11.11.14

Resenha: Androides sonham com ovelhas elétricas?, Philip K. Dick

Androides sonham com ovelhas elétricas?, por Philip K. Dick
Editora: Aleph
Páginas: 269
ISBN: 9788576571605
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.
Rick Deckard é um caçador de recompensas. Ao contrário da maioria da população que sobreviveu à guerra atômica, não emigrou para as colônias interplanetárias após a devastação da Terra, permanecendo numa San Francisco decadente, coberta pela poeira radioativa que dizimou inúmeras espécies de animais e plantas.Na tentativa de trazer algum alento e sentido à sua existência, Deckard busca melhorar seu padrão de vida até que finalmente consiga substituir sua ovelha de estimação elétrica por um animal verdadeiro; um sonho de consumo que vai além de sua condição financeira.Um novo trabalho parece ser o ponto de virada para Rick: perseguir seis androides fugitivos e aposentá-los. Mas suas convicções podem mudar quando percebe que a linha que separa o real do fabricado não é mais tão nítida como ele acreditava.Em Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, Philip K. Dick cria uma atmosfera sombria e perturbadora para contar uma história impressionante, e, claro, abordar questões filosóficas profundas sobre a natureza da vida, da religião, da tecnologia e da própria condição humana.

Sobre o que se trata?

O mundo pós-apocalíptico além do que restou de uma guerra altamente destrutiva é marcado por uma Poeira radioativa que fez com que a maioria dos seres humanos migrassem para Marte. Os que aqui ficaram vivem sob o risco de mutações e sob a discriminação que segrega quem não se apresenta saudável, num cenário decadente e estéril: praticamente não se vê mais uma animal vivo, e os escombros do que um dia já foi o planeta Terra assolam o dia-a-dia de quem ficou. Já os que vão colonizar o outro planeta até recebem um androide escravo como incentivo - se já não bastasse o incentivo de um ambiente hostil do qual fugir. Tais máquinas são quase perfeitas e se confundem com os humanos. E por terem uma capacidade incrível de raciocínio, às vezes acabam por desejarem a independência e fogem - sobretudo para a Terra, onde existem os caçadores de androides, indivíduos que saem aplicando testes capazes de identificar máquinas e, quando topam com uma e a matam, são recompensados com dinheiro.

Rick Deckard é um caçador de androides que ainda vive na Terra, junto de sua esposa e de uma ovelha - não de carne e osso, mas sim elétrica. Seu maior sonho é comprar e cuidar de um bicho vivo, agregando prestígio social também, mas o valor de um é exorbitante. Quando recebe o desafio de eliminar vários androides de última geração num curto período de tempo, ele terá que tratar não somente de limites físicos, mas também de questões psicológicas fortes e reflexivas. Até que ponto somos humanos? Ou, até que ponto aquele que se precisa matar não é humano? Cabe a alguém a decisão de dar fim à uma consciência?

Minhas impressões

Não adianta, Philip K. Dick gosta de brincar com temas pesados. Ou melhor, ele escreve sensacionalmente sobre assuntos que pressionam o leitor até ele começar a pensar a respeito, e se questionar profundamente. Normal concluir um livro dele e ficar dias a fio pensando sobre o enredo e sobre o que ele transmitiu. E possivelmente esse é um dos pontos mais positivos desse livro.

A religião é um desses temas, e tomou conta de algumas passagens, demonstrando tanto apuramento subjetivo que acaba sendo, essencialmente, um ponto bem íntimo; cada um interpretará a sua maneira. Mas todos concordarão que ajuda quanto às reflexões que o livro desperta no leitor. Outro aspecto que contribui significativamente para isso é a obsessão pelos animais vivos, espécimes raras e símbolo de status social. Aqui, possivelmente o leitor se pergunta sobre os limites do material, sobre o que é ser um ser vivo, ou, também, sobre o tênue limite entre a máquina e o ser humano que este próprio está desenvolvendo cada vez mais. Há muito que ser interpretado nessas passagens, e infelizmente esses dois pontos não aparecem no filme que foi baseado neste livro, o Blade Runner. Apesar de ser bem estruturado, o filme fica um pouco aquém do livro por não apresentar tais temas.




A construção da psicologia dos personagens, sobretudo da de Rick Deckard, é bem marcante. Não do físico, mas claramente do psicológico de cada um. A edificação de um ambiente totalmente diferente é muito bem feito, também. Se senti que faltou uma contextualização maior em Fluam, minhas lágrimas, disse o policial (o primeiro do autor que li), neste essa ausência já não se fez presente. As características principais estão ali, mesmo o autor não entrando em detalhes sobre o funcionamento deste "novo" mundo.

A imersão no mundo caótico criado por K. Dick é capaz de garantir uma leitura densa e introspectiva. Gostei demais da leitura, e recomendo fortemente àqueles que gostam de um conteúdo filosófico permeado por aventuras.

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