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Ensaio sobre a cegueira Saramago

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Uma duas Eliane Brum

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ao farol virgínia woolf

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mulheres de cinzas mia couto

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Extraordinário Luandino Vieira

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Luuanda Luandino Vieira
31.10.14

Dia 31 de outubro é conhecido - principalmente nos países de língua inglesa - como o dia de Halloween, ou Dia das Bruxas. A origem do nome deriva de All Hallow's Eve (Vírgília de Todos os Santos), nome dado ao dia escolhido pelos cristãos para celebrar todos aqueles que os haviam precedido. O Halloween também tem suas origens na cultura celta - que celebrava a data como um culto à suas divindades -  e também na cultura mexicana, que nessa mesma época comemorava o dia dos mortos. É por conta dessa celebração que surge a ideia de se fantasiar no Halloween; para fugir ou despistar algum morto que estaria vagando na terra à procura de vingança, as pessoas se vestiam de monstros ou criaturas igualmente assustadoras.

Para celebrar o Halloween - ou Dia das Bruxas, como preferir - aqui no Literature-se, resolvi falar um pouco sobre algumas das criaturas mais conhecidas dessa época do ano. Aproveitarei a oportunidade para também sugerir algumas leituras. Preparados? Vamos lá!

BRUXAS:

Normalmente imaginadas como velhinhas feias e narigudas que voam em vassouras e praticam magia negra, as bruxas são muitas vezes retratadas na cultura popular como as grandes vilãs das histórias (alguns filmes da Disney estão aí para comprovar). É durante o período da Idade Média que surge essa imagem que, ao que tudo indica, não passa de fruto do imaginário popular de um contexto marcado por  medos e intolerância à diferentes crenças. Na literatura, as bruxas - ou bruxos, magos - também são retratadas como seres detentores de sabedoria e conhecimentos acerca da natureza e da magia; é o caso de As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley. Outro exemplo bastante conhecido de história com bruxas e bruxos "do bem" é a série Harry Potter, de J.K. Rowling.

VAMPIROS:

Entidades do tipo foram registradas em várias culturas que datam de tempos primordiais, porém o termo vampiro só se tornou popular a partir do século XIX, para descrever seres que se alimentam da energia vital de criaturas vivas. As lendas de vampiros surgiram em regiões dos Balcãs, da Europa Oriental, da Grécia e da Romênia e em todas é possível encontrar um leque de diferentes aparências para esses seres, que variam desde praticamente humanos a corpos em decomposição. Foi em 1819, com a publicação de The Vampyre, de John Polidore, que nasceu o estereótipo do vampiro sofisticado, elegante e carismático.

Anos mais tarde, em 1897, Bram Stokes publicou Drácula, romance que permanece até os dias atuais como a obra-prima de histórias de vampiro e referência para demais obras. Inspirado em mitologias de lobisomens e demônios, Stoker estabeleceu no imaginário popular a ideia de vampiros como seres sedutores, sedentos por sangue humano, bastante poderosos e, pasmem, nenhum pouco noturnos. É isso aí, o Drácula anda no sol e não queima e/ou brilha.

FANTASMAS:

A ideia de vida após a morte e de um submundo onde as almas viveriam pela eternidade pode ser encontrada em diferentes culturas desde os tempos da Antiguidade. Os antigos egípcios, por exemplo, pintavam os sarcófagos com as características de seus mortos com o intuito de ajudar a alma a encontrar novamente seu corpo. Caso a alma não conseguisse encontrar, ficaria vagando pela terra.

Em muitas culturas é comum também a diferenciação de espíritos entre espíritos benignos, que são venerados em rituais, e malignos, que buscam vingança. Na cultura popular, incluindo a literatura, é comum encontrarmos histórias de objetos ou casas possuídos por esses espíritos vingativos. O material resultante, na maioria dos casos, é suficiente para nos deixar de cabelos arrepiados e sem conseguir dormir por dias. Um exemplo clássico de história de casa assombrada por fantasmas é A outra volta do parafuso, de Henry James, que já foi resenhado aqui.

ZUMBIS:

De forma geral, zumbi é definido como um morto que voltou à vida, privado de vontade própria e personalidade. As histórias de zumbi tem sua origem nos rituais de vodu haitiano que, de acordo com a crença, seria capaz de trazer de volta à vida um ser que sairia em busca de vingança contra aqueles que lhe causaram mal. Na maioria das histórias com esses seres, nunca se sabe o motivo para a reanimação, de forma que os mortos voltam à vida em estado catatônico e geram medo nos vivos.  

Na cultura popular, o modelo de zumbi foi consolidado pelo filme A noite dos mortos-vivos, dirigido por George Romero e lançado em 1968. Na obra, os zumbis são seres em decomposição que não pensam e, motivados por um instinto inexplicável, se alimentam de carne humana. É aqui que encontramos a ideia de apocalipse zumbi que hoje é tão popular por conta da série The Walking Dead. O filme de George Romero foi adaptado para um livro por John Russo, que escreveu o roteiro do filme, que ganhou a continuação A volta dos mortos-vivos. Ambos podem ser encontrados na edição recente lançada pela editora Dark Side.

DEMÔNIOS:

No contexto cristão, Satanás (também chamado de Diabo e Demônio) teria sido um anjo que se rebelou contra Deus e, por isso, caiu na Terra, onde passou a lutar pela perdição da humanidade; após a sua queda, muitos anjos o teriam seguido. Já na tradição judaica, não se trata de apenas uma entidade, mas sim de várias. No caso, seriam seres imperfeitos - meio humanos e meio espíritos -  bons ou maus,  criados após o homem e com a possibilidade de se reproduzir e com ações que tendem ao caos. Na tradição islâmica, os demônios - também chamados de jiin - são seres dotados de livre arbítrio e coexistem com os seres humanos; são comandados por um demônio superior.

A possessão demoníaca pode ser encontrada em muitas crenças e consiste no controle de uma pessoa por uma entidade maligna. O tema também serviu de base para muitas produções culturais, como O Exorcista, de William Peter Blatty, publicado em 1971. Na história de Blatty, Regan, uma menina de 11 anos, é possuída por um demônio. Acredita-se que o enredo do livro teria sido baseado em um caso real registrado no estado de Maryland, Estados Unidos, em 1949. Em 1973, o livro foi adaptado para os cinemas com o roteiro de Blatty e a direção de William Friedkin, e até hoje permanece como um dos filmes de terror mais assustadores de todos os tempos.

E aí, qual é a sua criatura de Halloween preferida? Algum livro com ela que gostaria de recomendar? Conte nos comentários, a gente vai adorar saber! Feliz Halloween para todos e não se esqueçam de dormir com a luz acessa! :)
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26.10.14

Reparação, escrito por Ian McEwan.

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 270
ISBN: 9788535919974
Na tarde mais quente do verão de 1935, na Inglaterra, a adolescente Briony Tallis vê uma cena que vai atormentar a sua imaginação: sua irmã mais velha, sob o olhar de um amigo de infância, tira a roupa e mergulha, apenas de calcinha e sutiã, na fonte do quintal da casa de campo. A partir desse episódio e de uma sucessão de equívocos, a menina, que nutre a ambição de ser escritora, constrói uma história fantasiosa sobre uma cena que presencia. Comete um crime com efeitos devastadores na vida de toda a família e passa o resto de sua existência tentando desfazer o mal que causou.

Sobre o que se trata

Ela é uma escritora nata. Aos treze anos de idade, escreveu uma peça de teatro para recepcionar o seu irmão mais velho que está para chegar da cidade, impondo também aos seus primos recém chegados a participação como atores. Se orgulha de seu trabalho como escritora. Se orgulha do que faz desde os dez anos. Até alguém controlar o que ela já tinha como definido, e tirar seu poder de escolha. Briony Tallis se dá por contrariada e decide ficar longe de tudo e todos. Sozinha, é encontrada por Robbie Turner, o filho da empregada da família, e o protegido de seu pai, que bancou todos os estudos do rapaz, até mesmo o diploma de primeira classe em Cambridge, mesma faculdade que a irmã mais velha, Cecilia Tallis, cursou com um diploma de terceira classe. Aqui, posição social não foi definitivo mas, sim, a questão sexual: uma mulher se forma com um diploma inferior ao de um homem. São relatos culturais.
Não eram só o mal e as tramoias que tornavam as pessoas infelizes; era a confusão, eram os mal-entendidos; acima de tudo, era  a incapacidade de apreender a verdade simples de que as outras pessoas são tão reais quanto nós. (pág. 37)
Ao se encontrarem, Robbie pede para que Briony entregue um bilhete à Cecilia. De imediato, a menina sai ao encontro da irmã, mas antes de vê-la, lê a carta e se choca com um conteúdo apaixonado e obsceno. Sua cabeça agora mais confusa do que mais cedo naquele dia, quando ela observou uma cena estranha e inexplicável: Cecilia tirando a roupa, na frente de Robbie e de quem quisesse ver, mergulhando na fonte de frente da casa para resgatar o pedaço de um vaso antigo que se partira enquanto brigada com Robbie. Uma tensão sexual escandalosa para a época, que para ela só poderia ser explicada pela culpa masculina, não da dama. Mais tarde, todo esse pré-julgamento resultante de uma mentalidade criativa e egocêntrica repercutiria num crime. Um crime capaz de mudar a vida de muitos de sua família. Um crime que aprisionou um homem inocente e que o levou à guerra.

Minhas impressões

"Reparação" é um livro sensível que trata sobre um romance inicialmente interrompido por julgamentos levianos. Um drama familiar que envolve culpa, arrependimentos e tentativas de reparações. É, facilmente, o melhor livro que li este ano até o momento. A escrita, o enredo e a expectativa do final captam o leitor, e o final genial fecha com chave de ouro um livro que não foi feito para agradar os românticos que esperam um final feliz: ele foi escrito para falar sobre preconceitos e sofrimentos.
Cecilia não sabia como remediar a situação. Gostava dos olhos de Robbie, pensou, aquela justaposição de laranja e verde sem haver mistura, ainda mais granuloso à luz do sol. E agradava-a também ele ser tão alto. Era uma combinação interessante num homem: inteligência e tamanho. (pág. 26)
Muito me surpreendi pela escrita de Ian McEwan, que é concisa e poética. Numa prosa em terceira pessoa, o discurso indireto livre enriquece ainda mais a história, contribuindo para entendermos os sentimentos dos personagens. Já no epílogo, a primeira pessoa é utilizada sob a perspectiva de Briony, e aqui surge o grand finale do autor, que inseriu em seu romance uma metalinguagem implícita capaz de discutir o papel do escritor e do livro

Os personagens são incrivelmente bem construídos, com a psicologia e o físico definidos e reafirmados em vários momentos. O enredo, linear, mostrou pontos de vista de alguns personagens. Aqui, o leitor pode se deixar tocar pelos horrores e dores de um soldado britânico em retirada e sofrendo marcas indeléveis de uma guerra destrutiva, a Segunda Guerra Mundial, mais precisamente na retirada de Dunquerque. Também, e de forma especial, acompanhamos o dia-a-dia de uma enfermeira nesse período, o que impressiona e explica o antes imaginado apenas superficialmente.
Por meio de símbolos traçados com tinta numa página, ela conseguia transmitir pensamentos e sentimentos da sua mente para a mente de seu leitor. Era um processo mágico, tão corriqueiro que ninguém parava para pensar e se admirar. (pág. 35) 
É um romance marcante e tocante. Belo, maldoso até certo ponto, e muito bem escrito.
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24.10.14

A influência da série Harry Potter na literatura contemporânea é indiscutível, e muitos dos que leem Young Adult (livros do gênero "Jovem Adulto") cresceram com as aventuras do bruxinho mais querido que existe. Pensando nisso, o site Buzzfeed fez uma matéria super bacana que relaciona alguns livros YAs e as casas da escola de magia e bruxaria de Hogwarts. Simplesmente pediram aos próprios autores para que dissessem com qual casa seus personagens mais se identificam. O resultado é uma série de fotos no mínimo interessantes!





Bacana ver como a Rainbow Rowell desenha bem (lembrei muito as ilustrações do livro "Matilda"), perceber que não se deve ter vergonha de desenhar "palitinhos" - seus escritores preferidos também o fazem, por que não você? - e, claro, imaginar os personagens vivendo lá em Hogwarts.
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17.10.14

O retrato - um romance de obsessão, escrito por Charlie Lovett

Editora: Novo Conceito
Páginas: 414
ISBN: 9788581633886

A morte precoce de Amanda Byerly foi um golpe duro, que encheu de tristeza o coração de seu marido, Peter. Mais introspectivo do que nunca, ele decide deixar os Estados Unidos e se instalar na Inglaterra, onde passa a se dedicar à recuperação e à negociação de livros raros. Em um de seus dias de pesquisa solitária, Peter se depara com o retrato de uma jovem muito parecida com sua amada esposa, guardado dentro de um livro. A semelhança impressiona, mas a aquarela foi pintada há muito, muito tempo. Trilhando um sinuoso caminho entre a era vitoriana e o final do século XX, Peter passa a investigar a origem do misterioso retrato. As pistas acabam por levá-lo a se envolver em um mistério histórico - uma obra perdida do dramaturgo William Shakespeare.

SOBRE O QUE SE TRATA

O retrato, escrito pelo estadunidense Charlie Lovett, é ambientado no ano de 1995 e em uma pequena vila no interior da Inglaterra chamada Kingham. Após a precoce morte de sua esposa, Amanda, Peter Byerly deixou os Estados Unidos se mudou para Kinghan com o intuito de se afastar de tudo e de todos os que o faziam lembrar dela. Ele sofre de ansiedade social e desde os tempos da faculdade, quando começou a namorar Amanda, ela se transformou em sua proteção, fazendo com que o ato de se relacionar com outras pessoas se tornasse menos assustador.

Peter é apaixonado por livros, em especial aqueles que são considerados raros, como primeiras edições ou aquelas que pertenceram a pessoas renomadas. Ganha a vida procurando este tipo de livro, com a intenção de restaurá-los e vendê-los a colecionadores ou doá-los à bibliotecas. Antes de conhecer Amanda, os livros eram o seu refúgio e buscava neles uma forma de não precisar interagir com outras pessoas.

Decidido a retomar a sua vida e a seguir os conselhos de seu terapeuta, Peter visita uma pequena livraria de livros usados com a esperança de encontrar alguma raridade. Entre as estantes, ele encontra uma edição antiga de um livro sobre falsificações das obras de William Shakespeare, mas o que realmente o surpreende é uma aquarela que estava escondida dentro do livro. A pintura, claramente datada do período vitoriano, traz uma mulher muito parecida com Amanda.

Surpreso e intrigado, Peter decide descobrir a origem da aquarela e suas pesquisas o levarão mais longe do que ele jamais poderia imaginar. Em sua busca por pistas sobre o paradeiro do enigmático pintor da aquarela, Peter se encontrará no centro de uma investigação histórica: o mistério do Pandosto, livro de Robert Greene cuja primeira e edição teria inspirado William Shakespeare a escrever a peça Conto de inverno e na qual o dramaturgo teria feito diversas anotações nas margens.

Por meio de uma história que mistura mistério, suspense, romance e drama, Charlie Lovett conduz o leitor por uma viagem no tempo, começando pelas décadas de 1980 e 1990,  visitando as eras elisabetana e vitoriana e apresentando personagens históricas. O resultado é um romance marcado pela presença dos livros e pela obsessão daqueles que os amam.

MINHAS IMPRESSÕES

Primeiramente, preciso dizer que Charlie Lovett sabe conduzir uma história. A narrativa em terceira pessoa é dividida em três partes que se intercalam, de forma que a cada fim de capítulo um leitor é presenteado com um gancho, o que faz com que seja praticamente impossível largar o livro até chegar ao desfecho.

Além de acompanharmos a vida de Peter Byerly em 1995, tentando superar a perda de sua esposa e tentando compreender a origem da aquarela, somos levados também aos anos 1980, quando Peter ainda estava na faculdade; assim, podemos descobrir como ele e Amanda se conheceram e compreender como ela era importante para ele. É nesta parte da narrativa que somos apresentados à paixão de Peter, os livros raros, e temos acesso a várias informações verdadeiras sobre colecionadores e falsificadores. 

Também acompanhamos uma terceira narrativa que não traz nenhum protagonista em particular, a não ser o Pandosto. Assim, o leitor acompanha a trajetória do livro desde os anos 1500 e pouco, quando este chega às mãos de Shakespeare, até o período da Era Vitoriana, quando se tem o último registro do paradeiro do livro. A partir desta narrativa, somos apresentados à diferentes figuras históricas, como o próprio Shakespeare e o famoso colecionador Robert Cotton.

O enredo, apesar de envolvente, foi, para mim, um tanto previsível. Antes de chegar ao desfecho, já havia descoberto o mistério da aquarela e o do Pandosto. Mas isso, de forma alguma transformou a leitura em algo enfadonho. Acredito que tenha descoberto o final antes por já estar familiarizada com o gênero de investigações. De qualquer forma, como o livro traz elementos de diferentes gêneros, foi impossível me prender apenas ao mistério, de forma que, antes que me desse conta, já estava apegada à história do protagonista e seus dramas particulares. Ainda no que diz respeito a previsibilidades, preciso avisar que o livro é recheado de clichês que vão desde frases de impacto manjadas até um ~romance~ com uma coadjuvante feminina que surge no meio da trama.

Gostei muito da forma como Peter é apresentado, surgindo como um sujeito introspectivo e com dificuldades de relacionamento, mas que, aos poucos, começa a se transformar. Neste aspecto, posso afirmar que o autor fez um ótimo trabalho de desenvolvimento de personagem, já que ao final do livro Peter não é mais o mesmo do início. Quanto aos demais personagens, não sei se posso dizer o mesmo, já que todos parecem ser meros coadjuvantes na trama. Até o "vilão" da história é meio...nebuloso. A única exceção talvez seja Amanda, que nos é apresentada tanto pelo narrador -  nos flashbacks dos anos 1980 - quanto pela perspectiva de Peter, que constantemente conversa com ela e imagina como seriam as suas respostas ou comportamento em relação a suas atitudes. 

Apesar do livro trazer uma trama com mistério e suspense, não diria que o livro tem um desenrolar rápido. Ao contrário do que acontece com os livros de Dan Brown, por exemplo, em que os protagonistas passam por situações extremas e de correria contra o tempo em poucos dias, em O retrato as coisas ocorrem em um ritmo mais normal, sem muito desespero, e a ação propriamente dita só aparece no final. Acredito que ter ambientado a história na década de 1990 contribuiu para esse andamento mais tranquilo da narrativa, afinal, Peter é old school e realiza suas pesquisas em bibliotecas e por meio de ligações telefônicas. Gostei de poder lembrar, ainda que de forma breve, como era a vida antes do Google e dos smartphones. 

No fim, mesmo com alguns aspectos que podem ser considerados um empecilho para alguns leitores, eu gostei de O retrato. Não acho que Charlie Lovett tivesse qualquer pretensão de escrever a mais nova obra-prima do século XXI, mas sim um livro envolvente, que servisse como um bom entretenimento e que acabasse por deixar o leitor curioso em relação aos universos que ele apresenta: o dos colecionadores de livros raros e o das peças de William Shakespeare. No meu caso, afirmo que o autor foi bem sucedido, principalmente no que diz respeito as obras do Grande Dramaturgo! Já separei algumas de suas peças para leitura nos próximos meses.
 
Em termos físicos, a edição feita pela Novo Conceito está bem caprichada. O livro traz as amadas páginas amarelas que não cansam a vista e um ótimo espaçamento entre as linhas. Ah, as letras estão de bom tamanho também. Como disse, fisicamente falando, tá de parabéns.

O problema ficou mesmo por conta da revisão, que deixou passar alguns errinhos. Não são muitos e, em sua maioria, são erros de digitação - duas vezes a mesma letra ou palavra, travessão fora de lugar, falta de espaçamento entre ponto final e início de frase -; mas fiquei um tanto chocada com o erro de concordância verbal ("Aquelas partes dele estava congeladas;...". - Página 388, quarta linha), que ainda quero acreditar que foi um erro de digitação. Como o livro é um lançamento recente, espero que a Novo Conceito melhore a revisão para uma segunda edição.
 
Assim, com as devidas ressalvas feitas, fica aqui a minha recomendação de um livro divertido e com cara de filme para assistir em um domingo à tarde, acompanhado por um balde de pipoca e um copão de Cola-cola. 

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10.10.14

 Voos e sinos e misteriosos destinos, escrito por Emma Trevayne

Editora: Seguinte (Companhia das Letras)
Páginas: 312
ISBN: 9788565765435
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.

Nesta fábula moderna, com gosto das aventuras clássicas que encantam os jovens leitores há tantos anos, conhecemos a história de Jack Foster, um garoto de dez anos que, como qualquer um da sua idade, sonhava viver grandes aventuras. Ele morava em Londres mas estudava em um colégio interno, voltando para casa apenas nas férias, quando ficava completamente entediado.

Mas, um certo dia, Jack atravessa uma porta mágica e, do outro lado, encontra uma cidade ao mesmo tempo muito parecida e muito diferente daquela que conhecia. Em Londinium, apesar de reconhecer as ruas e prédios, ele encontra um cenário steampunk, com engrenagens e fuligem por todos os lados.

Por ali era raro encontrar alguém que não tivesse nenhuma parte do corpo feita de metal. E era justamente isso que a Senhora - uma mulher rígida e temperamental que governava a cidade desde sempre - buscava: um filho de carne e osso.
Jack logo descobre que aquele lugar era extremamente perigoso, e que voltar para casa não seria tão fácil quanto tinha sido chegar até ali...

SOBRE O QUE SE TRATA

Voos e sinos e misteriosos destinos, de Emma Trevayne, traz uma história ambientada na Londres vitoriana e apresenta o leitor a Jack Foster, um garoto de 10 anos que sonha com o momento em que viverá suas aventuras.

Com um pais ausentes, sempre ocupados com o trabalho ou jantares para os vizinhos, Jack vive sempre isolado e sob os cuidados da Sra. Pond, a governanta, ou em um colégio interno. Se sentindo muito solitário, Jack tem sempre a impressão de que a mãe não o ama e não tem muita paciência para ele, sempre o castigando quando ele escutava suas conversas escondido.

Um dia, escapando da Sra. Pond, Jack resolve seguir o estranho espiritualista de sua mãe por Londres e acaba descobrindo uma porta mágica no Big Ben. Curioso, o menino atravessa a porta e vai parar em uma Londres alternativa, cheia de engrenagens, fuligem e poluição. Londinum, como é chamada a cidade, é a capital do império da Senhora - uma mulher eterna e temperamental que está sempre à procura de um filho para mimar -, habitada por fadas, pássaros e bonecas mecânicas e pessoas que, para respirar, precisam ter seus corpos transformados com a inserção de metais.

MINHAS IMPRESSÕES

Apesar de não achar o enredo de Voos e sinos e misteriosos destinos muito original, gostei da maneira como a autora conduziu a história. Londinum é um lugar que, mesmo sujo, me despertou o fascínio, tanto por sua peculiaridade, quanto por seus personagens excêntricos.

Jack Foster é um garotinho esperto e curioso, de fácil identificação por parte do leitor. Apesar de ser o herói da história, não é difícil condená-lo por muitas de suas ações. Jack pode ser teimoso, egoísta e sem ambição. É um personagem bastante humano e, por isso, também muito realista. Seus amigos de Londinum - dr. Cataplasma, a boneca Beth e Xeno - foram responsáveis por me fazer rir durante a leitura, e também por me deixarem interessada pelo cenário steampunk e fantasioso criado por Trevayne. 

Os vilões também tem seu brilho. A Senhora, rainha de Londinum, é uma mulher de temperamento oscilante e cheia de caprichos. Seu império enfrenta uma ameaça de guerra - ou pelo menos é o que ela acredita estar acontecendo -, mas ela vive alienada e desesperada para ter um novo filho. Por ter vivido milhares de anos em um mundo onde as pessoas precisam ser modificadas para sobreviver, a Senhora sempre busca um filho perfeito, 100% humano, vindo do nosso mundo. Quando este cresce, ela o descarta e vai atrás de uma nova criança. Seu principal servente, Sir Lorcan consegue ser ainda mais assustador que ela. Praticante de magias malignas, Lorcan é capaz de tudo para agradar a senhora, seja sequestrar uma criança, seja matar muitos inocentes para conseguir essa criança.

A narrativa da história é feita em terceira pessoa e de uma forma bastante acessível e divertida, com um pouco de humor e ironia. A edição publicada pelo selo Seguinte traz ainda algumas ilustrações feitas por Glenn Thomas que captam a atmosfera da história sem impedir que a imaginação do leitor trabalhe.  As ilustrações, que não são muitas, não ocupam páginas inteiras, mas ainda assim servem como um bom complemento para a história. O livro traz também alguns erros que a revisão deixou passar; a maioria deles é de digitação - um travessão fora de lugar, a falta de uma letra ou um ponto/vírgula -, mas acho válido mencionar que dois deles são de concordância verbal. Não são erros que atrapalham a leitura, mas acho que a editora poderia ter mostrado um cuidado maior, visto que estamos falando de um livro voltado para crianças que estão iniciando a vida como leitoras e também aprendendo a escrever. Espero que a próxima edição corrija os erros.

Como mencionei acima, não achei o enredo do livro muito original, e a criatividade ficou por conta da ambientação. Por se tratar de uma história para crianças, dá para afirmar que o livro tem aspectos mais sombrios e até traz momentos pesados. Nada impossível de ser compreendido por uma criança, claro. A princípio, o leitor é conduzido por uma narrativa de apresentação do universo fantástico, porém, aos poucos, a história começa a tomar um rumo e mistérios começam a surgir, deixando tudo mais interessante.

Mesmo com a previsibilidade, a leitura foi agradável. A única ressalva que faria é a respeito da superficialidade de alguns personagens. Enquanto lia, aguardava para descobrir algo a mais sobre a Senhora, por exemplo, ou a mãe de Jack; mas ao chegar ao final, algumas dúvidas permaneceram. Não acredito que essa superficialidade seja um empecilho e até acho que a autora deixou as coisas assim intencionalmente. Acredito que, por eu não ser mais o público alvo desse tipo de livro, acabo esperando uma profundidade típica de livros mais adultos, o que não faz sentido algum neste caso, porque é um livro infantil e muito deve ser deixado para a imaginação. Ainda assim, acredito que Voos e sinos e misteriosos destinos seja uma ótima leitura para aqueles com idade entre 8 e 12 anos, ou aqueles que gostam de histórias infantojuvenis. Leitura recomendada!
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7.10.14


Fama & Loucura, escrito por Neil Strauss.
Editora: BestSeller
Páginas: 523
ISBN: 9788576846031
Em Fama & Loucura, Neil Strauss (que já trabalhou por mais de vinte anos em algumas das maiores publicações do mundo — como o jornal The New York Times e a revista Rolling Stone) revela 228 entrevistas com alguns dos maiores nomes da música, do cinema e da TV que nunca chegaram a ser publicadas, mostrando os momentos mais insanos e as experiências mais incomuns que já teve com pessoas famosas. Acompanhe as aventuras do autor, enquanto ele bebe com Bruce Springsteen, janta com Gwen Stefani, entra na mesma banheira que Marilyn Manson, fala sobre fama com David Bowie e muito mais. 
Fama & Loucura é uma coletânea de entrevistas reunidas em capítulos que imitam cenas e atos a fim de suscitar uma reflexão do leitor acerca das personalidades retratadas ali. O jornalista estadunidense, Neil Strauss, publica, através deste livro, passagens de entrevistas e fragmentos de conversas que teve com famosos e que, por terem uma dose muito grande de sinceridade e de loucuras, foram de alguma forma recusados por editores. 
Atirei com Ludacris, fui sequestrado por Courtney Love, fiz Lady Gaga chorar, comprei Pampers com Snoop Dogg, saí para beber com Bruce Springsteen, tentei impedir o Mötley Crue de ser preso, recebi lições sobre cientologia de Tom Cruise, andei de helicóptero com Madonna, aprendi a ler mentes com a CIA, entrei em uma hidromassagem com Marylin Manson, fui repreendido por Prince e coloquei Christina Aguilera pra dormir. Esse é o meu trabalho. (Neil Strauss, na abertura do livro.)
Apesar de transparecer certo ímpeto sensacionalista, o livro expõe o que provavelmente, a princípio, não nos vem à cabeça quando pensamos em nossos fãs, ou, de modo geral, nesses artistas. Isso porque tanto fãs podem ficar incomodados pela realidade do livro, como pessoas indiferentes (como eu era em relação à Madonna) se surpreendem. 
Lady Gaga: Como artistas, estamos eternamente de coração partido.
Isso é muito Rilke.
Lady Gaga: Isto aqui é Rilke (mostra a tatuagem no braço com uma passagem de "Cartas a um jovem poeta", de Rainer Maria Rilke). (pág. 64)
Eu era meio nerd quando me mudei para Nova York e adorava ler. Nunca se sabe quando vamos ficar presos em uma sala ou no metrô sem nada para fazer - e eu detesto perder tempo. Então eu sempre levava livros a todo lugar que ia para o caso de haver um atraso ou as coisas ficarem entediantes. A primeira boate que fui na vida se chamava Pete's Place. Era tipo um restaurante-bar-discoteca. E eu me senti muito sem graça. Como estava meio envergonhada, sentei no meu canto e fiquei lendo um livro.
Que livro era?
Madonna: Era um livro do F. Scott Fitzgerald, "Seis contos da era do jazz". Pensei: "OK, eu não me encaixo. Não sei o que fazer. Não estou vestida de acordo. Não há nada de descolado em mim. Vou ler um livro". (pág. 23)
A alegação: Eu vi Manson tirar pintinhos, vários filhotes de cachorro e de gato de um saco e jogá-los para a platéia (...) Então Manson (...) não começa o show até os animais estarem mortos.Manson: Eu gosto de cachorros. Eu tenho um cachorro. Não tenho nenhuma razão para querer matar animais. Além de ser inútil e ridículo, se eu estivesse fazendo coisas como essa, não estaria no palco. Estaria na prisão. (pág. 190)
Apesar de eu ainda achar que a Lady Gaga é alucinada e uma não habitante do planeta Terra, e de eu especular sobre a veracidade dessa afirmação acima sobre a Madonna, a leitura serviu para me fazer entender que eles também são como nós, possuem seus problemas pessoais, mas que estão inseridos numa realidade que, na maioria dos casos, é avassaladora e "devora seus jovens", como confessa Cher ("Se essa indústria não matar você, então pode voltar e esperar ser a melhor pessoa que vai ser, porque é a única indústria que devora seus jovens" pág. 278).
Crahan (Slipknot): Apareci diante de 60 mil pessoas e me senti isolado delas. (pág. 264)
Também serviu para quebrar muitos paradigmas que eu tinha sobre a maioria dos famosos. Se antes eu tinha certo preconceito em relação ao Marilyn Manson, hoje já não o julgo apenas através de boatos e afirmações macabras. Mas, é claro, certas imagens já criadas previamente (poucas, eu diria) foram justificadas e reforçadas, como é o caso de Paris Hilton. Portanto, o leitor de Fama & Loucura irá se surpreender positiva e negativamente, passando por experiências muitas vezes paradoxais, especialmente se for um apreciador do mundo da música e de Hollywood. 
Paris Hilton: Não suporto negros. Nunca tocaria em um. É nojento.
Quão negro um cara tem de ser?
Hilton: Um por cento já é o suficiente para mim. (pág. 392)

Felizmente, é muito mais fácil e menos doloroso aprender com os erros dos outros do que com os seus. E as pessoas que estão nestas páginas e cometeram praticamente todos os erros que existem. Ler as histórias delas é um lembrete da importância de se distanciar da nossa vida cotidiana - e das nossas ansiedades, obrigações, arrependimentos e paixões - e ter certeza de que estamos fazendo a coisa certa sob a perspectiva adequada com o pouco de tempo que nos resta. (...) É terrível chegar ao final de sua vida e perceber que você estava só um pouquinho fora de curso e que suas prioridades estavam erradas. (Neil Strauss no epílogo.)
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3.10.14

Não sou fluente em inglês e, como muitas pessoas, sonho com o dia em que poderei conversar nessa língua sem me preocupar com os erros ou com a construção das frases. Para isso, é importante o estudo. E nada mais divertido do que um guia que ajuda a organizar as lições na hora de estudar. 

Com grande dose de humor, a ilustradora Luci Gutiérrez compilou passagens nas quais sua arte entra em harmonia com ensinamentos. São 340 páginas sem pudor algum, que imprime a experiência da autora como alguém que já viveu em Nova York. Assim, não apenas este livro contém as muitas vezes monótonas lições de inglês comuns, como também apresenta expressões orais muito usadas, coloquialismos, gírias e outras informações necessárias àquelas pessoas que pretendem ser fluente em inglês - ou que já o são, servindo aqui como um livro útil para relembrar do que já se sabe, mas de maneira divertida e fácil.

O livro é inteiro em inglês, sem tradução alguma, para realmente transmitir ensinamentos. Então há muitos sinônimos que contribuem para uma possível interpretação do leitor, e aprendizado. O material e a diagramação são muito bons, justamente para se adequarem à arte da autora, que possui traços diferentes e contagiantes. Mais do que um livro, este é um guia que garante uma leitura diferente e muito interessante para os que se interessam pela língua inglesa.














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Tigres em dia vermelho, escrito por Liza Klaussman

Editora: Intrínseca
Páginas: 318  
ISBN: 9788580573367 

A Segunda Guerra Mundial acaba de chegar ao fim e as primas Nick e Helena irão se separar pela primeira vez. Helena está de mudança para Hollywood, onde um novo casamento a espera, enquanto Nick embarca rumo à Flórida para se juntar ao marido, Hughes, um jovem oficial que voltou de Londres. Para as duas, que cresceram passando os verões em Tiger House, a gloriosa propriedade da família na ilha de Martha's Vineyard, aproveitando os dias quentes e as noites regadas a gim, o mundo parece cheio de possibilidades.

Em pouco tempo, porém, Nick e Helena percebem que a realidade não corresponde a seus sonhos, e, com o passar dos anos, as viagens para Tiger House assumem uma nova complexidade. À beira da década de 1960, a filha de Nick, Daisy, e o filho de Helena, Ed, fazem uma descoberta sinistra, que rouba a aura de felicidade da ilha e lança os corações da família às sombras.

Magnificamente narrado a partir de cinco perspectivas, Tigres em dia vermelho é uma estreia inesquecível. Um romance repleto de traição, paixão e violência, escondidas sob uma fachada de polidez e riqueza. Um suspense familiar com um desfecho surpreendente.
 

SOBRE O QUE SE TRATA

Ambientado durante as décadas de 1940 e 1960, Tigres em dia vermelho - estreia da estadunidense Liza Klaussmann -, apresenta um drama familiar e traz a história de duas mulheres. Nick e Helena são primas, muito próximas e completamente diferentes. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o futuro parece reservar grandes feitos para as vidas das duas, que estão prestes a se separar pela primeira vez, deixando a gloriosa Tiger House - propriedade da família localizada na ilha Martha's Vineyard e cenário de todos os verões de suas vidas desde quando eram crianças - para o passado.

Nick, dona de um espírito livre, tem todos os motivos para se considerar uma mulher feliz: é rica, mimada e em breve estará na Flórida com Hughes, seu marido e oficial da marinha que acaba de retornar de Londres. Helena, por sua vez, é tímida e nunca se encontrou na situação abastada da prima. Após a morte de seu primeiro marido na guerra, ela vai para Hollywood, onde um novo casamento e uma vida de festas e glamour a aguardam.

Aos poucos, ambas percebem que o futuro não é tão brilhante quanto imaginaram. Em meio a segredos, frustrações e aparências, a relação entre as duas começa a ruir e as visitas à Tiger House que costumavam ser reconfortantes, se transformam em experiências complexas, rotineiras e monótonas. Apenas doze anos depois é que a monotonia é interrompida, quando um acontecimento vivenciado pelos filhos de Nick e Helena abala a estrutura da família e deixa marcas profundas. 

MINHAS IMPRESSÕES

A primeira coisa que me atraiu para Tigres em dia vermelho foi a capa; há algo de intrigante nas duas mulheres de maiô vermelho. Mais intrigante ainda é o olhar da moça à direita. Depois de me apaixonar pela capa, li a sinopse (coisa que raramente faço) e decidi que precisava ler.

Os primeiros capítulos são muito envolventes; me deixei levar pela história dessas duas mulheres encantadas com a possibilidade de viver em um mundo livre da guerra e que aparentava trazer um futuro brilhante. Nick é uma mulher de personalidade forte e bastante determinada; por estar acostumada a ter tudo do seu jeito, é mimada e irritante em alguns momentos. É uma personagem bem construída e desenvolvida que foi capaz de me fazer sentir simpatia e ódio em diversos momentos. Gostei da forma como Nick é pura e simplesmente humana: cheia de sonhos, ambições e frustrações.

Helena, apesar de também ter sido bem construída, não foi capaz de gerar em mim a mesma simpatia. Mas talvez essa tenha sido a intenção da autora. Não gostei de como ela lida com as adversidades de sua vida e, principalmente, da falta de amor próprio que ela demonstra. É aquele tipo de personagem que sofre, mas não parece querer sair do sofrimento e/ou aceitar ajuda para fazê-lo. 

Ao longo do livro, a narrativa é dividida em cinco partes que correspondem a cinco perspectivas - Nick, Helena, Hughes, Daisy e Ed (os filhos de Nick e Helena, respectivamente) - o que, a princípio, enriqueceu muito a narrativa, mas que, aos poucos, se transformou em um problema. Enquanto Liza Klaussman fez um excelente trabalho na construção e desenvolvimento de suas personagens femininas, o mesmo não posso dizer a respeito dos personagens masculinos, que em muitos momentos não soaram verdadeiros para mim e suas narrativas foram, em sua maioria, enfadonhas.

Com exceção da última parte, todas as demais são narradas em terceira pessoa. Gostei da forma como a autora elaborou a narrativa, mesclando descrições de ambientes e situações com pensamentos dos personagens. É bastante interessante poder ler duas ou mais perspectivas sobre um mesmo acontecimento e observar como cada personagem tem uma percepção diferente dos fatos e das pessoas envolvidas. Porém, ao mesmo tempo que esse recurso tornou a narrativa rica e interessante, também se tornou enfadonho a partir da quarta parte, pois ficou repetitivo e nada de novo parecia ser acrescentado.

Apesar de ter iniciado a leitura com boas expectativas, com o desenrolar dos acontecimentos as minhas impressões da leitura foram mudando até chegar a um ponto em que comecei a desejar que o livro chegasse logo ao fim para eu saber como a história terminaria. Não vou mentir: não gostei do desfecho do livro. Não por algum acontecimento específico, mas pela forma abrupta como tudo foi acontecendo. A revelação que é feita ao leitor na última parte do livro é bastante previsível - ouso afirmar que desde o início -, mesmo a autora tentando fazê-la parecer surpreendente. Não compreendi a razão para esse trecho ter uma narrativa em primeira pessoa, já que não trouxe explicações mais claras ao leitor, de forma que o desfecho continuou bastante superficial.

,Ao concluir a leitura, fiquei com a sensação de ter lido dois livros diferentes. A primeira metade (livro 1) tendo me agradado bastante e me transportado para décadas no passado; a segunda (livro 2), me incomodando por trazer aspectos menos realistas e contrariando tudo o que o livro tinha me apresentado até então. Fiquei com a impressão de que a autora queria causar um impacto, mas como abordou alguns aspectos dos personagens e acontecimentos de forma abrupta e superficial, o desfecho ficou incoerente com o resto da história.

De uma forma geral, Tigres em dia vermelho foi uma leitura envolvente e que começou bem, mas que me decepcionou a partir da metade. Ainda assim, não vou negar que a capa me fascina. E se você ficou intrigado e curioso em relação ao livro, não se deixe levar totalmente pela minha opinião, pois a julgar pelas avaliações no Goodreads e no Skoob, muita gente gostou da leitura, e o único jeito de saber se você vai gostar, é dando uma chance.
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