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Ensaio sobre a cegueira Saramago

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Uma duas Eliane Brum

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ao farol virgínia woolf

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mulheres de cinzas mia couto

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Extraordinário Luandino Vieira

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Luuanda Luandino Vieira
28.11.14

A noite dos mortos-vivos, escrito por John Russo

Editora: Darkside Books
Páginas: 320
ISBN: 978566636215

Se hoje os zumbis estão em alta é porque, em 1968, George Romero e John Russo se reuniram para escrever o roteiro de A noite dos mortos-vivos e mudar a história do cinema. O filme revolucionou o mito sobre as criaturas que voltavam do além: as superstições vodus das velhas produções B deram lugar à epidemia de fome canibal nas ruas norte-americanas. Criaturas similares já haviam aparecido antes nas telonas, mas foi em A noite dos mortos-vivos a primeira vez em que foram retratados como uma praga devoradora de carne humana. 
O próprio John Russo (que também atua no clássico de 1968 como um zumbi) adaptou a história do filme neste romance que a DarkSide traz para o Brasil. A Noite dos Mortos-Vivos inclui ainda uma surpresa para os leitores: o texto integral da sequência do clássico, que nunca chegou a ser filmada, chamada de A volta dos mortos-vivos (não vai confundir com a comédia trash de 1985, que também contou com Russo no time de roteiristas). Depois de 45 anos, finalmente é publicado no Brasil o romance do filme que marcou gerações.

SOBRE O QUE SE TRATA

Em 1968, John Russo escreveu o roteiro para um filme sobre zumbis que viria a ser dirigido por George Romero. O filme em questão é A noite dos mortos-vivos, obra em que pela primeira vez os zumbis são retratados como algo assustador e uma verdadeira ameaça para a humanidade. Ao longo das décadas, muitas outras obras viriam a beber na fonte do filme de Romero.

Anos depois, em 1973, John Russo romanceou o roteiro de A noite dos mortos-vivos e também o roteiro de uma possível sequência para o filme que jamais chegou a ser gravada (A volta dos mortos-vivos, que não deve ter seu enredo confundido com a de um filme com o mesmo título dirigido por Dan O'Bannon). A edição lançada em 2014 pela editora DarkSide traz as duas histórias.

A noite dos mortos-vivos apresenta uma situação limite e sem precedentes para a humanidade: os mortos retornaram, muito diferentes de como eram em vida, e com um desejo irracional por carne humana. A causa para tais acontecimentos é desconhecida e a população vive em estado de emergência. Quando o livro tem início, todas as formas de comunicação nas áreas rurais dos Estados Unidos parecem não estar mais funcionando e as pessoas que vivem por ali precisam se virar como podem para sobreviver enquanto a ajuda das cidades maiores não chega.

Os acontecimentos do primeiro livro se concentram, quase que totalmente, em uma casa cercada por mortos-vivos. O leitor acompanha as tentativas de sobrevivência das pessoas que estão lá dentro, tanto em relação aos zumbis, quanto em relação a si mesmos.

Em A volta dos mortos-vivos, dez anos se passaram desde os acontecimentos do primeiro livro. Ainda sem saber a causa para o fenômeno, a humanidade enfrenta novamente os mortos que ressurgem, porém, já está preparada para lidar com a situação. Aqui, o perigo não fica por conta apenas dos zumbis, mas também de seres humanos que tiram proveito da situação para praticar atos de violência. Há também referências à religião, à fé e ao modo como a morte passa a ser encarada pelas pessoas.

MINHAS IMPRESSÕES 

Primeiramente, nunca gostei de histórias de zumbi. Não sei explicar o motivo disso, apenas não acho zumbis interessantes o suficiente, apesar de achá-los bastante assustadores. Assim, resolvi ler A noite dos mortos-vivos com o intuito de compreender a origem dos zumbis como os conhecemos hoje na cultura pop e também com a esperança de gostar um pouquinho deles.

Gostei bastante da forma como os livros tem início, com reflexões sobre a vida e a morte, antes de partir para os acontecimentos propriamente ditos.
Pense em todas as pessoas que já viveram e morreram e que nunca mais verão as árvores, a grama, ou o sol. Tudo parece tão breve, tão...inútil, não é? Viver um pouquinho e depois morrer? Tudo parece resultar em nada. Ainda assim, de certa forma, é fácil invejar os mortos. Eles estão além da vida, além da morte.Têm sorte de estarem mortos, de terem feito as pazes com a morte e não precisarem mais viver. Estão debaixo da terra, alheios...alheios ao sofrimento, alheios ao medo de morrer. Não precisam mais viver, nem morrer, nem sentir dor, nem conquistar nada. Ou saber qual é o próximo passo, e se perguntar como seria enfrentar a morte. (Pág. 17)
A primeira história tem início em um cemitério e achei a ambientação bastante satisfatória, pois me ajudou a entrar no clima dos acontecimentos e, ao mesmo tempo, me fez pensar em filmes antigos de terror. Bárbara, a primeira personagem que acompanhamos, se mostra bastante corajosa nas primeiras páginas, logo após sobreviver ao ataque de um morto-vivo, porém, assim que entra na casa e somos apresentados aos demais personagens, se torna a personagem mais chata de todo o livro. 

Pouco depois de a chatice de Bárbara começar, a narrativa começou a ficar arrastada e nada parecia acontecer. Durante páginas e mais páginas, lia apenas sobre como aquelas pessoas estavam começado a se detestar e a perder as esperanças de sobrevivência enquanto a casa era rodeada por zumbis. Mais para o final, a história começa a ter mais ação e o final é bastante surpreendente e, de certa forma, revoltante.

A volta dos mortos-vivos me interessou bem mais. Ao contrário da primeira história, que se concentra em um único local, aqui há movimentação. Os personagens saem de onde estão e tentam encontrar outros sobreviventes, chegar à cidades maiores. Há também momentos em que desconfiamos de alguns acontecimentos e de reviravoltas. Gostei de como o autor abordou o lado ruim da humanidade, que sempre vem à tona em situações limite, revelando monstros tão, ou até mais, assustadores que os zumbis. 

A narrativa em ambos os livros é feita em terceira pessoa e conta com os diálogos dos personagens. Há também trechos que são, na verdade, transmissões de rádio que funcionam para informar o leitor e os personagens sobre os acontecimentos nas regiões afetadas pelos mortos-vivos. É um recurso interessante pois ajuda na ambientação da história.

De uma forma geral, achei a leitura de A noite dos mortos-vivos/A volta dos mortos-vivos bem mediana, mas essa é a opinião de alguém que não se interessa por histórias de zumbi. Acredito que aqueles que se interessam por essas criaturas e/ou são fãs de The Walking Dead possam aproveitar melhor a experiência.
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22.11.14

Violent Cases, por Neil Gaiman e Dave Mckean
Editora: Aleph
Páginas: 64
ISBN: 9788576571834
A verdade e a confiabilidade das memórias são o fio condutor de Violent Cases, a primeira e famosa colaboração do escritor Neil Gaiman com o artista Dave McKean. Pressagiando muito do estilo e dos temas que ambos viriam a tratar em criações futuras, a graphic novel mistura ficção e realidade de forma tão singular quanto combina texto e imagem, e traz em seu cerne o poder e a magia de contar histórias. O protagonista nos conta que, quando tinha quatro anos e meio, uma altercação com o pai levou-o a um osteopata para tratar o braço. Este médico dos ossos, de procedência incerta, aparência imprecisa e passado nebuloso, é o pivô das memórias do narrador que, mesmo sem muita segurança, entrelaça os mundos de violência na família, das festas infantis e dos famosos gângsters do período da Lei Seca. 

Violent Cases é originalmente um conto elaborado por Neil Gaiman e ilustrado por Dave Mckean que virou uma HQ capaz de se tornar uma experiência marcante para o leitor. Narrado por um homem de meia-idade, conta fragmentos de memórias da infância que se revelam nebulosos e falhos. Ele nos revela que, devido a violências na família, teve o braço fraturado e precisou ir a um osteopata, e que este também era o médico do Al Capone, famoso contrabandista/gangster dos Estados Unidos da época da Lei Seca. Assim, os quadros mostram trechos da conversa entre o osteopata e o garotinho e como este ficou impressionado com o que ficou sabendo a respeito do gangster. Relatos e relações demonstram um contexto de violências e possíveis abusos.

O leitor que já conhece Neil Gaiman provavelmente fará a óbvia associação do homem de meia-idade, também o narrador, com o próprio autor devido aos desenhos em que ele aparece. Surge a pergunta: seria uma história baseada em acontecimentos da vida de Neil Gaiman? Na espécie de extras que possui no final da HQ há o posfácio da edição de 2003 escrito pelo escritor que diz "aquele jovem [o desenho do narrador-personagem] que acende o cigarro nos primeiros quadros não é o eu de meia-idade que parou de fumar dez anos atrás. Mas ele e o Dave fizeram algo muito bom há bastante tempo, e ainda me orgulho deles". Então, é possível se tratar de um alter ego dele.

Narrador-personagem no início da história

Perfil de Neil Gaiman
Quanto aos traços e às cores, é de admirar qualquer um. Dave sabe sair dos tons sóbrios e da sépia quando necessário, como quando há o envolvimento de sangue e a cor se torna viva. Também mistura fotos de uma maneira genial, e conseguiu trabalhar de forma incrível quanto à nebulosidade das memórias falhas.

A HQ é um relançamento aqui no Brasil pela Aleph neste segundo semestre de 2014, e envolveu um trabalho primoroso da editora. O papel é couché no miolo e supremo na capa, sendo num tamanho bem maior do que se costuma encontrar no mercado editorial.

Há um texto no final do tradutor, Érico Assis, explicando alguns aspectos da tradução, que ele de certa forma também expõe neste post.










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21.11.14


Mulheres leitoras (e anjos que amam presentear mulheres leitoras), aqui está uma novidade (um tanto quanto antiga já, pois é lançamento de agosto) da Granado, uma empresa de cosméticos e produtos como talcos, cera hidratante para cutículas, sabonetes e hidratantes em geral. Gosta de esmaltes e é uma leitora assumida? Pois então acho que irá se entusiasmar com a linha de esmaltes que homenageia grandes escritoras internacionais, como Jane Austen e Agatha Christie
“Romance, drama e suspense se misturam para compor a envolvente coleção de inverno, inspirada em escritoras mundialmente conhecida”, diz a marca.
Conhecida por seus produtos diferenciados, a Granado possui uma fórmula toda especial para seus esmaltes. A empresa promete secagem rápida, brilho extra e alta cobertura. Vitamina E, cálcio e proteína da seda, que fortalecem as unhas. São livres de tolueno, parabenos, formaldeído, cânfora e DBP, ingredientes que podem causar alergia e o ressecamento das unhas. 


As cores são: Charlotte (bege acinzentado), Jane (lavanda) Emily (violeta vivo, mas que é difícil definir se é Bronte ou Dickinson, já que a própria marca não divulga no site e as próprias blogueiras de moda confundiram - e acaba sendo uma homenagem para as duas? dois coelhos numa cajadada só rs), Louisa (rosa escuro), Agatha (marrom avermelhado, ou vinho), Virginia (azul-marinho) e Sylvia (preto).

Recebi o Jane e o Louisa. Testei os dois e me encantei pelo cor de lavanda que faz homenagem à Austen, pois ele durou uma semana nas minhas unhas, possui uma secagem super rápida e a cobertura é incrível para um roxo claro e sóbrio. Já o rosa escuro, referente à May Alcott, é um rosa comum lindo que sempre devemos ter na coleção. Porém, esse durou cinco dias nas minhas unhas (cobertura e secagem aprovados também).

O único inconveniente? O preço: muitas 17 dilmas num vidro de 10ml (os frasquinhos normais possuem, em média, 8ml). Fortemente indicado para quem ama colecionar esmaltes, para bookaholics de plantão, àquelas alérgicas que procuram uma saída bacana e, claro, para todos que gostam de esmalte e não se intimidam com o preço salgado. É uma compra e tanto devido à fórmula diferenciada e ao diferencial do conceito (apesar dos nomes não serem impressos nas embalagens com os devidos sobrenomes).

Fiz um vídeo com um unboxing dos esmaltes e falando por cima o que achei deles :)
















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16.11.14

20 mil léguas submarinas, por Jules Verne.
Editora: Zahar
Páginas: 455
ISBN: 9788537807309
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.
Em 1866, quando navios de diversas partes do mundo começaram a naufragar e sofrer misteriosas avarias, governantes e homens de ciência mobilizaram-se para identificar, localizar e deter o misterioso monstro marinho responsável por tais ataques. Mas a missão não correu conforme os planos, e a besta desconhecida destroçou a fragata que fora em sua captura. Lançados ao mar, o professor Aronnax, o fiel Conselho e o exímio arpoador Ned Land foram resgatados e feitos prisioneiros pelo enigmático capitão Nemo, dono, líder e principal habitante do prodigioso submarino Náutilus. Navegando águas remotas dos oceanos e lançando-se em ousadas caminhadas submarinas, esses homens desbravarão a vida por um ângulo inteiramente novo, descobrindo a exuberância da flora e da fauna marinhas e experimentando emoções conflituosas, numa viagem vinte mil léguas sob os mares.

Sobre o que se trata

Um grande mistério consome o mundo científico e o marítimo do século XIX: algo incrivelmente grande e jamais visto nos mares agora assombra as tripulações de diversas embarcações. Alguns creem se tratar de um monstro marinho, outros, mais sensatos, apostam ser uma espécie de animal nunca antes catalogado. O famoso professor francês Aronnax defende a segunda opinião, incluindo, ainda, o palpite de que seria uma espécie aparentada aos narvais. Mas depois do suposto animal atacar navios mercantes e causar prejuízos a comerciantes, é organizada uma expedição de caça para impedi-lo de continuar transtornando o mundo marítimo. Seguindo seu instinto de naturalista curioso e estudioso, Aronnax se junta à expedição, bem como seu fiel assistente, Conselho. Embarcados, conhecem um exímio arpoador, Ned Land. Depois de muito tempo em auto mar à procura do tal animal gigantesco, eles enfim ficam cara-a-cara com o dito cujo. Porém, este acaba danificando seriamente e embarcação da expedição, e devido a um naufrágio, Aronnax, Conselho e Ned acabam sendo resgatados por nada mais, nada menos que o Náutilus, um submarino de proporções inimagináveis. 

À bordo do submarino, eles - agora prisioneiros do capitão Nemo, que tem aversão ao mundo terreno e proíbe seus hóspedes de um dia voltarem à terra -, irão testemunhar uma viagem de 20 mil léguas pelos mares do nosso planeta, em aventuras totalmente peculiares e curiosas.

Minhas impressões

Esse é o segundo livro de Jules Verne que leio, e devo dizer que Volta ao mundo em 80 dias me conquistou deveras. Embarquei nessa outra história, e tão igualmente conhecida, imaginando que eu iria me empolgar ainda mais, porém não foi o que aconteceu. Apesar de ter adorado a experiência, e me entusiasmado com a maioria das aventuras à bordo do Náutilus, devo dizer que algumas características de 20 mil léguas submarinas me fizeram deixá-lo de lado em vários momentos.

A melhor qualidade do livro é, sem dúvida, a criatividade do autor. As cenas, as situações e as aventuras são permeadas de grandes surpresas. O leitor irá vibrar com acontecimentos antes nunca imaginados, e duvidar de muito do que o comendante Nemo diz aos seus novos tripulantes, assim como estes. O cenário é totalmente diferente e atrativo.

A escrita poderia ser polida e objetiva que não perderia seu louvor, como no primeiro livro do autor que li. Porém, além desses aspectos, aqui a narrativa se torna cansativa devido às extensas descrições. O narrador é em primeira pessoa sob o ponto de vista do professor Aronnax, portanto, é natural ele se dispor a catalogar espécimes à fio, isso na linguagem científica. Para quem não é da área, isso se torna um convite para fechar o livro, e para os biólogos que conheço e que leram, também, pois há muitos erros, afinal o livro foi escrito no século XIX. Creio que os naturalistas ainda assim irão gostar, pois isso é relativo, e empolgante para as pessoas da área. Outro pensamento que me surgiu durante a leitura diz respeito a um irritante tom pedante da narrativa, pois o professor cita com detalhes tamanhos de peixes, nomes, entre outras minúcias não tangíveis até às mentes mais brilhantes e de incrível memória.

Quanto ao desfecho, eu senti a necessidade de mais. De certa forma, achei insatisfatório, pois não encontrei um desenvolvimento maior dos personagens, nem explicações dos mistérios, e achei abrupto demais.







A minha edição é a da Zahar, que instiga o leitor por tamanha beleza. Possui muitas ilustrações, apresentação, notas de rodapé milagrosas, glossário de termos náuticos, cronologia da vida/obra de Jules Verne e agradecimentos do tradutor. A editora também publica uma edição de bolso de luxo da obra.

No geral, não desgostei de todo da experiência de leitura. Creio que seja um clássico de leitura obrigatória, mas não recomendo aos iniciantes do mundo de Jules Verne. Recomendo a leitura de outros livros do autor primeiro, como Volta ao mundo em 80 dias, para depois se aventurar no mundo submarino criado pelo autor. É de difícil leitura devido às descrições minuciosas, mas ao mesmo tempo me envolveu em várias passagens por conta da criatividade e das aventuras narradas. Indico para os amantes de clássicos, de aventuras submarinas e para quem não se importa com leituras demoradas.
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14.11.14

Minha lista de prioridades - A jornada de um professor em busca das grandes lições da vida, de David Menasche

Editora: Paralela
Páginas: 208
ISBN: 9788565530712
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.

Aos 34 anos, David Menasche foi diagnosticado com câncer no cérebro. Seis anos depois, sofreu uma grave convulsão que tirou parte de sua visão, memória, mobilidade e - talvez a mais trágica de todas as perdas - sua capacidade de ensinar.
Impossibilitado de continuar dando aulas, o professor decidiu interromper com os tratamentos recomendados pelos médicos e montou um plano audacioso: atravessar os Estados Unidos para contemplar o oceano Pacífico antes de perder totalmente a visão, usando o tempo que lhe restava para encontrar antigos alunos e perguntar a eles do que se lembravam do tempo em que passaram juntos. Ele havia sido importante? Tinha feito alguma diferença?
Minha lista de prioridades é uma história real, ainda em construção.
Um livro sobre pequenas epifanias, que se debruça com coragem sobre os temas mais complexos de nossa existência, nos fazendo refletir a cada página sobre o que realmente importa nesta vida.


SOBRE O QUE SE TRATA

Em Minha lista de prioridades somos apresentados a David Menasche, um professor de inglês e literatura do ensino médio (High School) em uma escola preparatória de Miami, que aos 34 anos foi diagnosticado com um tumor no cérebro. De acordo com os médicos que acompanharam o seu caso, a expectativa de vida para David era de poucos meses e, por isso, um tratamento precisaria ser iniciado o quanto antes.

Seguindo à risca o tratamento imposto pelos médicos, David continuou a levar a sua vida de professor da forma mais normal possível e a participar ativamente da formação de seus alunos. Seis anos após o diagnóstico, ele sofreu uma convulsão que lhe tirou parte das memórias, de sua visão e de sua mobilidade e lhe impediu de continuar a lecionar. Ao recordar uma das atividades que realizava com seus alunos, na qual pedia que listassem as suas prioridades na vida, David decide recuperar a sua independência. Ele abandona os tratamentos e parte em uma viagem pelos Estados Unidos, visitando seus ex-alunos, com quem conversa sobre o tempo que viveram juntos na escola.

MINHAS IMPRESSÕES

Primeiramente, gostei do tom leve do livro. Apesar de trazer o relato de um homem que convive com um câncer em estágio terminal, Minha lista de prioridades não é um livro triste, amargo e que te faz ficar com vontade de chorar a cada virada de página. Muito pelo contrário, David Menasche é uma pessoa bastante otimista. Mesmo quando ele tem todos os motivos do mundo para se revoltar com tudo e com todos, ele mantém a cabeça erguida e um sorriso no rosto. Claro que nem sempre foi assim; ele passou por todo o processo de negação até chegar à aceitação. Mas, uma vez que aceitou, ele optou por ser forte e não desistir da luta.

A narrativa é feita em primeira pessoa pelo próprio David, que conta os acontecimentos de sua vida desde quando soube que tinha câncer até alguns meses após a publicação do livro. Ele faz uso de uma certa ironia e também de bom humor em sua escrita, principalmente quando descreve os momentos mais delicados, como, por exemplo, quando teve que contar aos pais sobre a sua situação antes de um jantar de Ação de Graças. O livro também traz os depoimentos de alguns dos alunos de David, normalmente colocados após a descrição de uma situação que tenha relação com o depoimento ou com a relação do professor com seu aluno, que, para mim, constitui o elemento mais bonito do livro. 

É emocionante perceber o quanto um professor é responsável pelas mudanças e decisões na vida de seus estudantes, principalmente quando estes são adolescentes. Dá para perceber pelos relatos que a relação entre David e seus alunos era de muito respeito e confiança; seus alunos, muitas vezes o procuravam para conversar sobre o futuro e os conselhos que recebiam ajudaram a moldar a vida que eles têm hoje. David, mais do que ensinar inglês e literatura, ensinou seus alunos a serem pessoas melhores. A amizade que se formou entre eles foi tão forte que, ao saberem da viagem de David, muitos alunos disponibilizaram suas casas para recebê-lo.
 
Por ser um professor de literatura, David faz referência à vários livros, principalmente clássicos, da literatura estadunidense e mundial, o que é um prato cheio para quem gosta desse tipo de coisa e está sempre com um caderninho à mão para anotar as dicas. Alguns exemplos: O sol é para todos, O grande Gatsby, O apanhador no campo de centeio, Laranja Mecânica, A revolução dos bichos, A redoma de vidro e On The Road.

O único aspecto que me causou um certo estranhamento é a forma como David descreve a reação de algumas pessoas próximas dele à sua situação; mais precisamente sua esposa (ou, no caso, ex-esposa) Paula. Sempre que o autor deixava claro que havia uma certa indiferença da parte dela, eu duvidava um pouco da extensão de tal comportamento. Atribuo essa reação ao fato de que estamos lidando com uma narrativa em primeira pessoa, que traz as impressões bastante subjetivas de seu narrador. Prefiro acreditar que há um certo rancor da parte de David, do que aceitar seu relato a respeito da esposa como verdadeiro. É cruel demais.

Concluindo, Minha lista de prioridades é um livro otimista, apesar dos motivos que levaram à sua criação, sobre amizade, aceitação e superação. É uma leitura agradável, leve e inspiradora. Recomendo à todos!

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11.11.14

Androides sonham com ovelhas elétricas?, por Philip K. Dick
Editora: Aleph
Páginas: 269
ISBN: 9788576571605
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.
Rick Deckard é um caçador de recompensas. Ao contrário da maioria da população que sobreviveu à guerra atômica, não emigrou para as colônias interplanetárias após a devastação da Terra, permanecendo numa San Francisco decadente, coberta pela poeira radioativa que dizimou inúmeras espécies de animais e plantas.Na tentativa de trazer algum alento e sentido à sua existência, Deckard busca melhorar seu padrão de vida até que finalmente consiga substituir sua ovelha de estimação elétrica por um animal verdadeiro; um sonho de consumo que vai além de sua condição financeira.Um novo trabalho parece ser o ponto de virada para Rick: perseguir seis androides fugitivos e aposentá-los. Mas suas convicções podem mudar quando percebe que a linha que separa o real do fabricado não é mais tão nítida como ele acreditava.Em Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, Philip K. Dick cria uma atmosfera sombria e perturbadora para contar uma história impressionante, e, claro, abordar questões filosóficas profundas sobre a natureza da vida, da religião, da tecnologia e da própria condição humana.

Sobre o que se trata?

O mundo pós-apocalíptico além do que restou de uma guerra altamente destrutiva é marcado por uma Poeira radioativa que fez com que a maioria dos seres humanos migrassem para Marte. Os que aqui ficaram vivem sob o risco de mutações e sob a discriminação que segrega quem não se apresenta saudável, num cenário decadente e estéril: praticamente não se vê mais uma animal vivo, e os escombros do que um dia já foi o planeta Terra assolam o dia-a-dia de quem ficou. Já os que vão colonizar o outro planeta até recebem um androide escravo como incentivo - se já não bastasse o incentivo de um ambiente hostil do qual fugir. Tais máquinas são quase perfeitas e se confundem com os humanos. E por terem uma capacidade incrível de raciocínio, às vezes acabam por desejarem a independência e fogem - sobretudo para a Terra, onde existem os caçadores de androides, indivíduos que saem aplicando testes capazes de identificar máquinas e, quando topam com uma e a matam, são recompensados com dinheiro.

Rick Deckard é um caçador de androides que ainda vive na Terra, junto de sua esposa e de uma ovelha - não de carne e osso, mas sim elétrica. Seu maior sonho é comprar e cuidar de um bicho vivo, agregando prestígio social também, mas o valor de um é exorbitante. Quando recebe o desafio de eliminar vários androides de última geração num curto período de tempo, ele terá que tratar não somente de limites físicos, mas também de questões psicológicas fortes e reflexivas. Até que ponto somos humanos? Ou, até que ponto aquele que se precisa matar não é humano? Cabe a alguém a decisão de dar fim à uma consciência?

Minhas impressões

Não adianta, Philip K. Dick gosta de brincar com temas pesados. Ou melhor, ele escreve sensacionalmente sobre assuntos que pressionam o leitor até ele começar a pensar a respeito, e se questionar profundamente. Normal concluir um livro dele e ficar dias a fio pensando sobre o enredo e sobre o que ele transmitiu. E possivelmente esse é um dos pontos mais positivos desse livro.

A religião é um desses temas, e tomou conta de algumas passagens, demonstrando tanto apuramento subjetivo que acaba sendo, essencialmente, um ponto bem íntimo; cada um interpretará a sua maneira. Mas todos concordarão que ajuda quanto às reflexões que o livro desperta no leitor. Outro aspecto que contribui significativamente para isso é a obsessão pelos animais vivos, espécimes raras e símbolo de status social. Aqui, possivelmente o leitor se pergunta sobre os limites do material, sobre o que é ser um ser vivo, ou, também, sobre o tênue limite entre a máquina e o ser humano que este próprio está desenvolvendo cada vez mais. Há muito que ser interpretado nessas passagens, e infelizmente esses dois pontos não aparecem no filme que foi baseado neste livro, o Blade Runner. Apesar de ser bem estruturado, o filme fica um pouco aquém do livro por não apresentar tais temas.




A construção da psicologia dos personagens, sobretudo da de Rick Deckard, é bem marcante. Não do físico, mas claramente do psicológico de cada um. A edificação de um ambiente totalmente diferente é muito bem feito, também. Se senti que faltou uma contextualização maior em Fluam, minhas lágrimas, disse o policial (o primeiro do autor que li), neste essa ausência já não se fez presente. As características principais estão ali, mesmo o autor não entrando em detalhes sobre o funcionamento deste "novo" mundo.

A imersão no mundo caótico criado por K. Dick é capaz de garantir uma leitura densa e introspectiva. Gostei demais da leitura, e recomendo fortemente àqueles que gostam de um conteúdo filosófico permeado por aventuras.
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7.11.14

A máquina do tempo, escrito por H.G. Wells

Editora: Alfaguara Brasil
Páginas: 152
ISBN-13: 9788579620089

A Máquina do Tempo é o primeiro romance de H.G. Wells. Depois de vários rascunhos e versões, foi finalmente publicado em 1895. O livro teve sucesso instantâneo no Reino Unido, e sua fama logo se espalhou por outros países. Chamado de "homem de gênio", considerado um pioneiro, Wells abriu caminho não só para seus livros e sua visão de mundo, mas para novas possibilidades temáticas na literatura.
Lançado agora em nova tradução pela Alfaguara, A Máquina do Tempo é o primeiro e mais importante romance moderno sobre viagens no tempo, e um clássico da literatura mundial. Com uma narrativa envolvente, H.G. Wells cria a fabulosa jornada de um cientista inglês a um mundo futuro, desconhecido e perigoso. Acompanhamos suas descobertas, seu deslumbramento e o horror que, aos olhos do viajante, aos poucos se anuncia.

SOBRE O QUE SE TRATA

Publicado em 1895, A Máquina do Tempo, de H.G. Wells, é considerado o primeiro romance de ficção-científica a abordar o tema de viagem no tempo. Tendo início em uma residência localizada na Londres vitoriana, a história traz um grupo de homens renomados - médico, jornalista, advogado, etc. - reunidos para um jantar à convite de um conhecido, chamado apenas de "O viajante do tempo".

Após ser indagado sobre os motivos que levaram ao convite para o jantar, o viajante explica que construiu uma máquina capaz de se mover pela quarta dimensão, a dimensão do tempo. Os convidados se mostram incrédulos a respeito do que acabaram de escutar, assim, o viajante resolve provar, viajando para o futuro e voltando para contar o que viveu.

Chegando ao ano 801.702, o viajante no tempo entrará em contato com um novo mundo e com uma nova espécie humana, dividida em duas: os pacíficos Eloi e os temidos Morlocks. Convivendo com os Eloi, ele irá refletir sobre os avanços da ciência e da tecnologia e tentará entender o que levou a humanidade a chegar àquele ponto.

MINHAS IMPRESSÕES

A leitura, de uma forma geral, foi bastante interessante e envolvente. Surpreendentemente, consegui escapar ilesa de spoilers relacionados à história, de forma que pouco sabia sobre o enredo. Logo, fui sendo, aos poucos, conduzida por H.G. Wells em sua história de aventura no futuro.

Gostei da possibilidade de acompanhar um homem da ciência do século XIX entrando em contato com um mundo do futuro e completamente diferente daquele com que estava acostumado. Lendo A Máquina do Tempo percebi que mesmo após dois séculos, ainda vivemos o reflexo do que foi o século XIX; tudo bem que os avanços tecnológicos e científicos já atingiram um outro patamar, mas ainda assim, consigo enxergar o homem do século XXI como uma continuidade do que foi o homem do século XIX. Assim, o livro de H.G. Wells, apesar de antigo, continua bastante atual. E essa é a grande maravilha dos clássicos.

O livro é pequeno, por isso, não entregarei muito do enredo. Gostei muito das descrições de cenários do futuro, como os locais onde os Eloi e os Morlocks vivem. Através dos olhos do viajante, o autor conseguiu fazer com que eu sentisse um estranhamento em relação ao mundo do futuro, tentando entender essas duas espécies derivadas da humanidade e como viviam. Há uma atmosfera de mistério na história e quando finalmente compreendi o que estava acontecendo, fiquei surpresa e me envolvi ainda mais com a leitura.

A narrativa, feita em primeira pessoa e por dois personagens, é bastante fluida e traz descrições de cenários na medida certa. O único porém que poderia ser feito neste aspecto é a forma superficial com que o autor conta a história. O livro foi o primeiro trabalho de Wells, que foi bastante criticado por - vejam só! - Jules Verne por não ter apresentado uma base científica em sua história. O viajante construiu uma máquina do tempo e ficou por aí mesmo, o leitor que imagine o procedimento que ele utilizou em sua experiência. Para mim, este ponto em particular não incomoda, visto que não sou uma pessoa muito...científica. Ainda assim, gostaria de ter encontrado maiores explicações relacionadas aos Eloi e Morlocks e sua forma de "governo"; gostaria de ter compreendido melhor o que levou a humanidade a chegar até ali.

Mesmo com estes pontos que podem ser considerados negativos para alguns leitores, o livro me proporcionou várias reflexões acerca do ser humano e o seu futuro. Me fez pensar em como estará o planeta daqui a milhares de anos, se os humanos ainda serão a espécie dominante e, se sim, se teremos avançado ainda mais ou regredido à um ponto primitivo. E se não estivermos mais aqui, como seria a espécie dominante? O autor também aproveita para tratar, ainda que de forma sutil, sobre a questão da luta de classes, bastante recorrente desde o século XIX. Ao concluir, percebi que o autor não tinha uma visão muito otimista a respeito da humanidade. 

De forma geral, gostei da leitura de A Máquina do Tempo, uma história de aventura que me fez pensar em algumas questões. É um livro agradável, rápido de ler e recomendado à todos os que  gostam de histórias sobre viagem no tempo.


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