23.7.14

Resenha: Uma longa queda

Uma longa queda, escrita por Nick Hornby
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 329
ISBN: 9788535924183
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.
Uma longa queda conta a história de quatro pessoas que se encontram por acaso no terraço de um dos maiores prédios de Londres, na noite de ano-novo, com a intenção de se suicidar. Desesperados mas sem determinação suficiente para pular, Martin, um apresentador de televisão que viu a carreira desabar depois de se envolver em um escândalo, Maureen, uma senhora solitária cuja vida se resume a cuidar do filho que há quase duas décadas se encontra em estado vegetativo, JJ, um músico americano fracassado que sobrevive entregando pizzas, e Jess, a desequilibrada e passional filha do ministro da Educação, começam então uma tragicômica busca por algum motivo para viver, ou pelo menos por alguma desculpa para adiar a morte iminente. Quando os quatro descem para procurar o namorado de Jess, uma improvável comunhão se forma entre eles.
Neste quarto romance, Nick Hornby assume a difícil e aparentemente contraditória tarefa de abordar um tema denso de modo leve e irônico. Como explica o autor, "eu queria escrever um livro que chocasse, sobre algo extremamente para baixo, e queria ver se conseguiria tirar esses personagens do fundo do poço sem ser sentimental ou irrealista. Se eu escrevesse um livro sobre depressão completamente depressivo, por que alguém o leria?". O resultado é que, aturdido com a trágica e absurda situação, o leitor não sabe se ri ou chora, se sente pena ou raiva, completamente preso ao rodamoinho de emoções criado por Hornby.

Sobre o que se trata?

Martin Sharp é um apresentador de tevê decadente, repleto de escândalos o noticiando nos tabloides. Maureen é uma senhora de 51 anos que vive em função de seu filho deficiente há 19 anos, sem ao menos ter qualquer hobby ou prazer na vida. Jess, uma adolescente punk e mal educada, adora festas e provocar seus pais. Já JJ é um americano entregador de pizzas que já não toca mais numa banda de rock, nem namora mais a garota pela qual se mudou para Londres. E o que essas quatro pessoas têm em comum? O desejo de se matar.

Na noite de ano novo, os quatro se conhecem no topo do Topper's House, um prédio famoso por ser a escolha de suicidas. Nenhum deles percebeu que aquela noite escolhida é a mais "movimentada" naquele prédio. Por conta disso, essas pessoas com personalidades e sonhos totalmente divergentes acabam se conhecendo e se tornando amigos. Talvez através de um laço complexo e doloroso, mas o fato é que a amizade complicada dos quatro abre espaço para todos eles refletirem sobre seus problemas e o por quê de terem subido ao Topper's naquele ano novo.

Minhas impressões

Sabe aquela injeção de ânimo que de vez em quando sentimos necessidade? Pois bem, Uma longa queda é a escolha perfeita para todos que gostam de uma leitura contagiante, empolgante, mas que não nos tira os pés do chão. 

Creio que, apesar da temática ser genial, a escrita e a narrativa é que ganham crédito aqui. Nick Hornby sabe entreter, criar diálogos sagazes e confortar o leitor, mesmo que de uma maneira realista. Este livro não vai expôr saídas para os problemas nossos de cada dia, porém ele explicita que ter problema é comum, saudável e tudo de uma forma inteligente. Várias vezes me peguei rindo de sátiras, piadinhas e humor negro. E mesmo tratando de algo mórbido - o suicídio - a escrita de Nick e seus personagens conseguem transmitir sua mensagem sem nem percebermos, ou, se preferir, da maneira mais sutil possível. O livro não possui capítulos, apenas curtos trechos narrados cada qual por um dos quatro personagens principais, e em primeira pessoa. Para afirmar isso, cada narrador tem um estilo de escrita diferente do outro. Enquanto a Jess solta palavrões aos montes e é infantil e enxuta, a Maureen já é recatada e até censura os palavrões dos diálogos. Aqui está uma prova da característica principal do livro: o autor constrói seus personagens também através da escrita, o que achei incrível.





Com o passar das páginas, o autor submerge o leitor no psicológico de cada um dos quatro suicidas. O que os quatro vivenciam juntos só cria reflexões para quem lê. Gostei da química dos personagens, pois sendo tão diferentes uns dos outros, isso só reflete o quão bom o enredo desse livro é. A realidade criada aqui pode incomodar certos tipos de leitores, aqueles que esperam sempre por um final de contos de fadas. Eu não diria que o desenrolar dos acontecimentos e, principalmente, o final sejam negativos, com tragédias e desencontros, porém são intrinsecamente verossímeis. E eu adoro verossimilhança. Assisti à adaptação cinematográfica e ela irá agradar aqueles que esperam um "e eles viveram felizes para sempre", pois apesar de ser parecida com o livro em muitas passagens, há um elemento romântico que em momento algum aparece no livro, e o final também muda um pouco de direção. Ainda assim, tanto o filme quanto o livro são ótimas indicações. É claro que deposito todo o meu amor no livro (quase sempre livros são melhores que suas adaptações) e, inclusive, esta foi uma das melhores leituras que realizei em 2014.
"Daquela vez você ia descer do jeito mais rápido" Fiz meus dedos caminharem no ar e depois se lançarem para baixo, como se estivessem pulando do terraço. "Mas hoje parece que você vai escolher a queda mais longa". 
"Ah. Sim. Bom. Ando um pouco melhor", ela disse. "De cabeça, quero dizer". (pág 229)  

7 comentários:

  1. Mell quando vai sair o resultado do sorteio?

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  2. Ué, mas não tem sorteio nenhum de Uma longa queda --'

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  3. Mell é do livro Cartas de Amor aos mortos (:

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  4. Amei sua resenha Mell :) Agora quero comprar esse livro HAHAHA !!

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  5. Leia, sim, depois quero saber o que achou, ehn? ;)

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  6. Primeiro que isso daqui é resenha de Uma longa queda.
    Segundo que o sorteio de "Cartas de amor aos mortos" já saiu faz um tempo, já.

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  7. Já comentei contigo, meio por cima, sobre esse livro. Eu não sei se é pq estava numa onda Nick Hornby e li muita coisa dele, mas achei Uma Longa Queda maçante e chato. Dava voltas e não chegava a lugar nenhum. Talvez se eu lesse hoje, achasse algo diferente, posso pensar em várias razões pra não ter curtido.

    Mas tenho que te dizer que tuas fotos ficaram, ó: ♥ Adorei! E combina com a proposta do livro, lendo aqui sua resenha, jogar uma luz em algo tão depressivo. Ademais, livros mais realistas tbm fazem minha cabeça. Só não dei sorte com esse, acho, haehaeh.

    BEIJO!

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