24.9.14

Resenha: A festa da insignificância

A festa da insignificância, de Milan Kundera.
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 134
ISBN: 9788535924664
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.
A festa da insignificância foi aclamado pela crítica e despertou enorme interesse dos leitores na França e na Itália, onde logo figurava em todas as listas de best-sellers. Lembrando A grande beleza, filme de Paolo Sorrentino acolhido com entusiasmo pelo público brasileiro no mesmo ano, o novo romance de Milan Kundera coloca em cena quatro amigos parisienses que vivem numa deriva inócua, característica de uma existência contemporânea esvaziada de sentido. Eles passeiam pelos jardins de Luxemburgo, se encontram numa festa sinistra, constatam que as novas gerações já se esqueceram de quem era Stálin, perguntam-se o que está por trás de uma sociedade que, ao invés dos seios ou das pernas, coloca o umbigo no centro do erotismo. Na forma de uma fuga com variações sobre um mesmo tema, Kundera transita com naturalidade entre a Paris de hoje em dia e a União Soviética de ontem, propondo um paralelo entre essas duas épocas. Assim o romance tematiza o pior da civilização e lança luz sobre os problemas mais sérios com muito bom humor e ironia, abraçando a insignificância da existência humana. Mas será insignificante, a insignificância?

Sobre o que se trata

Com um misto de melancolia e filosofia crítica, Milan Kundera volta ao cenário literário depois de 14 anos sem publicações, abordando a erotização de umbigos, suicídio transformado em assassinato, Stálin e seus subordinados, um paquistanês inventado e um falso câncer. Todos esses temas, que parecem desconexos e insignificantes quando agrupados numa mesma frase, vão justamente relatar a insignificância da vida humana.

Ambientado em Paris, o livro narra acontecimentos cotidianos da vida de quatro amigos - Alain, Charles, Calibã e Ramon. Alain se questiona sobre a nova moda que é deixar os umbigos à mostra. Inicia o livro constatando o quão curioso é esse apego momentâneo aos umbigos e à sensualização deles (no lugar de coxas, por exemplo), e termina sem entender o porquê deles terem se tornado um objeto de desejo. Alain também possui um trauma de infância: sua mãe o abandonou há muito tempo, fazendo com que ele crescesse sem nada saber sobre ela. Assim, vive imaginando como ela é e o que diria a ele em determinadas situações. 

Ramon fica comovido ao saber que um conhecido, D'Ardelo, está com câncer, mesmo sem ter muita empatia por ele. Chega a refletir, a partir da personalidade do doente, sobre pessoas insignificantes e narcisistas. Charles é o personagem que está lendo "Memórias", de Nikita  Khruschóv, e, assim, insere no enredo críticas sutis ao stalinismo (o autor tcheco já foi perseguido pelo regime comunista). 
Um Narciso não é um orgulhoso. O orgulhoso despreza os outros. Os subestima. O Narciso o superestima, porque observa nos olhos de cada um sua própria imagem e quer embelezá-la. Cuida, assim, gentilmente de todos os seus espelhos.
Calibã é um ator frustrado que trabalha como garçom e, para aliviar o tédio e tentar se transformar numa pessoa interessante, finge para seus clientes que é um paquistanês e que não fala francês.

E é na festa de aniversário de D'Ardelo que algumas personagens se encontram em cenas que transbordam tédio e volubilidade. Dessa forma, em poucas páginas Kundera sintetiza um enredo que verbaliza a insignificância da maioria de nossos dramas pessoais, caricaturando-os até o exagero refletir a falta de sentido de suas existências.

Minhas impressões

Este foi o primeiro contato que tive com as obras do autor, então não posso comparar este livro com outros já publicados por ele - inclusive o seu maior sucesso, "A insustentável leveza do ser". Mas esta história tão efêmera foi capaz de me conquistar a ponto de me deixar totalmente inclinada a ler mais do autor. Isso porque, camuflada por uma leitura acessível, rápida e aparentemente superficial, a história diz muito mais do que está registrado no papel. Engana-se quem lê este livro e pensa que ele não possui profundidade alguma. A crítica e a filosofia são tão sutis, que chegam a divergir de leitor para leitor. Uma das características mais bacanas é que os leitores do livro podem sentar para conversar sobre ele e se surpreenderem com o que o outro conseguiu extrair da experiência. Enfim, é uma leitura muito íntima.





A crítica presente é muito ampla, pois até mesmo os personagens se apresentam como universais. Apesar de todos serem masculinos, e da mulher apenas aparecer na trama em situações delicadas e negativas, percebemos que os nomes e as características físicas são acessórios à parte e muitas vezes deixados de lado. Até o psicológico é retratado sem diluição. E por que não dizer que o próprio ambiente é difuso aqui? A história poderia igualmente se passar em outro lugar que não Paris. Então, não se surpreenda caso misture personagens, pensamentos e cenas. 

A escrita é leve, acessível e elegante. A maior dificuldade do livro é mesmo com a mensagem que ele é capaz de transmitir, não em sua leitura. Os temas são complexos e repletos de epifanias.
Agora, a insignificância me parece sob um ponto de vista totalmente diferente de então, sob uma luz mais forte, mais reveladora. A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes coragem para reconhecê-la em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. (pág.132)
Algumas cenas são muito líricas e marcantes, como a do suicídio que se transforma em assassinato. E o modo como é inserido na trama faz com que o episódio ganhe grandes dimensões, psicologicamente falando, e de um jeito inesperado. Aí, dá para entender que os dramas de cada personagem são arraigados à essência e que, apesar de se mostrarem superficiais aos olhos do leitor, são importantes para o ser que as possui. E isso acontece com todos. Nossos dramas se misturam ao nosso egocentrismo (simbolizado aqui pelos umbigos), e somente quem observa de longe (o leitor) é que consegue criticar com veemência. Dominados por seus próprios dramas individualistas, os outros personagens não percebem a festa de insignificância na qual estão inseridos.

8 comentários:

  1. Mell, que resenha excelente! Fazia um bom tempo que não comentava por aqui, mas você tem lido vários livros diferentes, sei que perdi muita coisa boa.

    Nunca li nada do Kundera, não conheço o estilo do autor e apesar de obviamente conhecer a obra mais famosa dele (de nome, quero dizer), nem sei do que se trata. Achei esse bem... curioso. Não parece o tipo de coisa que me atrairia sem uma resenha como essa, pra ser sincera, mas gostei muito da sua análise (e daquela citação que você escolheu para incluir no post).

    Beijo!

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  2. Que ótima resenha! Comprei recentemente "A insustentável leveza do ser" e pretendo ler assim que puder,e sempre bate aquele medinho,já que ele é um livo tão falado e amado. Pretendo comprar esse em breve também. Sem contar que essa edição é belíssima <3

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  3. Kundera é um desses seres maravilhosos que conseguem expressar muito com o pouco. Sou completamente apaixonada por suas obras (A Insustentável Leveza do Ser é meu livro preferido da vida) e mal posso esperar para ler esse, Mell.


    Kundera = ♥

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  4. Amei a resenha!! Lerei assim que meu bolse se recurar rs, vou procurar mais sobre o autor também, e achei a capa uma fofura.

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  5. Mell, que texto! Parabéns! \o/

    Lendo as suas impressões de "A festa da insignificância" me lembrei das sensações que tive ao ler "A insustentável leveza do ser". Pelo que percebi, ambos trazem uma característica marcante do autor, a de dizer mais do que conseguimos encontrar nas páginas.
    Lembro de ter ficado meio introspectiva e "pra baixo" durante uns dias depois de terminar a leitura; isso aconteceu com você?

    Nem preciso dizer que lerei esse livro, né? Já adicionei à lista de leituras!

    Beijos :)

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  6. SENSACIONAL a sua resenha, Mell. Adoro as análises que vc faz, são diretas e bem planejadinhas, parabéns (como sempre). Eu sempre tive curiosidade de ler algo do Milan, talvez esse seja um bom pontapé. :))))


    Me chamou a atenção esse trecho sobre o suicídio. Ai, a curiosidade.


    Bjs <3

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  7. Ótima resenha Mell; Milan Kundera tem um estilo de escrita maravilhoso. Fácil de ler, mas difícil de compreender plenamente. Gosto muito deste tipo de enredo: Que aborda a adolescência de uma maneira original sem reconhecendo a delicadeza dessa fase, sem clichês, afetações ou banalidades extremas.



    email: drigo-ac@hotmail.com

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  8. Mell, ainda não li nenhum livro do autor, mas sua resenha me deixou bastante curiosa, e o trecho que vc escreveu do livro me atraiu bastante, a ponto de despertar em mim uma vontade imediata para ler o livro, ele me fisgou, e o jeito agora é, comprar e ler o livro.

    quelitasena@hotmail.com

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