1.8.14

Resenha: Tempos extremos

Tempos extremos, escrito por Míriam Leitão

Editora: Intrínseca
Páginas: 272
ISBN: 9788580575231


Quantos mistérios uma antiga fazenda perdida entre as serras das Minas Gerais pode guardar? Mistérios que chegam de forma inesperada, revelando passados diversos a uma família dividida por conflitos afetivos e políticos e ali sitiada por causa das chuvas. É o que Larissa, jovem deslocada entre os seus, descobrirá, em uma estranha jornada na qual perseguirá sombras e segredos para encontrar desejos autênticos e entender os próprios sonhos. No primeiro romance da consagrada jornalista Míriam Leitão, o leitor não encontra espaço para respirar. É uma história de paixões extremas, sobre tempos extremos, urdida com sutileza e convicção. Uma viagem às vezes em quase delírio pelos flagelos da escravidão, no século XIX, e os subterrâneos do regime militar, no século XX. A narrativa se passa no século XXI, mas as linhas temporais são rompidas. Assim, as paredes centenárias da fazenda, o cemitério onde eram lançados os negros que chegavam ao cais do porto do Rio de Janeiro à beira da morte, após a travessia do Atlântico, e as celas das prisões arbitrárias promovidas pela ditadura dialogam entre si quase como personagens, na busca por verdades escondidas. No entremeio, as relações tormentosas entre pais e filhos e entre irmãos tecem uma trama densa e ousada que revisita passados que o Brasil tem preferido deixar acobertados pelo silêncio. Como ficcionista, Míriam Leitão mantém a mesma postura que marcou sua trajetória de jornalista - não faz perguntas fáceis. Nem abre caminhos para zonas de conforto.


SOBRE O QUE SE TRATA?

Em Tempos extremos, primeiro romance da jornalista Míriam Leitão, somos apresentados a uma história no tempo presente, mas marcada pelo passado. Larissa, a protagonista, é uma mulher de quase 40 anos que ainda não sabe muito bem o que espera de sua vida; casada, ex-jornalista e formada em História, ela está em dúvida se deve ou não iniciar um doutorado. 

A avó de Larissa, Maria José, está prestes a completar 88 anos e pede como presente de aniversário uma reunião familiar com todos os seus filhos, netos e bisnetos. Cada um dos quatro filhos de Maria José seguiu um caminho diferente: Hélio, o mais velho, fez carreira como militar durante o período da ditadura; Sônia investiu em ações nos anos 1970 e 1980 e ficou milionária; Alice fez parte dos movimentos contra a ditadura, foi presa e interrogada; Marcos passou a juventude sonhando em ser músico, mas na fase adulta apenas se frustrou e jamais conseguiu se estabelecer financeiramente.

Em razão do aniversário de Maria José, os quatro deixam de lado suas divergências e vão para Soledade de Sinhá, uma antiga fazenda no interior de Minas Gerais, comprada por Sônia, na companhia de seus filhos e netos para uma temporada de férias familiares. As discussões logo começam: de um lado, Alice, que acusa Hélio de não ter feito nada por ela e Carlos - seu namorado e pai de Larissa - durante o período da ditadura e que, ainda hoje vive a dor de não saber como Carlos morreu e o que foi feito de seu corpo; de outro, Hélio, que afirma que não fazia parte do departamento que interrogava os presos políticos e que tudo o que fez durante a ditadura foi pelo bem do Brasil, por acreditar que estava fazendo a coisa certa.

O luto por Carlos marcou a vida de Larissa desde antes de seu nascimento, fazendo que com que um abismo fosse aberto entre ela e Alice. Mãe e filha são muito diferentes; Larissa, por nunca ter conhecido o pai, cresceu sentindo falta de uma figura paterna e a sua personalidade indecisa incomoda Alice, que não entende a filha e acha que esta se recusa a crescer. Mesmo com a briga entre a mãe e o tio, Larissa conseguiu manter um bom relacionamento com os primos André e Mônica, filhos de Hélio, e não entende os motivos que impedem a mãe de se permitir ser feliz mesmo com um passado marcado por tanta tristeza. Larissa não entende porque sua mãe continua travando a mesma luta de vinte anos atrás com o tio e com o Brasil.

Na tentativa de fugir de sua realidade, de seu presente e de suas dúvidas, Larissa mergulha na história da fazenda Soledade de Sinhá. Por estar situada em um vale longe da rodovia e fora da rota de turismo, a fazenda não foi afetada pelos avanços da modernização - não tem energia elétrica ou telefonia celular - e, por isso, ficou isolada no tempo. Soledade de Sinhá é muito antiga e durante os seus tempos áureos foi marcada por diversos ciclos econômicos, dentre eles o da mineração, de plantações e também de gado. No século XIX, foi marcada pela escravidão e, até os dias atuais, entre suas paredes é possível encontrar as cicatrizes deste período.

Certa noite e de forma bastante inesperada, Larissa rompe as barreiras do tempo e volta dois séculos, passando a interagir com três escravos de Soledade de Sinhá: Constantino e seus dois filhos, Bento e Paulina. Por meio dos relatos de Constantino, Larissa começa a compreender e a questionar a realidade por ele vivida, ao mesmo tempo em que encontra em Bento e Paulina duas almas livres, porém enclausuradas e dispostas a lutar, ainda que de formas distintas, por sua liberdade.



MINHAS IMPRESSÕES

Pouco sabia sobre Tempos extremos além do fato de ser o primeiro romance de Míriam Leitão e de ser ambientado em uma fazenda em Minas Gerais. Porém, aos poucos, fui me deixando levar pela história e percebi que o livro não só me apresentou a uma narrativa interessante e bastante envolvente, como também me fez pensar em alguns aspectos da História do nosso país. Por meio de Larissa, uma observadora "neutra", o leitor entra em contato com dois contextos de muita repressão no Brasil, ou como Míriam Leitão os chama, tempos extremos: a escravidão e a ditadura militar.

Ao concluir a leitura, não pude deixar de pensar no quanto da nossa História ficou escondida ou não foi divulgada, não recebeu a devida atenção. No caso da ditadura, um passado mais recente, sabemos que muitos documentos foram destruídos; ainda hoje, muitas pessoas não sabem do paradeiro de seus parentes desaparecidos políticos. Foi inevitável não pensar em quanto tempo será que essas famílias ainda terão que esperar - convictas de que seus parentes morreram nos porões da ditadura, mas sem saber como provar o fato ou realizar um funeral adequado, vivendo em situação interminável de luto - para que algo seja dito, seja feito.


A escravidão de negros também é outro aspecto que fica oculto em nossa História. Sabemos que existiu, assistimos as novelas da Globo, estudamos na escola. Mas se pensarmos que esse período durou  cerca de 300 anos (ou mais), fica óbvio que pouco se foi registrado. Depois de Tempos extremos fiquei pensando na quantidade de vidas e famílias destruídas pela escravidão - nomes que não ficaram marcados nos livros e documentos históricos - e de como, ainda nos dias atuais, o Brasil está marcado por este momento. É preciso resgatar informações desses tempos extremos, é preciso falar sobre isso. Não dá para ficar eternamente escondendo o nosso passado debaixo do tapete!


Por meio de uma narrativa bastante fluida, Míriam Leitão conseguiu me prender à leitura e me fazer compreender, de certa forma, as dores de seus personagens marcados pela repressão. O único ponto que me incomodou na narrativa foi o fato de que, em alguns momentos, os personagens se tornam repetitivos, falando as mesmas coisas e sempre reafirmando as suas ideias e motivações; ainda assim, não foi algo que tenha estragado a experiência de leitura. Gostei de como a autora se utilizou do realismo fantástico ao fazer com que Larissa pudesse transitar entre diferentes épocas na fazenda Soledade de Sinhá, e assim, conhecer parte do passado brasileiro. 


Outra característica muito positiva e interessante em Tempos extremos é a quantidade de referências musicais, históricas e culturais (fotografias e citações de outros livros, por exemplo). Em diversos trechos, Larissa e seus familiares - sentados à mesa, bebendo café coado e comendo pão de queijo quentinho - conversam sobre música e até cantam alguns trechinhos. No final do livro é possível encontrar uma lista com o nome de todas as músicas citadas/cantadas e, nos agradecimentos, a autora menciona vários livros que fizeram parte de sua pesquisa para reportagens e também para Tempos extremos.


Para concluir: sim, recomendo muito a leitura de à todos. O livro já é um dos meus favoritos de 2014!

1 comentários:

  1. Quero ler esse livro desde que foi lançado, aí eu leio uma resenha dessas e fico com mais vontade ainda. Gostei da premissa e acho que vou também adiciona-lo aos melhores de 2014.


    Abraço!

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