26.10.14

Resenha: Reparação, Ian McEwan

Reparação, escrito por Ian McEwan.

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 270
ISBN: 9788535919974
Na tarde mais quente do verão de 1935, na Inglaterra, a adolescente Briony Tallis vê uma cena que vai atormentar a sua imaginação: sua irmã mais velha, sob o olhar de um amigo de infância, tira a roupa e mergulha, apenas de calcinha e sutiã, na fonte do quintal da casa de campo. A partir desse episódio e de uma sucessão de equívocos, a menina, que nutre a ambição de ser escritora, constrói uma história fantasiosa sobre uma cena que presencia. Comete um crime com efeitos devastadores na vida de toda a família e passa o resto de sua existência tentando desfazer o mal que causou.

Sobre o que se trata

Ela é uma escritora nata. Aos treze anos de idade, escreveu uma peça de teatro para recepcionar o seu irmão mais velho que está para chegar da cidade, impondo também aos seus primos recém chegados a participação como atores. Se orgulha de seu trabalho como escritora. Se orgulha do que faz desde os dez anos. Até alguém controlar o que ela já tinha como definido, e tirar seu poder de escolha. Briony Tallis se dá por contrariada e decide ficar longe de tudo e todos. Sozinha, é encontrada por Robbie Turner, o filho da empregada da família, e o protegido de seu pai, que bancou todos os estudos do rapaz, até mesmo o diploma de primeira classe em Cambridge, mesma faculdade que a irmã mais velha, Cecilia Tallis, cursou com um diploma de terceira classe. Aqui, posição social não foi definitivo mas, sim, a questão sexual: uma mulher se forma com um diploma inferior ao de um homem. São relatos culturais.
Não eram só o mal e as tramoias que tornavam as pessoas infelizes; era a confusão, eram os mal-entendidos; acima de tudo, era  a incapacidade de apreender a verdade simples de que as outras pessoas são tão reais quanto nós. (pág. 37)
Ao se encontrarem, Robbie pede para que Briony entregue um bilhete à Cecilia. De imediato, a menina sai ao encontro da irmã, mas antes de vê-la, lê a carta e se choca com um conteúdo apaixonado e obsceno. Sua cabeça agora mais confusa do que mais cedo naquele dia, quando ela observou uma cena estranha e inexplicável: Cecilia tirando a roupa, na frente de Robbie e de quem quisesse ver, mergulhando na fonte de frente da casa para resgatar o pedaço de um vaso antigo que se partira enquanto brigada com Robbie. Uma tensão sexual escandalosa para a época, que para ela só poderia ser explicada pela culpa masculina, não da dama. Mais tarde, todo esse pré-julgamento resultante de uma mentalidade criativa e egocêntrica repercutiria num crime. Um crime capaz de mudar a vida de muitos de sua família. Um crime que aprisionou um homem inocente e que o levou à guerra.

Minhas impressões

"Reparação" é um livro sensível que trata sobre um romance inicialmente interrompido por julgamentos levianos. Um drama familiar que envolve culpa, arrependimentos e tentativas de reparações. É, facilmente, o melhor livro que li este ano até o momento. A escrita, o enredo e a expectativa do final captam o leitor, e o final genial fecha com chave de ouro um livro que não foi feito para agradar os românticos que esperam um final feliz: ele foi escrito para falar sobre preconceitos e sofrimentos.
Cecilia não sabia como remediar a situação. Gostava dos olhos de Robbie, pensou, aquela justaposição de laranja e verde sem haver mistura, ainda mais granuloso à luz do sol. E agradava-a também ele ser tão alto. Era uma combinação interessante num homem: inteligência e tamanho. (pág. 26)
Muito me surpreendi pela escrita de Ian McEwan, que é concisa e poética. Numa prosa em terceira pessoa, o discurso indireto livre enriquece ainda mais a história, contribuindo para entendermos os sentimentos dos personagens. Já no epílogo, a primeira pessoa é utilizada sob a perspectiva de Briony, e aqui surge o grand finale do autor, que inseriu em seu romance uma metalinguagem implícita capaz de discutir o papel do escritor e do livro

Os personagens são incrivelmente bem construídos, com a psicologia e o físico definidos e reafirmados em vários momentos. O enredo, linear, mostrou pontos de vista de alguns personagens. Aqui, o leitor pode se deixar tocar pelos horrores e dores de um soldado britânico em retirada e sofrendo marcas indeléveis de uma guerra destrutiva, a Segunda Guerra Mundial, mais precisamente na retirada de Dunquerque. Também, e de forma especial, acompanhamos o dia-a-dia de uma enfermeira nesse período, o que impressiona e explica o antes imaginado apenas superficialmente.
Por meio de símbolos traçados com tinta numa página, ela conseguia transmitir pensamentos e sentimentos da sua mente para a mente de seu leitor. Era um processo mágico, tão corriqueiro que ninguém parava para pensar e se admirar. (pág. 35) 
É um romance marcante e tocante. Belo, maldoso até certo ponto, e muito bem escrito.

4 comentários:

  1. Faz resenha de algum livro da Sophie Kinsella? São leves, divertidos e engraçados, acho que você vai adorar *Recomendo Delírios de consumo de Becky Bloom ou o Segredo de Emma Corrigan

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  2. Mell, FINALMENTE vim comentar aqui. Desculpa a demora!

    Enfim, sua resenha foi incrível, pra variar. Gosto demais dessa primeira citação que você selecionou "a incapacidade de apreender ... que as outras pessoas são tão reais quanto nós". Fantástico demais.

    Acho que você falou de quase todos os aspectos que eu gosto nesse livro. Acho muito bacana também a repetição de certas cenas através de pontos de vista diferentes. E a construção da Briony em si - ainda mais depois de saber do final.

    Você já assistiu ao filme? rs Eu acho tudo tão maravilhoso no filme, porque as locações são tão perfeitas, a fotografia é maravilhosa e o Joe Wright deu muita sorte de encontrar uma atriz como a Saoirse pra interpretar a Briony. Ela é fantástica. (E tem aquela cena maravilhosa na praia!!! Te amo Jow Wright).

    Foi ótimo falar sobre o livro contigo. Ainda vou relê-lo. O filme já assisti umas cinco vezes, talvez, porque gosto de sofrer.

    Beijo!

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  3. E eu FINALMENTE vou responder! Desculpe, Fer, a correria sempre acaba me fazendo esquecer ou deixar pra depois...


    Esse livro é tão ~quotável, não é mesmo? Eu amo essa citação, mas tem tantas outras que acabei ficando indecisa na hora de escolher as citações hahaha


    Exatamente, essa repetição de forma alguma é cansativa, pois cada ponto de vista é enriquecedor e belo.


    Preciso rever o filme porque faz tanto tempo que assisti, que mal lembrava. Tanto é que eu não lembrava direito do final e acabei eu mesma me pregando uma peça durante a leitura hahahaha Pensei que a pessoa não tinha morrido, que era só minha memória me zoando, e não, eu estava certa realmente hahaha


    Ótimo mesmo! Obrigada por me aturar no Twitter. E por elogiar a resenha, significa MUITO vindo de ti <3


    Um beijo!

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  4. Já li esse há um tempão, e tenho o segundo também. Talvez eu volte a ler a autora com Lembra de mim?, mas não posso dar certeza, tá?
    Beijos

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