literários: o lírico, o narrativo (ou épico) e o dramático.   

A história avança um pouco, o poder político e militar da Grécia sofre uma grande queda, mas sua influência cultural continua forte, mesmo depois de Roma dominá-la. O que acontece é o contrário do esperado, os romanos é que passam a ser influenciados pelos gregos. E isso, logicamente, terá seu reflexo na literatura. São importados os modelos helênicos na arte latina. O poema épico continua sendo o gênero de maior prestígio e, seguindo seu modelo, surge a maior obra da literatura latina, A Eneida, de Virgílio, que serviu como mito de origem para os romanos. Ou seja, os versos continuavam tendo seu destaque e prestígio. Literatura sem eles era algo inconcebível.

A prosa narrativa só começa a se desenvolver mesmo na Idade Média, quando surgem as novelas de cavalaria. Mesmo assim, durante o mais importante movimento literário medieval, o Trovadorismo (do qual farei uma postagem exclusiva futuramente), os poemas é que se destacaram novamente. E a relação com a música se torna ainda mais forte, pois os poemas eram escritos para serem cantados, principalmente nas cortes. Tivemos até reis poetas, como D. Dinis.

Tempos depois, a literatura medieval, de caráter mais popular, acaba se desvalorizando. Muitas mudanças começam a acontecer, alterando bastante a concepção de como a arte deveria ser feita. É o que conhecemos hoje por Renascimento. Os valores medievais começavam a ser fortemente questionados e até rejeitados. E, para confrontar esses valores, os grandes artistas da época voltaram-se para a Antiguidade Clássica. A literatura de caráter popular abre espaço a uma mais aristocrática, baseada na pureza formal e no equilíbrio. O gênero textual de maior prestígio, então, volta a ser a epopeia. Grandes exemplos de poemas épicos desse período são A Divina Comédia, de Dante, e Os Lusíadas, de Camões, considerado por muitos a obra-prima da literatura em língua portuguesa. É nesse período também que cresce o uso e importância do soneto (um tipo de poema de forma fixa), que, embora tenha nascido por volta do século XII também para ser cantado, chegou a Portugal somente na primeira metade do século XVI por meio do poeta Sá de Miranda e foi amplamente usado por Camões.

Podemos pular os períodos barroco e neoclássico, uma vez que darão continuidade, pelo menos no aspecto formal, ao período classicista. É no Romantismo que a poesia começa a mudar de verdade, deixa-se frequentemente a métrica de lado e dá-se espaço a uma criação literária mais livre, com base mais no sentimento do que na técnica. Muitos poetas adotam os versos brancos (sem rima) e os livres (sem contagem de sílabas poéticas). Mas não é só a poesia que muda, a produção literária como um todo se transforma. É aqui que a narrativa em prosa começa a ganhar seu espaço, assim como sua “soberania”. A epopeia passa o cetro a seu herdeiro, o romance. E, embora não queira ser determinista, tenho que apontar alguns fatores que levaram a isso. Sem dúvida, o mais significativo foi a ascensão da burguesia, que passa a ser o principal público dos escritores e se diferencia muito da aristocracia. O burguês não tinha a mesma formação cultural nem o mesmo tempo vago que aqueles. O romance, então, garantia uma leitura mais fácil e rápida, já que apresentava vocabulário, estrutura e referências menos complexos. Ou seja, ao se adaptar ao público burguês, a produção literária começa a seguir uma lógica visando mais ao mercado, o que é outro fator para a ascensão da prosa, que era, geralmente, publicada por capítulos nos jornais (essa narrativa seriada em periódicos é chamada de folhetim) para só depois ganhar uma edição completa. 
  
Vimos que a poesia teve seu lugar de destaque por muito tempo e que a supervalorização da prosa é algo recente, porém fortíssima, a ponto de ser quase impossível ver grandes editoras publicando livros de poemas. A poesia, então, morreu no século XIX? Quantas pessoas vocês veem nos ônibus e metrôs lendo uma obra poética? Quase nenhuma, é verdade. Mas as pessoas não deixaram de consumir poesia. Ela não morreu. E acredito que nunca morrerá, só mudou de ramo. Pode não ser mais publicada por editoras, mas é publicada aos montes por gravadoras. Sim, música e poesia andam juntas desde o começo, como vimos. Tente ler “Cálice”, do Chico Buarque, sem cantar. O que se tem? Poesia de altíssima qualidade. O que diferencia um letrista de um poeta? Nada. Por que D. Dinis era poeta e Caetano Veloso é letrista, se as produções de ambos tinham como objetivo ser cantadas? Vocês podem até dizer que certas letras de música não podem ser consideradas arte. Então eu pergunto: o que é arte? O que é literatura? Nunca alguém achou a resposta. Só nos resta aceitar que tudo muda, assim como as formas e meios de fazer poesia.        

Então, pessoal, esse foi meu post de estreia. rs
Preferi não falar aqui sobre poemas e autores específicos, mas sobre literatura no geral como uma base para futuras discussões. Espero que tenham gostado e prometo que me esforçarei sempre para trazer conteúdos bastante informativos. Futuramente, pretendo ser mais específico e não me limitar só à poesia, mas falar de outras formas de literatura, como contos. Claro que não deixarei os romances de lado, o que quero, porém, é abranger diversas formas de fazer literatura, tanto no plano formal quanto no conteudístico. É isso. Nos vemos em breve. Um forte abraço em todos! 

6 comentários:

  1. joanderson felipe silva barbos21 de janeiro de 2015 16:46

    "Nos grupos
    literários espalhados pelas redes sociais, só vejo comentários sobre
    narrativas.
    Vivemos a idade da prosa." Há algum tempo fiz uma coisa que meio que
    comprava isso que você disse. Eu costumo postar frases, reflexões
    filosóficas e coisas do tipo no meu face, e sempre redem algumas curtidas. Então um dia resolvi fazer um experimento: ao invés de postar frases e mini-textos,
    coloquei um poema junto com um pequeno comentário de incentivo para que
    as pessoas fizessem a leitura. Queria ver como o pessoal do meu face se
    comporta diante de poesia. Resultado: nenhuma curtida sequer. Fiquei desapontado. Desapotado com o descaso, com a falta de interesse.
    Pra piorar, as pessoas que curtem as frases que posto são as mesmas que
    postam frases de grandes autores que, em sua grande maioria, foram
    poetas e poetisas esplêndidos. E, infelizmente, creio que a maioria
    dessas pessoas que postam as frases desses autores nunca leram um poema
    sequer deles, tampouco postam, para enriquecer o conteúdo das redes
    sociais.

    ResponderExcluir
  2. Infelizmente tem havido uma desvalorização muito grande mesmo dos poemas escritos. Eu faço parte de um grupo de escritores amadores no Facebook e acho incrível como quase ninguém lá tem interesse em escrever poesia. Acho que é o medo de não ter público. A sua experiência já mostra bastante que esse medo não infundado.

    ResponderExcluir
  3. Cara que texto sensacional, meus parabéns ! dizem que a poesia está em todo lugar, que é aquela sensação boa de maravilhamento. E sim, a poesia não morrerá enquanto a humanidade não deixar de se encantar, não deixar de sentir as coisas... boa introdução, espero ver comentários sobre poemas aqui no literature-se, Abraço

    ResponderExcluir
  4. Sensacional! Parabéns Marllon. Estreando em grande estilo!

    ResponderExcluir
  5. Obrigado, Wendel. :)

    ResponderExcluir
  6. Obrigado, Apolo!
    Concordo plenamente com você.

    ResponderExcluir

Obrigado por visitar e comentar no Literature-se.
Assim que puder, visitarei o seu blog. Caso não tenha um, deixe twitter, Facebook ou e-mail para que eu possa respondê-lo :)
Dicas, sugestões e críticas construtivas? Comentários abertos para isso e muito mais, só contando com aquela boa dose de bom-senso necessário, né? ;)

 
Literature-se © Todos os direitos reservados :: Ilustração por Prih Mizuh (@pri_mizuh) :: voltar para o topo