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Ensaio sobre a cegueira Saramago

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Uma duas Eliane Brum

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ao farol virgínia woolf

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mulheres de cinzas mia couto

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Extraordinário Luandino Vieira

resenha 6

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Luuanda Luandino Vieira
26.9.14

Enquanto observava a minha estante me dei conta de que nos últimos anos conheci alguns autores que adoraria reencontrar. Com isso em mente, resolvi fazer uma lista com alguns desses autores. Preparados? Vamos lá!

Meu primeiro contato com Jennifer Egan ocorreu em 2012, quando estava me descabelando com o TCC. Como meu grupo optou por escrever um livro-reportagem com um estilo mais literário, nosso orientador sugeriu alguns livros contemporâneos que traziam estruturas interessantes e que poderiam servir como inspiração na hora de criar os nossos próprios textos. Assim, conheci "A visita cruel do tempo", vencedor do Pulitzer. Lembro de ter gostado da leitura e de me impressionar com a estrutura da narrativa. E é aí que acabam as minhas recordações. TCC é traumatizante, gente! E causa amnésia, aparentemente. Brincadeiras à parte, quero ler pelo menos mais um livro da autora antes de - quem sabe - encarar uma releitura de "A visita cruel do tempo".

Juro que jamais teria conhecido Liane Moriarty se não fosse pela Intrínseca. Calma, eu explico: quando o meu blog se tornou parceiro da editora, recebi um exemplar de "O segredo do meu marido" como um presente para marcar o início da parceria. Sinceramente, tanto o título quando a capa não me pareceram atrativos, não achei a história seria de meu agrado. Ainda assim, resolvi dar uma chance ao livro já que ele havia sido um presente. Ainda bem que o fiz, porque adorei a forma como a autora narrou o drama familiar vivido por Cecilia Fitzpatrick, criando tensão em alguns momentos e me envolvendo a cada virada de página. Preciso ler mais alguma coisa da autora; sugestões?

Quem já me acompanha há mais ou menos um ano sabe do meu amor por "O Circo da Noite", o livro de estreia de Erin Morgenstern. Amo tanto o livro que às vezes penso em fazer uma coleção com várias edições dele, acreditam? Lembro que durante a leitura me deixei envolver completamente pela narrativa da autora, de forma que me sentia parte da magia do circo. Quando concluí a leitura - que fiz de tudo para que durasse muitos dias - fui atrás de informações sobre a autora e sobre seus trabalhos e fiquei muito frustrada ao descobrir que ela ainda não havia publicado outro livro. Logo, fico no aguardo, Erin.

Confesso que até alguns meses atrás não sabia que essa autora já tinha um livro publicado aqui no Brasil e seu nome só me soava familiar por conta de alguns canais literários internacionais que acompanho. Acontece que lá na gringa, E. Lockhart está bombando por conta de "We were liars"  - que aqui vai se chamar "Mentirosos"  e chega às livrarias pelo selo Seguinte em 10 de outubro -, logo, não negarei uma certa curiosidade e também um certo receio em relação à autora. Felizmente, recebi uma cópia antecipada da edição brasileira que li de forma voraz e desesperada só para saber se o livro era mesmo essa Coca-cola toda questão dizendo. E olha, é isso tudo sim. Já estou cogitando uma releitura. E, claro, conhecer mais o trabalho da autora.

Eu sei que ainda temos alguns meses até 2014 chegar ao fim, mas tenho certeza de que Jeffrey Eugenides escreveu o melhor livro que li este ano e, provavelmente, um dos melhores que li na vida. Não consigo nem colocar em palavras tudo que senti e pensei enquanto lia - e, principalmente depois que terminei - "As virgens suicidas" (resenha aqui). O livro foi escrito com um cuidado, com uma delicadeza, que é impossível não se envolver na narrativa dos garotos apaixonados/obcecados pelas garotas Lisbon. Sei que o autor já tem pelo menos mais dois livros publicados, que pretendo ler o quanto antes.

Quais autores vocês gostariam de conhecer melhor? Ah, e se conhecerem algum livro desses autores que eu citei, por favor, me digam o que acharam. A gente vai adorar saber. :)

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24.9.14

A festa da insignificância, de Milan Kundera.
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 134
ISBN: 9788535924664
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.
A festa da insignificância foi aclamado pela crítica e despertou enorme interesse dos leitores na França e na Itália, onde logo figurava em todas as listas de best-sellers. Lembrando A grande beleza, filme de Paolo Sorrentino acolhido com entusiasmo pelo público brasileiro no mesmo ano, o novo romance de Milan Kundera coloca em cena quatro amigos parisienses que vivem numa deriva inócua, característica de uma existência contemporânea esvaziada de sentido. Eles passeiam pelos jardins de Luxemburgo, se encontram numa festa sinistra, constatam que as novas gerações já se esqueceram de quem era Stálin, perguntam-se o que está por trás de uma sociedade que, ao invés dos seios ou das pernas, coloca o umbigo no centro do erotismo. Na forma de uma fuga com variações sobre um mesmo tema, Kundera transita com naturalidade entre a Paris de hoje em dia e a União Soviética de ontem, propondo um paralelo entre essas duas épocas. Assim o romance tematiza o pior da civilização e lança luz sobre os problemas mais sérios com muito bom humor e ironia, abraçando a insignificância da existência humana. Mas será insignificante, a insignificância?

Sobre o que se trata

Com um misto de melancolia e filosofia crítica, Milan Kundera volta ao cenário literário depois de 14 anos sem publicações, abordando a erotização de umbigos, suicídio transformado em assassinato, Stálin e seus subordinados, um paquistanês inventado e um falso câncer. Todos esses temas, que parecem desconexos e insignificantes quando agrupados numa mesma frase, vão justamente relatar a insignificância da vida humana.

Ambientado em Paris, o livro narra acontecimentos cotidianos da vida de quatro amigos - Alain, Charles, Calibã e Ramon. Alain se questiona sobre a nova moda que é deixar os umbigos à mostra. Inicia o livro constatando o quão curioso é esse apego momentâneo aos umbigos e à sensualização deles (no lugar de coxas, por exemplo), e termina sem entender o porquê deles terem se tornado um objeto de desejo. Alain também possui um trauma de infância: sua mãe o abandonou há muito tempo, fazendo com que ele crescesse sem nada saber sobre ela. Assim, vive imaginando como ela é e o que diria a ele em determinadas situações. 

Ramon fica comovido ao saber que um conhecido, D'Ardelo, está com câncer, mesmo sem ter muita empatia por ele. Chega a refletir, a partir da personalidade do doente, sobre pessoas insignificantes e narcisistas. Charles é o personagem que está lendo "Memórias", de Nikita  Khruschóv, e, assim, insere no enredo críticas sutis ao stalinismo (o autor tcheco já foi perseguido pelo regime comunista). 
Um Narciso não é um orgulhoso. O orgulhoso despreza os outros. Os subestima. O Narciso o superestima, porque observa nos olhos de cada um sua própria imagem e quer embelezá-la. Cuida, assim, gentilmente de todos os seus espelhos.
Calibã é um ator frustrado que trabalha como garçom e, para aliviar o tédio e tentar se transformar numa pessoa interessante, finge para seus clientes que é um paquistanês e que não fala francês.

E é na festa de aniversário de D'Ardelo que algumas personagens se encontram em cenas que transbordam tédio e volubilidade. Dessa forma, em poucas páginas Kundera sintetiza um enredo que verbaliza a insignificância da maioria de nossos dramas pessoais, caricaturando-os até o exagero refletir a falta de sentido de suas existências.

Minhas impressões

Este foi o primeiro contato que tive com as obras do autor, então não posso comparar este livro com outros já publicados por ele - inclusive o seu maior sucesso, "A insustentável leveza do ser". Mas esta história tão efêmera foi capaz de me conquistar a ponto de me deixar totalmente inclinada a ler mais do autor. Isso porque, camuflada por uma leitura acessível, rápida e aparentemente superficial, a história diz muito mais do que está registrado no papel. Engana-se quem lê este livro e pensa que ele não possui profundidade alguma. A crítica e a filosofia são tão sutis, que chegam a divergir de leitor para leitor. Uma das características mais bacanas é que os leitores do livro podem sentar para conversar sobre ele e se surpreenderem com o que o outro conseguiu extrair da experiência. Enfim, é uma leitura muito íntima.





A crítica presente é muito ampla, pois até mesmo os personagens se apresentam como universais. Apesar de todos serem masculinos, e da mulher apenas aparecer na trama em situações delicadas e negativas, percebemos que os nomes e as características físicas são acessórios à parte e muitas vezes deixados de lado. Até o psicológico é retratado sem diluição. E por que não dizer que o próprio ambiente é difuso aqui? A história poderia igualmente se passar em outro lugar que não Paris. Então, não se surpreenda caso misture personagens, pensamentos e cenas. 

A escrita é leve, acessível e elegante. A maior dificuldade do livro é mesmo com a mensagem que ele é capaz de transmitir, não em sua leitura. Os temas são complexos e repletos de epifanias.
Agora, a insignificância me parece sob um ponto de vista totalmente diferente de então, sob uma luz mais forte, mais reveladora. A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes coragem para reconhecê-la em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. (pág.132)
Algumas cenas são muito líricas e marcantes, como a do suicídio que se transforma em assassinato. E o modo como é inserido na trama faz com que o episódio ganhe grandes dimensões, psicologicamente falando, e de um jeito inesperado. Aí, dá para entender que os dramas de cada personagem são arraigados à essência e que, apesar de se mostrarem superficiais aos olhos do leitor, são importantes para o ser que as possui. E isso acontece com todos. Nossos dramas se misturam ao nosso egocentrismo (simbolizado aqui pelos umbigos), e somente quem observa de longe (o leitor) é que consegue criticar com veemência. Dominados por seus próprios dramas individualistas, os outros personagens não percebem a festa de insignificância na qual estão inseridos.
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19.9.14


Em agosto resolvi tomar uma decisão para a minha vida como leitora: não vou mais prosseguir com a leitura de um livro que não está me agradando. Pode ser apenas um "até logo", mas pode ser também um abandono definitivo.

O pontapé inicial para a decisão surgiu em decorrência da sensação enfadonha causada pela e durante a leitura de "Por isso a gente acabou", de Daniel Handler, que eu vinha arrastando desde julho. À princípio, achei que o problema fosse a ressaca literária (sobre a qual já falei aqui), mas logo ficou claro que era algo além disso. O livro não estava me prendendo, a narrativa me incomodava e a protagonista/narradora não me agradou; muito pelo contrário, me irritou. Coloquei o livro em um canto e iniciei outra leitura, mas vez ou outra me vinha um sentimento de culpa e lá estava eu novamente lidando/lutando com os dilemas de Min e Ed.

Foi durante uma viagem de transporte público - experiência bem chata, convenhamos - que me dei conta do quanto eu estava perdendo tempo em insistir com aquela leitura. Vejam bem, em média disponho de uma hora por viagem de transporte público, tempo mais que suficiente para me dedicar a uma boa leitura, certo? Então, me digam, por que gastar esse tempo, ou o tempo que tenho para ler antes de dormir, com algo enfadonho? Que bem isso me traria? Pois é, nenhum.

Não sei vocês, mas eu gosto de ler para me divertir, para viajar e conhecer novos lugares e também para aprender. Sempre que começo a leitura de um novo livro, procuro obter sensações agradáveis. Assim, me dei conta de que estava me forçando a concluir uma leitura desagradável pura e simplesmente para dizer que concluí, mesmo que o livro não me trouxesse nada de positivo. Em resumo: estava fazendo uma leitura obrigatória imposta por mim! Vejam só que coisa mais absurda! Lembro de como eu detestava ter que tirar o tempo do Harry Potter para ler "Iracema". Não conseguia compreender por que raios eu precisava ler a história da virgem dos lábios de mel e que guardava o segredo da Jurema (é isso mesmo?) só porque tinha que fazer uma prova. Não fazia sentido naquela época e não faz sentido hoje. 

Está certo que nunca mais quero ler nada do José de Alencar (mentira, quero sim, mas ainda não tive a coragem), mas a leitura imposta no colégio tinha um objetivo: o vestibular. No meu caso com "Por isso a gente acabou" não havia nenhum objetivo a não ser me chatear. Assim, respirei fundo, fechei o livro e o coloquei de volta na estante. Não sei ainda que destino ele terá, mas sinceramente, não me sinto mal por tê-lo abandonado. Claro, é chato saber que gastei dinheiro em um produto que não utilizarei, mas ainda prefiro a alternativa de doar para alguém que pode gostar da história a ter que sofrer com uma leitura chatíssima. 

O fato é que a vida é curta e - infelizmente! - não terei tempo de ler tudo o que quero ler, então, por que perder tempo com algo que não me acrescentará nada, nem ao menos uma experiência divertida? Não faz sentido! De leitura obrigatória já basta as que fiz na escola e as que poderei fazer se, eventualmente, voltar a estudar. Por livre e espontânea vontade, lerei apenas o que estiver me envolvendo e agradando. Afinal, ler é para ser algo bom, certo?

Escrevi este texto com a esperança de encontrar pessoas que, como eu, não se sentem mal em abandonar as leituras enfadonhas e de ajudar, quem sabe, alguém que esteja passando por situação parecida com a minha. Não se sinta mal por não amar uma leitura ou não sentir vontade de continuá-la. Pode ser que o livro não esteja te agradando por conta do momento que você está vivendo; neste caso, dê um tempo e vá ler outra coisa. Na hora certa, vocês se encontrarão novamente. Mas se o livro não estiver interessante e você tiver a certeza de que não vai lhe acrescentar nada, pode abandoná-lo sem peso na consciência. Quem sabe você pode até trocá-lo no Skoob ou em um sebo por algum livro que realmente te interesse, não é? Assim você se livra de uma leitura desagradável e ainda fica com o tempo para ler algo mais atraente.

Digam aí nos comentários o que vocês pensam sobre o assunto. Vocês abandonam leituras chatas? Ou persistem até o final? Vou adorar saber!
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17.9.14


Vocês já sabem que eu adoro a história de Lewis Carroll, "Alice no país das maravilhas". E como o livro é famoso e culturalmente difundido pelo mundo inteiro, natural que existam diversas edições. Já vi uma mais linda do que a outra (apesar de serem todas lindas e de me dar vontade de colecioná-las), mas, possivelmente, nada supera a que contém as ilustrações do renomado pintor Salvador Dalí

O livro foi publicado em 1865 com ilustrações de John Tenniel, que até hoje vêm em algumas edições, como a da Zahar que eu mostro aqui. O que me chamou a atenção não foram as ilustrações tradicionais, mas sim as de Dalí: têm de tudo, menos o comum. A edição com tais ilustrações foi publicada pela New York’s Maecenas Press-Random House, em 1969, e se tornou um artigo valioso - e caríssimo. Para quem já conhece o trabalho do pintor já pode anteceder quão maravilhosa é essa mistura de literatura nonsense com o trabalho de um artista surrealista

Na fonte desta matéria, há uma explicação - um tanto quanto confusa, por isso não me atrevi a resumi-la aqui - sobre a técnica de Dalí:
Para aqueles que não conhecem a técnica usada por Dalí, a heliogravura consiste em um processo fotomecânico destinado a obter uma gravura a partir da exposição à luz e transferência química para uma placa de estanho (ou cobre) derivado de um petróleo fotossensível. Dalí usou uma camada de gelatina sensibilizada com bicromato de potássio e negativos, colocado em contato com a placa de metal recoberta pela gelatina que após ser exposta a luz tem as partes assim expostas endurecidas e insolúveis na água. As regiões onde a luz não reage com a gelatina (devido as zonas escuras do negativo) serão lavadas e derretidas. Assim, um ácido utilizado em parte do processo ataca apenas as partes expostas do metal, criando sulcos ou gravações que serão preenchidas com tinta.
 Início
 "Down to the Rabbit Hole"
"Pela Toca do Coelho"
 "The Pool of Tears"
"A Piscina de Lágrimas"
 "A Caucus Race and a Long Tale"
"Uma Corrida de Conversão Política e um Longo Conto"
 "A Rabbit Sends in a Little Bill"
"Um Remetente do Coelho em um Pequeno Projeto"
 "Advice From a Caterpillar"
"Conselho de uma Lagarta"
 "Pig and Pepper"
"Porco e Pimenta"
"Mad Tea Party"
"Festa do Chá Maluco"
Eu sou fascinada pela temática do tempo, e essa imagem é genial, pois une o marcante relógio de Dalí com uma das cenas que eu mais gosto do livro, e que trata justamente sobre o tempo.

 "The Queen’s Croquet Ground"
"O Chão Croquetado da Rainha"
 "The Mock Turtle’s Story"
"A História de Bombaria da Tartaruga"
 "The Lobster’s Quadrille"
"A Quadrilha da Lagosta"
 "Who Stole the Tarts?"
"Quem roubou as Tortas?"
 "Alice’s Evidence"
"A Evidência de Alice"

Há também um vídeo mostrando o livro que foi ofertado pela Amazon recentemente pelo módico valor de 12.900,00 USD:
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14.9.14

Finn's Hotel, escrito por James Joyce.
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 160
ISBN: 9788535924558
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.
No início dos anos 1990, o surgimento de um manuscrito causou alvoroço entre os estudiosos de James Joyce. Encontrado em meio a seus papéis e anotações, Finn’s Hotel foi anunciado como embrião daquele que seria o mais enigmático dos livros do irlandês, o gargantuesco e caudaloso Finnegans Wake. Todavia, uma longa briga judicial privou os leitores do acesso ao texto. Apenas agora, mais de duas décadas depois de sua aparição, é que Finn’s Hotel chega às mãos dos fãs de Joyce. É composto de onze pequenos contos, que poderiam ser chamados de fábulas, sobre a história da Irlanda. Divertidos e comoventes, os textos chegam ao português pelas mãos de Caetano W. Galindo, cuja tradução do livro Ulysses recebeu os prêmios Jabuti, APCA e ABL. Joyceano de mão cheia, Galindo recriou aqui as dezenas de trocadilhos e jogos de linguagem do original. 

Sobre o que se trata

Não se sabe ao certo qual era a intenção de James Joyce ao escrever "Finn's Hotel", mas muito se especula sobre a sua importância para "Finnegans Wake", o livro mais enigmático do autor. Provavelmente ele é fruto de um dos estágios de escrita de Joyce, que, antes de finalizar um livro, escrevia e reescrevia, eliminando um grande volume de material concluído para então criar ainda mais por cima daquilo já feito. Assim são os livros dele: bem lapidados por natureza. Os manuscritos foram descobertos no início dos anos 1990 e, depois de uma longa briga judicial - de duas décadas - é que os leitores de Joyce o puderam ler. De novo, a publicação do autor se mostrava complicada.

Este pequeno livro é composto por 11 contos, que podem muito bem ser vistos como fábulas. Alguns têm apenas uma página, e todos se ligam intrinsecamente à formação da Irlanda e ao imaginário popular do país.

Escrito entre "Ulysses" e "Finnegans Wake", seu conteúdo já traz muito de "Finnegans", como o personagem Humphrey Chimpden Earwicker e traços iniciais da carta de Anna Livia Plurabelle. Ainda, fica intensamente explícito o que é marcante na escrita do autor: muitos neologismos, processos de composição de palavras (com justaposições e aglutinações) e em "O grande beijo" percebe-se que o mito de "Tristão e Isolda" foi reescrito e adquiriu uma nova significação, isso diante de uma linguagem exagerada e cômica.

Minhas impressões

Como primeiro livro do Joyce que li, confesso que tive certa dificuldade para entender o conteúdo das fábulas, sobretudo pelo estranhamento que a escrita do autor me causou. Creio que mesmo acostumado com os textos de Joyce, o leitor continuará tendo alguma complicação ao tentar entender suas peculiaridades, o que de certa forma é a explicação para tantos abandonos em relação à "Finnegans".

Mesmo que eu ainda não tenha lido "Ulysses" nem "Finnegans Wake", indico para quem quer começar a ler o autor "Dublinenses", que é um livro com 15 contos. "Finn's Hotel" é um mimo para os fãs de Joyce, e creio que deve ser lido entre a leitura de "Ulysses" e a de "Finnegans". Ou seja, não indico o livro para quem nunca leu algo do autor, como eu. "Dublinenses" (que deve ser a próxima resenha aqui do blog - e que já foi resenhado junto de "Finn's" lá no canal do blog no Youtube) sempre será a porta de entrada mais tranquila para o mundo extravagante de Joyce.

A edição (publicada pela Companhia das Letras) possui vários textos introdutórios e um anexo de "Giacomo Joyce", uma nova tradução do poema pelo mesmo tradutor de "Finn's Hotel". Fico imaginando que, se eu achei difícil a leitura, os tradutores devem ser louvados pelo trabalho que é traduzir os textos do autor. Não preciso sequer questionar um pouco essa ideia para concluir que sim, esse é um trabalho árduo e controverso. Porém, Caetano W. Galindo demonstra ser um grande estudioso de Joyce, e alguém capacitado para o trabalho. Comentando ainda sobre a edição, a dedicação que a editora deu ao livro é muito bacana, confira:








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12.9.14

Iluminadas, escrito por Lauren Beukes 


Editora: Intrínseca
Páginas: 318
ISBN: 9788580575033

Chicago, 1931. Harper Curtis, um andarilho violento, invade uma casa abandonada que esconde um segredo tão chocante quanto improvável: quem entra ali é transportado no tempo. Instigado por um comando que parece vir da própria casa, Harper persegue as “meninas iluminadas” – garotas cuidadosamente escolhidas em diferentes décadas – com o objetivo de matá-las. Voltando no tempo após cada assassinato, seus crimes são perfeitos e impossíveis de serem rastreados. Ou pelo menos é o que ele pensa.
Chicago, 1992. Kirby Mazrachi viu sua vida ser destroçada após um ataque brutal que por pouco não a levou à morte. Incapaz de esquecer tal acontecimento, Kirby investe seus esforços em encontrar o homem que tentou assassiná-la. Seu único aliado é Dan, um ex-repórter policial que cobriu seu caso e agora aparentemente está apaixonado por ela. À medida que a investigação de Kirby avança, ela descobre outros casos semelhantes ao seu – e garotas que não tiveram a mesma sorte que ela – ligados por evidências que parecem impossíveis. Mas, para alguém que deveria estar morto, impossível não significa que não tenha acontecido.

SOBRE O QUE SE TRATA

 "Iluminadas", de Lauren Beukes, mistura elementos de histórias policiais, de fantasia e de ficção-científica para apresentar ao leitor a história de Harper Curtis, um andarilho violento que vive na Chicago dos anos 1930, marcada pela crise econômica, Lei Seca, gângsters e cortiços. Certa noite, enquanto fugia da polícia, entrou em uma casa abandonada, que revelou uma peculiar propriedade: a de transportar quem ali entra pelo tempo.
 
Apesar da aparência exterior de abandono, o interior da casa é mobiliado e bastante aconchegante. Harper decide morar ali e passa chamar a nova residência de Casa. Estimulado por algum comando que parecia partir da Casa, Harper se transforma em um serial killer e passa a perseguir as chamadas "meninas iluminadas", garotas escolhidas meticulosamente e espalhadas por diferentes décadas. Com a possibilidade de viajar no tempo, Harper comete crimes impossíveis de serem solucionados ou conectados, saindo impune da cada uma das situações. Comete o crime perfeito em todas as vezes. Ou quase todas.

Kirby Mazrachi, uma jovem estudante de jornalismo, vive na Chicago dos anos 1990 e poderia ser considerada uma garota comum, não fosse pelo fato de que era uma das "meninas ilumidadas" de Harper e sobrevivera ao seu ataque. Após quase perder a vida de forma grotesca e marcada por muitas cicatrizes físicas e emocionais, Kirby desiste de esperar que a polícia encontre o homem que a atacou. Ao conseguir um estágio no Chicago Sun-Times como estagiária do ex-repórter policial Dan Velasquez, Kirby passa a procurar por crimes semelhantes àquele do qual foi vítima no arquivo do jornal e, aos poucos, começa a se convencer de que sobreviveu ao ataque de um serial killer. Mas quanto mais ela investiga, mais se convence de que diante de algo impossível.

MINHAS IMPRESSÕES 

 No momento em que li a sinopse, já sabia que tinha que ler "Iluminadas". Livro policial com viagem no tempo? I'm sold! A proposta de misturar elementos de diferentes gêneros resultou em um thriller bastante envolvente e difícil de abandonar, pois tudo é muito intrigante.

A narrativa, feita em terceira pessoa, é dividida entre os pontos de vista de Harper, de suas vítimas - com maior destaque para Kirby -, do jornalista Dan Velasquez e de um viciado em drogas. Cada um desses personagens dá título a um ou mais capítulos, que aparecem acompanhados pela data em que os fatos ocorrem.  Apesar da narrativa de Harper ser linear, os crimes que ele comete não são. Ou seja, o leitor começa a história nos anos 1930, vai até os 1980, volta para os 1950, e por aí vai. As narrativas de Kirby e Dan também são lineares, mas por vezes apresentam flashbacks, mostrando o passado deles, e flashforwards, mostrado o futuro. Os capítulos são intercalados entre as perspectivas dos personagens, permitindo ao leitor acompanhar de forma paralela os crimes de Harper e as investigações de Kirby. Pode parecer um pouco confuso à princípio, mas conforme a leitura vai avançando, o leitor se acostuma e entra no ritmo da história. 

No que diz respeito ao desenvolvimento do enredo, Lauren Beukes peca em alguns aspectos. Um deles é a falta de profundidade das vítimas de Harper. Com exceção de Kirby, todas são apresentadas brevemente, o leitor tem conhecimento superficial de quem são, o que fazem e, pronto!, elas morrem. Não dá tempo de conhecê-las, entender suas motivações e de sofrer com suas mortes. Por mais grotescos que sejam os procedimentos de Harper, não consegui sentir nada em relação às suas vítimas; com a exceção de Kirby, como já foi mencionado.

Há também o romance entre Kirby e Dan. Enquanto o leitor tem a visão de Dan do que está acontecendo, nada é apresentado em relação à Kirby, de forma que fica tudo meio abrupto quando começa a acontecer, o que torna a situação meio difícil de acreditar. Fiquei na dúvida se era necessário inserir um romance na história, porque, no fundo, não acrescentou nada ao desenvolvimento do enredo.

A investigação começa bem, mas em alguns momentos mais para o final, não é muito explorada. De modo que o leitor sabe que Kirby fez descobertas, mas não entende muito bem a linha de raciocínio dela. Não chega a ser algo completamente negativo, mas pode incomodar quem for mais detalhista. Aliás, é válido mencionar que este não é um livro que traz explicações para tudo. As investigações são concluídas, descobrimos o porquê de muitos acontecimentos, mas é importante ter em mente que algumas questões, como a viagem no tempo, não serão explicadas. Mais uma vez: não é algo que atrapalhe a leitura, mas pode incomodar algumas pessoas. 

De uma forma geral, gostei da leitura pois a achei bastante instigante. É  um livro policial bastante inusitado e diferente de tudo o que já li. O fato de ter o ponto de vista do assassino também foi bem interessante, pois não me lembro de ter lido algum livro policial que me apresentasse esse tipo de perspectiva. Também não me incomodei com o fato de não encontrar explicações para tudo, porque o que prevaleceu foi uma atmosfera de mistério que me permite criar teorias.  Ainda que de forma sutil, o livro traz aspectos de romance histórico; por meio das narrativas das vítimas, podemos ter um panorama geral na época em que viviam. Gosto quando livros me permitem visitar o passado e conhecer locais e períodos diferentes. Leitura recomendada para quem gosta de thrillers e se interessa por histórias de viagem no tempo e/ou de serial killers.




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10.9.14

            Descobrir curiosidades sobre autores que tanto admiro e respeito é quase uma epifania. Às vezes, de tão famosos, alguns livros parecem ter sido escritos por alguma divindade, de tão inacessíveis que são os seus autores, ou de tão antigos e difundidos pelo imaginário popular. Portanto, adorei a matéria do site Short List que traz alguns trechos de um livro intitulado "Rituals: How Great Minds Make Time, Find Inspiration, And Get To Work" (em tradução livre: "Rituais: Como Grandes Mentes Encontram Tempo, Acham Inspiração e Vão ao Trabalho"). Sempre bom se inspirar no trabalho de grandes escritores!

Jane Austen

  Austen acordava cedo, antes que as outras mulheres estivessem de pé, e tocava piano. Às 9h ela organizava o café-da-manhã da família, sua maior tarefa de casa. Então ela se acomodava para escrever na sala de estar, muitas vezes ao lado de sua mãe e irmã, que costuravam silenciosamente. Se visitas aparecessem, ela escondia os papéis e também passava a costurar. O jantar, a principal refeição do dia, era servido entre as 15h e 16h. Passavam a noite lendo livros em voz alta, e nesse período Austen lia os seus trabalhos em progresso para a família.

Victor Hugo

  Hugo escrevia todas as manhãs sentado numa pequena escrivaninha em frente a um espelho. Ele se levantava ao alvorecer, acordado pelo tiro diário de um forte próximo, e recebia um pote de café recém passado e sua carta matinal de Juliette Drouet, amante que ele instalou em Guernsey, apenas nove casas ao lado da sua. Após ler as palavras apaixonadas de "Juju" para seu "amado Cristo", Hugo comia duas gemas de ovo, se trancava no seu posto de observação e escrevia até às 11h da manhã.

Mark Twain


  Sua rotina era simples: ele ia para o escritório de sua casa durante a manhã, após um farto café-da-manhã, e lá ficava até o jantar (aproximadamente às 17h). Por pular o almoço, e uma vez que sua família não arriscava se aproximar do escritório - eles tocavam uma buzina se precisassem dele - ele geralmente podia trabalhar de forma ininterrupta por muitas horas. 
"Em dias quentes, eu abro todas as janelas do escritório, ancoro meus papéis com pedaços de tijolos e escrevo no meio de um furacão"

Stephen King

  King escreve todos os dias do ano, incluindo seu aniversário e feriados, e ele quase nunca se permite parar antes de atingir sua cota diária de duas mil palavras. Ele trabalha durante as manhãs, começando por volta das 8h ou 8h30. Em alguns dias ele termina tão cedo quanto 11h30, mas geralmente ele leva até 13h30 para alcançar sua meta. Então ele tem as tardes e noites livres para cochilos, cartas, leitura, família e jogos do Red Sox (time de baseball) na TV.

Franz Kafka

  Em 1908, Kafka conseguiu um cargo no Instituto de Seguros de Trabalhadores Acidentados em Praga, onde ele era sortudo o suficiente para trabalhar por apenas um turno. Ele vivia com sua família num apartamento apertado, onde conseguia se concentrar para escrever apenas tarde da noite, enquanto todos os outros dormiam. 
Como Kafka escreveu para Felice Bauer em 1912, "o tempo é curto, minha força limitada, o escritório é um horror, o apartamento é barulhento, e se uma vida prazerosa e simples não é possível, então é preciso se esgueirar por ela através de manobras sutis". Na mesma carta ele descreve seus horários "... às 22h30 (mas por muitas vezes a partir das 23h30) eu me sento para escrever, e eu continuo, dependendo da minha força, vontade e sorte, até à 1h, 2h, 3h, uma vez até às 6h da manhã".

Tolstói

  "Eu tenho que escrever todos os dias, sem exceções, nem tanto para o sucesso do trabalho, mas sim para não sair da rotina." 
                Esse é Tolstoy em um dos poucos registros que ele fez durante a metade dos anos 1860 no seu diário, quando ele estava trabalhando a fundo na criação de Guerra e Paz. De acordo com Sergei (seu filho), Tolstoy trabalhava isolado - ninguém era permitido entrar em seu escritório, e as portas dos cômodos ao lado eram trancadas para ter certeza de que ninguém o interromperia.

Charles Dickens

  Primeiramente, ele precisava de silêncio absoluto; em uma de suas casas, uma porta extra foi instalada em seu escritório para bloquear barulhos. Além disso, tal cômodo tinha que estar precisamente arrumado, com sua escrivaninha na frente de uma janela, e em cima dela seus materiais de escrita - canetas-tinteiro de pena de ganso e tinta azul - ao lado de diversos enfeites: um pequeno vaso de flores frescas, uma abridor de cartas grande, uma folha de ouro com um coelho desenhado e duas estatuetas de bronze (uma representando um par de sapos gordos duelando, a outra com um senhor sendo envolvido por um bando de cachorrinhos).

George Orwell

  O posto no Canto dos Amantes de Livros (Booklover's Corner, um sebo londrino onde ele trabalhava como assistente durante meio-período) provou ser o encaixe perfeito para o solteiro de 31 anos. Acordando às 7h, Orwell abria a loja às 8h45 e ficava lá por uma hora. Então ele tinha tempo livre até às 14h, quando ele retornava ao sebo e trabalhava até às 18h30. Isso dava a ele quase quatro horas e meia de tempo para escrever durante a manhã e o começo da tarde, o que, convenientemente, eram as horas nas quais ele estava o mais mentalmente alerta.

Haruki Murakami

  Quando está escrevendo um livro, Murakami acorda às 4h da manhã e trabalha durante cinco ou seis horas sem descanso. Durante as tardes ele corre ou nada (ou ambos), faz tarefas, lê e escuta música; a hora de dormir é às 21h. "Eu mantenho essa rotina todo dia, sem variações", ele disse ao The Paris Review em 2004. 
"A repetição em si se transforma na coisa mais importante; é uma forma de entrar em transe. Em me hipnotizo para alcançar um nível mais profundo da minha mente.
                O único problema dessa agenda, Murakami admitiu num ensaio em 2008, é que ela não permite uma vida social.

Simone de Beauvoir

  Apesar de o trabalho de Beauvoir ser sua prioridade, sua agenda diária também girava em torno de seu relacionamento com Jean-Paul Sartre, que durou de 1929 até a morte dele em 1980. Era uma parceria intelectual com um componente sexual de certa forma esquisito; de acordo com um pacto proposto por Sartre no começo do relacionamento, ambos podiam ter amantes, mas eles eram obrigados a contar tudo um ao outro.
  Geralmente, Simone trabalhava sozinha durante a manhã e depois encontrava Sartre para o almoço. Durante a tarde eles trabalhavam juntos e em silêncio no apartamento de Jean-Paul. No período noturno, eles iam para o evento político ou social que estivesse na agenda de Sartre, ou então iam para o cinema ou bebiam scotch e escutavam rádio no apartamento de Beauvoir.

Tradução por Felippe Lacerda.
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7.9.14

Lua de Larvas, escrito por Sally Gardner.

Editora: wmfmartinsfontes
Páginas: 291
ISBN: 9788578277987
Standish Treadwell é um jovem disléxico que vê o mundo de maneira diferente da maioria. Graças a essa visão, ele percebe que o mundo lá de fora não tem que ser necessariamente cinzento e opressor. Quando seu melhor amigo, Hector, é de repente levado embora, Standish percebe que cabe a ele, a seu avô e a um pequeno grupo de rebeldes enfrentar e derrotar a opressão permanente das forças da Terra Mãe. Com o pano de fundo de um regime implacável, disposto a tudo para vencer seus rivais na corrida para chegar à Lua. Este impressionante Lua de larvas é o novo livro da premiada autora Sally Gardner.

Sobre o que se trata

Standish Treadwell é um garoto de 15 anos que sofre por ser diferente dos demais. Ele é disléxico e possui olhos de cores diferentes; um azul e outro castanho. O porém se encontra na sociedade em que vive e no modo como ela trata os indivíduos peculiares. O mundo de "Lua de larvas" é pós-apocalíptico e distópico, apresentando uma repressão violenta que controla o cotidiano e os pensamentos da população. Nessa realidade submetida ao governo Terra Mãe, a fome e a miséria são constantes no dia a dia, sendo atenuadas para aqueles que delatam seus vizinhos e conhecidos; há um incentivo explícito a esse tipo de conduta, o que torna tudo ainda mais caótico e desesperançoso. Ainda, tal característica da sociedade se reflete na escola, onde garotos denunciam seus colegas, inclusive praticando o bullying sobre quem se mostra diferente dos demais. E é claro que Standish é vítima disso, principalmente porque a dislexia o torna atrasado em relação à sua classe.

Mas tudo muda quando Hector vai morar na casa ao lado e passa a frequentar a mesma sala de aula de Standish. Numa relação de sobrevivência entre ambas as famílias desses meninos, os dois criam intensos laços fraternais, e de ajuda recíproca. Só que, não bastasse o sumiço dos pais de Standish, Hector e seus pais somem de um dia para o outro, sem nenhuma explicação, como usual. A partir de então, o garoto precisará ultrapassar a barreira de sua própria ingenuidade para descobrir o que acontece neste mundo distópico, a fim de solucionar seus próprios questionamentos que tanto lhe afligem. 

Minhas impressões

"Lua de larvas" é um livro muito bem lapidado. Possui um começo, um desenvolvimento e um fim totalmente harmoniosos. Analisando escrita, enredo e diagramação, vejo que ele é muito bem construído. O livro é perfeito para a sua temática, que envolve governo totalitário, e possui a fantástica capacidade de prender o leitor da primeira até a última página.

Tive a incrível experiência de participar do bate-papo que ocorreu na Bienal do Livro de São Paulo com a autora, Sally Gardner, e a partir de então me apaixonei pela história dela. Também disléxica, ela disse que não foi fácil escrever o livro, e que o dedica a todos os alunos que não brilharam na escola.  Sendo reflexo da dislexia ou não, o fato é que a escrita é concisa e objetiva. Com frases curtas, o impacto é transmitido ao leitor de forma ainda mais intensa, o que colabora para a mensagem do livro. E de forma alguma essa característica pode ser vista como uma facilidade para o leitor, pois é justamente esse choque que torna a experiência de leitura ainda mais tensa.

A narrativa é em primeira pessoa e isso possibilita ao narrador, o próprio Standish, expor seus sentimentos e realizar flashbacks. A exposição é concreta e, novamente, chocante. Não tem como não se apegar ao personagem depois de tudo o que ficamos sabendo sobre o seu cotidiano e sobre toda a miséria que o envolve. Os flashbacks aparecem para explicar o sumiço de Hector e para nos dar uma ideia sobre tudo o que se passa nessa sociedade opressora. Isso porque quem nos narra é um ser totalmente ingênuo, então o leitor só possui informações oriundas de Standish. O que se passa realmente nós precisamos imaginar e tentar descobrir junto do garoto. Essa estratégia é brilhante para a construção do enredo; tornou tudo ainda mais verossímil. 

A diagramação é linda, toda caprichada. A letra é grande e as margens espaçadas, o que torna a leitura ainda mais fluida. Já a dedicação que a editora wmfmartinsfontes destinou às figuras que ilustram o miolo torna o livro ainda mais especial: em quase todas as páginas tem figuras que, com o virar delas, contam uma pequena história de um rato. Essa história possui a essência da mensagem do livro, o que achei genial, pois só fui entendê-la com o passar das páginas, e ainda me proporcionou momentos de reflexão depois de concluir o livro.
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5.9.14

A vida secreta das abelhas, escrito por Sue Monk Kidd

Editora: Paralela
Páginas: 232
ISBN: 9788565530576
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.

A adolescência de Lily Owens tem sido complicada. Ela não se lembra da morte da mãe, há mais de dez anos, e sua relação com o pai é mais que difícil. Em 1964, quando completa catorze anos, ela decide fugir junto com sua babá Rosaleen. Lily sai a caminho de Tiburon, a cidade que parece esconder alguma resposta sobre a vida de sua mãe. Chegando lá, ela e Rosaleen são acolhidas por três irmãs. Aos poucos, Lily descobre um mundo mágico de abelhas, mel e da Madona Negra. Com a ajuda das irmãs Boatwright - August, May e June -, Lily tenta desvendar sua história. Será que ela conseguirá enfrentar os demônios de seu passado e se tornar uma jovem independente?

SOBRE O QUE SE TRATA

 Ambientado em uma pequena cidade no sul dos Estados Unidos na década de 1960, A vida secreta das abelhas traz a história de Lily Owens, uma adolescente de catorze anos órfã de mãe, maltratada pelo pai e que encontra em Rosaleen, sua babá negra, a única pessoa que lhe demonstra algum tipo de afeto. 

Sem conseguir se lembrar do dia da morte de sua mãe e com a certeza de que sua vida foi profundamente marcada pela tragédia, Lily decide fugir para Tiburon, uma cidade vizinha que acredita que lhe trará as respostas para as dúvidas que tem a respeito de sua mãe. Rosaleen, após ser atacada por homens brancos e presa, foge junto com Lily e, juntas, elas irão conhecer as irmãs August, May e June Boatwright, as produtoras do mel da Madona Negra.

Na companhia e com a ajuda dessas três irmãs, Lily irá compreender melhor o contexto em que vive, assim como passará a questioná-lo. Com August irá aprender sobre o mundo das abelhas e do mel e será apresentada à Madona Negra. 

MINHAS IMPRESSÕES

Quando comecei a leitura de A vida secreta das abelhas, não sabia muito bem o que iria encontrar. Como evitei ler a sinopse, acabei por me surpreender com a história e a me apaixonar pelos personagens a cada virada de página. A primeira parte do livro, com a fuga de Lily e Rosaleen, me lembrou bastante As aventuras de Huckleberry Finn, clássico de Mark Twain e um dos meus favoritos.

 A narrativa é feita em primeira pessoa por Lily que, ao mesmo tempo em que age como uma adolescente normal, se mostra à frente de sua época e apresenta reflexões bastante maduras. Em um contexto em que as mulheres não tinham voz, Lily é bastante segura sobre o que quer para si: sair de perto de seu pai e ir para a faculdade. Mesmo que seu sonho pareça impossível, é quando ela conhece as irmãs Boatwright que ela começa a acreditar que tudo pode se tornar realidade.

Através dos olhos de Lily, o leitor é transportado para um período e para um local marcados pelo racismo e pelo machismo. É impossível não se revoltar com alguns acontecimentos. Com ela, somos levados também a refletir sobre a vida e a morte, sobre fé e sobre o ser humano.

"A centrífuga separa o mel. Tira a parte ruim e deixa a parte boa. Eu sempre achei que seria ótimo ter centrífugas assim para os seres humanos. Era só jogá-los aí dentro e pôr a máquina para funcionar". (P.62)

As irmãs Boatwright são fascinantes: August com suas palavras calmas e sábias, May com seu jeito meio infantil e June com seu orgulho e personalidade forte. Cada uma desperta no leitor algum tipo de sentimento, seja de paz, de impotência ou de raiva. A forma como elas descrevem a religião da Madona Negra me despertou tanto interesse, quanto estranhamento.

"As histórias devem ser contadas, senão morrem; e, quando morrem, não nos lembramos quem somos nem porque estamos aqui". (P.84)

Gostei de como a autora relaciona os acontecimentos nas vidas de Lily, Rosaleen e das Boatwright com a vida das abelhas e de como estas e o mel desempenham, de certa forma, um papel na história. Sue Monk Kidd apresenta uma história forte e marcada por muita dor, tristeza e injustiça; mas, ao contrário do que imaginei, ela o fez de forma leve. Lily, mesmo com todos os motivos para desistir de tudo, se mostra sempre muito otimista e pronta para enfrentar o que a vida colocar em seu caminho.

Não vou mentir: o livro foi bastante previsível, ainda que em determinado momento eu tenha me surpreendido. Mas mesmo com certa previsibilidade, gostei da leitura e achei a experiência válida. É uma história sobre a vida, o poder do amor, o poder feminino. Sobre aprender a perdoar, a aceitar e seguir em frente. Leitura recomendada!
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