10.9.14

A rotina de escritores famosos

            Descobrir curiosidades sobre autores que tanto admiro e respeito é quase uma epifania. Às vezes, de tão famosos, alguns livros parecem ter sido escritos por alguma divindade, de tão inacessíveis que são os seus autores, ou de tão antigos e difundidos pelo imaginário popular. Portanto, adorei a matéria do site Short List que traz alguns trechos de um livro intitulado "Rituals: How Great Minds Make Time, Find Inspiration, And Get To Work" (em tradução livre: "Rituais: Como Grandes Mentes Encontram Tempo, Acham Inspiração e Vão ao Trabalho"). Sempre bom se inspirar no trabalho de grandes escritores!

Jane Austen

  Austen acordava cedo, antes que as outras mulheres estivessem de pé, e tocava piano. Às 9h ela organizava o café-da-manhã da família, sua maior tarefa de casa. Então ela se acomodava para escrever na sala de estar, muitas vezes ao lado de sua mãe e irmã, que costuravam silenciosamente. Se visitas aparecessem, ela escondia os papéis e também passava a costurar. O jantar, a principal refeição do dia, era servido entre as 15h e 16h. Passavam a noite lendo livros em voz alta, e nesse período Austen lia os seus trabalhos em progresso para a família.

Victor Hugo

  Hugo escrevia todas as manhãs sentado numa pequena escrivaninha em frente a um espelho. Ele se levantava ao alvorecer, acordado pelo tiro diário de um forte próximo, e recebia um pote de café recém passado e sua carta matinal de Juliette Drouet, amante que ele instalou em Guernsey, apenas nove casas ao lado da sua. Após ler as palavras apaixonadas de "Juju" para seu "amado Cristo", Hugo comia duas gemas de ovo, se trancava no seu posto de observação e escrevia até às 11h da manhã.

Mark Twain


  Sua rotina era simples: ele ia para o escritório de sua casa durante a manhã, após um farto café-da-manhã, e lá ficava até o jantar (aproximadamente às 17h). Por pular o almoço, e uma vez que sua família não arriscava se aproximar do escritório - eles tocavam uma buzina se precisassem dele - ele geralmente podia trabalhar de forma ininterrupta por muitas horas. 
"Em dias quentes, eu abro todas as janelas do escritório, ancoro meus papéis com pedaços de tijolos e escrevo no meio de um furacão"

Stephen King

  King escreve todos os dias do ano, incluindo seu aniversário e feriados, e ele quase nunca se permite parar antes de atingir sua cota diária de duas mil palavras. Ele trabalha durante as manhãs, começando por volta das 8h ou 8h30. Em alguns dias ele termina tão cedo quanto 11h30, mas geralmente ele leva até 13h30 para alcançar sua meta. Então ele tem as tardes e noites livres para cochilos, cartas, leitura, família e jogos do Red Sox (time de baseball) na TV.

Franz Kafka

  Em 1908, Kafka conseguiu um cargo no Instituto de Seguros de Trabalhadores Acidentados em Praga, onde ele era sortudo o suficiente para trabalhar por apenas um turno. Ele vivia com sua família num apartamento apertado, onde conseguia se concentrar para escrever apenas tarde da noite, enquanto todos os outros dormiam. 
Como Kafka escreveu para Felice Bauer em 1912, "o tempo é curto, minha força limitada, o escritório é um horror, o apartamento é barulhento, e se uma vida prazerosa e simples não é possível, então é preciso se esgueirar por ela através de manobras sutis". Na mesma carta ele descreve seus horários "... às 22h30 (mas por muitas vezes a partir das 23h30) eu me sento para escrever, e eu continuo, dependendo da minha força, vontade e sorte, até à 1h, 2h, 3h, uma vez até às 6h da manhã".

Tolstói

  "Eu tenho que escrever todos os dias, sem exceções, nem tanto para o sucesso do trabalho, mas sim para não sair da rotina." 
                Esse é Tolstoy em um dos poucos registros que ele fez durante a metade dos anos 1860 no seu diário, quando ele estava trabalhando a fundo na criação de Guerra e Paz. De acordo com Sergei (seu filho), Tolstoy trabalhava isolado - ninguém era permitido entrar em seu escritório, e as portas dos cômodos ao lado eram trancadas para ter certeza de que ninguém o interromperia.

Charles Dickens

  Primeiramente, ele precisava de silêncio absoluto; em uma de suas casas, uma porta extra foi instalada em seu escritório para bloquear barulhos. Além disso, tal cômodo tinha que estar precisamente arrumado, com sua escrivaninha na frente de uma janela, e em cima dela seus materiais de escrita - canetas-tinteiro de pena de ganso e tinta azul - ao lado de diversos enfeites: um pequeno vaso de flores frescas, uma abridor de cartas grande, uma folha de ouro com um coelho desenhado e duas estatuetas de bronze (uma representando um par de sapos gordos duelando, a outra com um senhor sendo envolvido por um bando de cachorrinhos).

George Orwell

  O posto no Canto dos Amantes de Livros (Booklover's Corner, um sebo londrino onde ele trabalhava como assistente durante meio-período) provou ser o encaixe perfeito para o solteiro de 31 anos. Acordando às 7h, Orwell abria a loja às 8h45 e ficava lá por uma hora. Então ele tinha tempo livre até às 14h, quando ele retornava ao sebo e trabalhava até às 18h30. Isso dava a ele quase quatro horas e meia de tempo para escrever durante a manhã e o começo da tarde, o que, convenientemente, eram as horas nas quais ele estava o mais mentalmente alerta.

Haruki Murakami

  Quando está escrevendo um livro, Murakami acorda às 4h da manhã e trabalha durante cinco ou seis horas sem descanso. Durante as tardes ele corre ou nada (ou ambos), faz tarefas, lê e escuta música; a hora de dormir é às 21h. "Eu mantenho essa rotina todo dia, sem variações", ele disse ao The Paris Review em 2004. 
"A repetição em si se transforma na coisa mais importante; é uma forma de entrar em transe. Em me hipnotizo para alcançar um nível mais profundo da minha mente.
                O único problema dessa agenda, Murakami admitiu num ensaio em 2008, é que ela não permite uma vida social.

Simone de Beauvoir

  Apesar de o trabalho de Beauvoir ser sua prioridade, sua agenda diária também girava em torno de seu relacionamento com Jean-Paul Sartre, que durou de 1929 até a morte dele em 1980. Era uma parceria intelectual com um componente sexual de certa forma esquisito; de acordo com um pacto proposto por Sartre no começo do relacionamento, ambos podiam ter amantes, mas eles eram obrigados a contar tudo um ao outro.
  Geralmente, Simone trabalhava sozinha durante a manhã e depois encontrava Sartre para o almoço. Durante a tarde eles trabalhavam juntos e em silêncio no apartamento de Jean-Paul. No período noturno, eles iam para o evento político ou social que estivesse na agenda de Sartre, ou então iam para o cinema ou bebiam scotch e escutavam rádio no apartamento de Beauvoir.

Tradução por Felippe Lacerda.

9 comentários:

  1. Olá, Mell
    Tudo bem?
    Adorei saber mais sobre a rotina dos escritores, adoro a Jane hahaha. Sempre fui muito curiosa pra saber sobre isso!
    Beijos*-*
    Território das Garotas

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  2. Todos têm uma coisa em comum: eram relativamente ou totalmente desocupados. Se tivessem que trabalhar dez horas por dia em um emprego de verdade e ainda cuidar de tarefas domésticas, sabe-se lá o que escreveriam. De qualquer maneira, é sempre bom descobrir em que cirscunstâncias esses gênios produziram sua obra. Parabéns!

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  3. Mell, adorei esse post, super criativo! Nunca tinha pensado nisso, na rotina dos escritores rs

    Beijos,
    Caroline, do criticandoporai.blogspot.com

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  4. As rotinas são puxadas, e os sentimentos interferem, mas há profissões que são mais puxadas.

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  5. Ai que linda, você sempre comentando por aqui <3
    Sim, é verdade, tudo é relativo à personalidade de cada um e à vida que cada um leva. Muito bacana perceber essas diferenças, não é?
    Bjs

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  6. Eu já tinha, mas é difícil termos contato com isso, não é? hahaha
    Obrigada pelo comentário :D
    Bjs

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  7. É porque a maioria possuem a escrita como profissão. Mas concordo que vários eram $ e não precisavam trabalhar, então podiam escrever à vontade. Ai, que sonho rs
    Obrigada pelo comentário :)

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  8. Tudo sim e contigo? ;)
    Sim, eu também rs É muito bacana termos uma ideia sobre a vida de nossos autores preferidos, não é?
    Beijos

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  9. Orwell escrevia seus livros em algum tipo de santuário onde brotava sabedoria, pode pesquisar, não estou ficando louco.

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