19.12.14

Resenha: As meninas, Lygia Fagundes Telles

As meninas, escrito por Lygia Fagundes Telles.
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 301
ISBN: 9788535914306
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.
Não foram muitos os escritores que, no auge da ditadura militar no Brasil, abordaram em seus textos temas como a repressão e a tortura e escreveram obras de contestação como As meninas, de Lygia Fagundes Telles. Livro árduo, dolorido e lindo, As meninas relata os conflitos no relacionamento de três jovens que têm entre si um ponto em comum, a solidão, e como pano de fundo os governos militares. Três universitárias compartilham com algumas freiras um pensionato em São Paulo. Ana Clara gosta de um traficante e vive drogada. Lia briga contra o regime, Lorena, filhinha de papai, ajuda as outras duas com dinheiro. Lia se envolve com Miguel, que é preso e trocado por um diplomata. Sem ligar para a política ou as drogas, Lorena se apaixona por um médico casado e pai de cinco filhos. Um enorme espaço separa o universo das pensionistas e seus dramas das religiosas, que se apavoram com a liberdade das três moças. Cada uma das personagens é um poço de conflitos e monólogos interiores que vêm à tona através das confidências íntimas de cada uma e que se ligam à miséria política e cultural da época. O texto de Lygia Fagundes Telles não cai na vulgaridade, não se banaliza apesar do tema. A linguagem é coloquial e expressiva e os diálogos abandonam as conveniências formais. As meninas de Lygia são, afinal, as jovens do nosso tempo, saídas da adolescência e ingressando na plenitude da mocidade. Nada mais atual. Apontada pela crítica como um sucesso absoluto, As meninas é uma obra que resultou do esforço de três anos de trabalho dessa autora perseverante, que valoriza a palavra e mostra, através de seus textos, a luta de todos nós em defesa da liberdade.

Sobre o que se trata

Em 1973, no auge da ditadura militar, três meninas totalmente diferentes moram num pensionato  de freiras paulistano e compartilham seus dramas pessoais. Lorena, estudante de Direito e de família rica, vive seus dias no seu mundinho à parte, sonhando acordada e esperando que seu amor platônico ligue. M.N. é seu suposto amante, um homem mais velho, médico, que possui esposa e filhos. Sua fixação por ele domina suas conversas, seus pensamentos. Lia, uma mulata filha de baiana e de alemão ex-nazista, passa seus dias afastada da faculdade de Ciência Sociais como militante da esquerda, sobretudo num contexto dramático quando seu namorado é preso. Já Ana Clara, de uma beleza exuberante, entra no mundo das drogas junto de seu namorado traficante, sempre num torpor angustiante.

Essas personalidades extremamente destoantes possuem um elo que se constrói sobretudo no quarto de Lorena, onde, juntas, trocam experiências, desabafos e conversas despropositadas. O fio condutor da trama junta, num novelo só, vidas encharcadas de sentimentos, anseios e recordações

Minhas impressões

Difícil falar sobre um livro tão importante da obra de uma das nossas escritoras mais prestigiadas, mais ainda se há esse reconhecimento e, mesmo assim, acaba não se gostando do enredo. Digo isso porque o livro possui características únicas que o torna um exemplo de livro muito bem escrito, mas tive dificuldades quanto à identificação pessoal.

Cada uma das três personagens principais são muito bem exploradas, sobretudo em seu psicológico, e o livro inteiro se dedica às três e somente à elas, sem desvios. Algumas personagens paralelas aparecem para contribuir para essa construção, sendo uma freira ou o namorado de uma das meninas; e elas nunca ganham a cena.
Os olhos nus. Em verdade vos digo que chegará o dia em que a nudez dos olhos será mais excitante que a do sexo. (pág.14)
Tal aspecto é explicado devido à escrita e à narrativa. De uma forma frenética, há um intercâmbio de narradores: há o narrador onisciente, nem sempre presente, que dá espaço para a perspectiva em primeira pessoa de cada uma das meninas. Além disso, há o recurso do discurso indireto livre e, de uma forma incrível e bela, do fluxo de consciência, muito usado também pela escritora Virginia Woolf. Essa talvez seja a característica mais sensacional do livro. As personagens são, então, expostas de forma nua e crua, sendo o ponto alto, a narrativa de acordo com Ana Clara, pois se trata de um fio condutor nem tão condutor assim; se tratando de uma pessoa sob os efeitos de drogas, o leitor se vê inserido no próprio torpor da narradora, presenciando os pensamentos conturbados dela. Se por um lado isso é louvável de se alcançar através da escrita, não deixo de mencionar que, em algumas passagens, essa mesma característica do livro me irritou, pois às vezes me pareceu um pouco extensa demais. É de atordoar o leitor - e a leitura -, realmente.
Quero ficar só. Gosto muito das pessoas mas essa necessidade voraz que às vezes me vem de me libertar de todos. Enriqueço na solidão: fico inteligente, graciosa e não esta feia ressentida que me olha do fundo do espelho. Ouço duzentas e noventa e nove vezes o mesmo disco, lembro poesias, dou piruetas, sonho, invento, abro todos os portões e quando vejo, a alegria está instalada em mim. (pág. 153)
Alguns temas são abordados sutilmente (raramente de forma explícita), na obra: homosexualidade, a questão da própria ditadura, torturas, greves, dependência química, complexo de Cinderela (possivelmente)... E mesmo assim, o meu problema com o livro é única e exclusivamente questão de identificação pessoal. Eu não me identifiquei com nenhuma das personagens, e simplesmente não fui cativada pelo enredo, sem contar o final, que não me convenceu. Mas consigo, pelos pontos que abordei anteriormente, entender o porquê desse livro ser aplaudido por tantas pessoas que conheço. 
Quero te dizer também que nós, as criaturas humanas, vivemos muito (ou deixamos de viver) em função das imaginações geradas pelo nosso medo. Imaginamos consequências, censuras, sofrimentos que talvez não venham nunca e assim fugimos ao que é mais vital, mais profundo, mais vivo. A verdade, meu querido, é que a vida, o mundo dobra-se sempre às nossas decisões. (pág. 75)

2 comentários:

  1. Mell, o que eu acho mais interessante na literatura da Lygia é justamente a escrita, ponto que você também identificou. A construção do enredo e de cada personagem é muito bem elaborada, de forma que se lêssemos o conteúdo sem o título, sem capas e sem saber quem escreveu, jamais conseguiríamos identificar o autor. Eu particularmente acho sensacional quando consigo desvincular o autor da obra, nesse caso nas obras de ficção. Acho cansativo quando vamos nos "deparando com autor" a cada capítulo, quando o autor não consegue nos transportar completamente para a história. Lygia constrói suas ficções de maneira tão primorosa, que mesmo sabendo que ela viveu o mesmo período retratado no livro, a pessoa dela não fica presa às páginas. Pode ser que hajam muitas características dela incrustadas nas personagens, mas isso não fica evidente no texto. Eu ainda não li As meninas, mas já está na minha lista de próximas leituras. Li Antes do Baile e Verde e A noite escura e mais eu, e estou começando A estrutura da bolha de sabão. E a cada novo livro lido, fico mais apaixonado pela Lygia. Acho que ela é a minha ficcionista brasileira preferida da vida S2.

    Mas quero dizer que adorei a tua resenha. Foi o negativo mais positivo que eu já vi (risos).

    Beijos.

    Wendel

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  2. Desde que eu vi uma novela na globo chamada ciranda de pedra (eu não vejo mais novelas há séculos) eu fiquei louca querendo saber quem era a autora e queria ler o livro. E foi aí que "conheci" a Lygia Fagundes Teles....então esses dois, ciranda de pedra e as meninas eu sempre tive muita vontade de ler, mas por um motivo ou por outro ainda não tive o prazer....Não sei se vou "gostar" mas com certeza tenho que ler algum dia, pela importância da autora para a nossa literatura. Achei essa capa tão delicada....
    bjs e feliz 2015

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