17.10.14

Resenha: O retrato - um romance de obsessão

O retrato - um romance de obsessão, escrito por Charlie Lovett

Editora: Novo Conceito
Páginas: 414
ISBN: 9788581633886

A morte precoce de Amanda Byerly foi um golpe duro, que encheu de tristeza o coração de seu marido, Peter. Mais introspectivo do que nunca, ele decide deixar os Estados Unidos e se instalar na Inglaterra, onde passa a se dedicar à recuperação e à negociação de livros raros. Em um de seus dias de pesquisa solitária, Peter se depara com o retrato de uma jovem muito parecida com sua amada esposa, guardado dentro de um livro. A semelhança impressiona, mas a aquarela foi pintada há muito, muito tempo. Trilhando um sinuoso caminho entre a era vitoriana e o final do século XX, Peter passa a investigar a origem do misterioso retrato. As pistas acabam por levá-lo a se envolver em um mistério histórico - uma obra perdida do dramaturgo William Shakespeare.

SOBRE O QUE SE TRATA

O retrato, escrito pelo estadunidense Charlie Lovett, é ambientado no ano de 1995 e em uma pequena vila no interior da Inglaterra chamada Kingham. Após a precoce morte de sua esposa, Amanda, Peter Byerly deixou os Estados Unidos se mudou para Kinghan com o intuito de se afastar de tudo e de todos os que o faziam lembrar dela. Ele sofre de ansiedade social e desde os tempos da faculdade, quando começou a namorar Amanda, ela se transformou em sua proteção, fazendo com que o ato de se relacionar com outras pessoas se tornasse menos assustador.

Peter é apaixonado por livros, em especial aqueles que são considerados raros, como primeiras edições ou aquelas que pertenceram a pessoas renomadas. Ganha a vida procurando este tipo de livro, com a intenção de restaurá-los e vendê-los a colecionadores ou doá-los à bibliotecas. Antes de conhecer Amanda, os livros eram o seu refúgio e buscava neles uma forma de não precisar interagir com outras pessoas.

Decidido a retomar a sua vida e a seguir os conselhos de seu terapeuta, Peter visita uma pequena livraria de livros usados com a esperança de encontrar alguma raridade. Entre as estantes, ele encontra uma edição antiga de um livro sobre falsificações das obras de William Shakespeare, mas o que realmente o surpreende é uma aquarela que estava escondida dentro do livro. A pintura, claramente datada do período vitoriano, traz uma mulher muito parecida com Amanda.

Surpreso e intrigado, Peter decide descobrir a origem da aquarela e suas pesquisas o levarão mais longe do que ele jamais poderia imaginar. Em sua busca por pistas sobre o paradeiro do enigmático pintor da aquarela, Peter se encontrará no centro de uma investigação histórica: o mistério do Pandosto, livro de Robert Greene cuja primeira e edição teria inspirado William Shakespeare a escrever a peça Conto de inverno e na qual o dramaturgo teria feito diversas anotações nas margens.

Por meio de uma história que mistura mistério, suspense, romance e drama, Charlie Lovett conduz o leitor por uma viagem no tempo, começando pelas décadas de 1980 e 1990,  visitando as eras elisabetana e vitoriana e apresentando personagens históricas. O resultado é um romance marcado pela presença dos livros e pela obsessão daqueles que os amam.

MINHAS IMPRESSÕES

Primeiramente, preciso dizer que Charlie Lovett sabe conduzir uma história. A narrativa em terceira pessoa é dividida em três partes que se intercalam, de forma que a cada fim de capítulo um leitor é presenteado com um gancho, o que faz com que seja praticamente impossível largar o livro até chegar ao desfecho.

Além de acompanharmos a vida de Peter Byerly em 1995, tentando superar a perda de sua esposa e tentando compreender a origem da aquarela, somos levados também aos anos 1980, quando Peter ainda estava na faculdade; assim, podemos descobrir como ele e Amanda se conheceram e compreender como ela era importante para ele. É nesta parte da narrativa que somos apresentados à paixão de Peter, os livros raros, e temos acesso a várias informações verdadeiras sobre colecionadores e falsificadores. 

Também acompanhamos uma terceira narrativa que não traz nenhum protagonista em particular, a não ser o Pandosto. Assim, o leitor acompanha a trajetória do livro desde os anos 1500 e pouco, quando este chega às mãos de Shakespeare, até o período da Era Vitoriana, quando se tem o último registro do paradeiro do livro. A partir desta narrativa, somos apresentados à diferentes figuras históricas, como o próprio Shakespeare e o famoso colecionador Robert Cotton.

O enredo, apesar de envolvente, foi, para mim, um tanto previsível. Antes de chegar ao desfecho, já havia descoberto o mistério da aquarela e o do Pandosto. Mas isso, de forma alguma transformou a leitura em algo enfadonho. Acredito que tenha descoberto o final antes por já estar familiarizada com o gênero de investigações. De qualquer forma, como o livro traz elementos de diferentes gêneros, foi impossível me prender apenas ao mistério, de forma que, antes que me desse conta, já estava apegada à história do protagonista e seus dramas particulares. Ainda no que diz respeito a previsibilidades, preciso avisar que o livro é recheado de clichês que vão desde frases de impacto manjadas até um ~romance~ com uma coadjuvante feminina que surge no meio da trama.

Gostei muito da forma como Peter é apresentado, surgindo como um sujeito introspectivo e com dificuldades de relacionamento, mas que, aos poucos, começa a se transformar. Neste aspecto, posso afirmar que o autor fez um ótimo trabalho de desenvolvimento de personagem, já que ao final do livro Peter não é mais o mesmo do início. Quanto aos demais personagens, não sei se posso dizer o mesmo, já que todos parecem ser meros coadjuvantes na trama. Até o "vilão" da história é meio...nebuloso. A única exceção talvez seja Amanda, que nos é apresentada tanto pelo narrador -  nos flashbacks dos anos 1980 - quanto pela perspectiva de Peter, que constantemente conversa com ela e imagina como seriam as suas respostas ou comportamento em relação a suas atitudes. 

Apesar do livro trazer uma trama com mistério e suspense, não diria que o livro tem um desenrolar rápido. Ao contrário do que acontece com os livros de Dan Brown, por exemplo, em que os protagonistas passam por situações extremas e de correria contra o tempo em poucos dias, em O retrato as coisas ocorrem em um ritmo mais normal, sem muito desespero, e a ação propriamente dita só aparece no final. Acredito que ter ambientado a história na década de 1990 contribuiu para esse andamento mais tranquilo da narrativa, afinal, Peter é old school e realiza suas pesquisas em bibliotecas e por meio de ligações telefônicas. Gostei de poder lembrar, ainda que de forma breve, como era a vida antes do Google e dos smartphones. 

No fim, mesmo com alguns aspectos que podem ser considerados um empecilho para alguns leitores, eu gostei de O retrato. Não acho que Charlie Lovett tivesse qualquer pretensão de escrever a mais nova obra-prima do século XXI, mas sim um livro envolvente, que servisse como um bom entretenimento e que acabasse por deixar o leitor curioso em relação aos universos que ele apresenta: o dos colecionadores de livros raros e o das peças de William Shakespeare. No meu caso, afirmo que o autor foi bem sucedido, principalmente no que diz respeito as obras do Grande Dramaturgo! Já separei algumas de suas peças para leitura nos próximos meses.
 
Em termos físicos, a edição feita pela Novo Conceito está bem caprichada. O livro traz as amadas páginas amarelas que não cansam a vista e um ótimo espaçamento entre as linhas. Ah, as letras estão de bom tamanho também. Como disse, fisicamente falando, tá de parabéns.

O problema ficou mesmo por conta da revisão, que deixou passar alguns errinhos. Não são muitos e, em sua maioria, são erros de digitação - duas vezes a mesma letra ou palavra, travessão fora de lugar, falta de espaçamento entre ponto final e início de frase -; mas fiquei um tanto chocada com o erro de concordância verbal ("Aquelas partes dele estava congeladas;...". - Página 388, quarta linha), que ainda quero acreditar que foi um erro de digitação. Como o livro é um lançamento recente, espero que a Novo Conceito melhore a revisão para uma segunda edição.
 
Assim, com as devidas ressalvas feitas, fica aqui a minha recomendação de um livro divertido e com cara de filme para assistir em um domingo à tarde, acompanhado por um balde de pipoca e um copão de Cola-cola. 

1 comentários:

  1. Heyy adorei sua resenha ;D eu já tinha conhecimento a respeito desse livro, mas, mesmo achando a premissa interessante, deixei passar... Agora que li sua resenha o interesse pelo livro voltou com mais força do que antes >-< Acabo de adicionar mais um livro à minha (infinita hahah) lista de leitura \o/

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