29.7.14

Editora Pedra Azul e o lançamento de "Evelina"

Sessenta anos depois do lançamento de "O senhor dos anéis", é dia do lançamento de um outro clássico, de outro gênero e escrito noutro período: "Evelina". A autora, Frances Burney, é conhecida por ter inspirado Jane Austen ("Orgulho e Preconceito"), sendo esta a primeira vez que uma obra sua ganhou tradução aqui no Brasil. E a editora a trazê-la? Nada menos que a Pedra Azul, novata na área editorial (criada em 2013) e com um perfil já cativante.

Nossos principais objetivos são: Lançar grandes talentos, dando acesso e visibilidade a novos autores nacionais; publicar grandes clássicos mundiais que, por alguma razão, nunca chegaram a ser traduzidos para o nosso idioma, impossibilitando que os brasileiros tivessem acesso a importantes obras aclamadas no mundo inteiro; relançar obras nacionais e estrangeiras consagradas, cujos poucos exemplares se encontram nas mãos de colecionadores.

Mas sobre o que trata "Evelina"?

A obra conta a história de Evelina, a filha adotiva de um reverendo, cuja mãe morreu pouco depois de tê-la dado à luz. As circunstâncias do seu nascimento são um tanto nefastas: a mãe foi enganada pelo pai, que a abandonou alegando nunca ter-se casado com ela. O livro, que é epistolar, trata-se de um período em que Evelina é requisitada para acompanhar os Mirvan – mais especificamente a única filha dessa influente família, que tem a mesma idade dela – em passeios diversos pelo interior da Inglaterra. Entretanto, durante esse período, é necessário que a família vá a Londres, viagem em que é pedida a permissão do reverendo para que Evelina também os acompanhe. Em Londres ela encontra pessoas de sua família que não conhecia e começa a reconstruir sua história de vida a partir desses encontros.
Uma das características que me chamou a atenção nesta publicação, além do fato de ser inédita no país, foi a tradução. A editora demonstra se dedicar bastante a esse processo, e não tive como não ficar curiosa quanto a ele. Gentilmente, a Pedra Azul disponibilizou uma entrevista com a tradutora, Gabriela Alcoforado, e com a editora de obras estrangeiras da editora, Chirlei Wandekoken. Confira:

Se alguém já leu "Evelina" ou qualquer outra obra de Frances Burney aqui no Brasil foi em outro idioma, pois as primeiras leitoras brasileiras foram elas.

Frances Burney era uma das escritoras preferidas de Jane Austen. Podemos afirmar, sem medo de errar, que Austen amava as obras de Burney. Ao longo dos seus 88 anos de vida (1752-1840), Frances Burney escreveu várias obras, sendo que as mais famosas são "Evelina", "Camilla" e "Cecília", três dos únicos cinco romances de sua autoria.

Ambas, Burney e Austen, viveram partes de suas vidas nos dois séculos mais importantes da literatura clássica: “A era de ouro do Romantismo”.

Gabriela, qual foi a sua experiência na tradução de "Evelina"?
G: No início achei muito difícil, pois eu não conhecia nada de Frances Burney. Mas, à medida que fui traduzindo, me apaixonei pela história e o trabalho rendeu muito. Outra coisa bastante difícil foi manter o vocabulário da época, rebuscadíssimo e, ao mesmo tempo, usar outro, mais vulgar, para os personagens vulgares. Mas foi muito prazeroso traduzir "Evelina". Quando acabei, confesso, senti saudades.

Chirlei, como você classifica "Evelina"?
C: "Evelina" é inusitado, lindo, com muitos personagens. Enfim, um clássico que figura entre meus preferidos. Tenho certeza absoluta que vocês amarão Fanny Burney, pois eu já a vejo como uma extensão do legado de Jane Austen.

Vocês, de fato, acharam o estilo de Frances Burney parecido com o de Jane Austen?
G: Para ser bem sincera, o estilo é extremamente igual, com ênfase na redundância (risos). Mas estou proibida de falar no assunto. Não me pergunte mais nada sobre isso (risos).

C: "Evelina" é um romance de excepcional semelhança com o estilo Austen. Enquanto eu o lia – coisa que fiz num fim de semana prolongado – era como se eu estivesse lendo Jane Austen. Fiquei emocionada e felicíssima. Engoli o livro, pois, percebi, que, para mim, as obras de Austen (que eu já li e reli todas) não haviam acabado. Havia uma continuação, a inspiração estava ali, intocada. Isso me deu um novo vigor, não só como editora, mas como fã mesmo.

Qual a obra de Austen vocês acharam mais parecida com "Evelina"?
G: Na verdade eu achei um pouco de cada obra de Austen em "Evelina". Tem uma parte em que Mr. Villars, numa carta para Evelina, diz: ‘Lord Orville aparenta ser de uma melhor ordem de seres. Sua espirituosa conduta com o torpemente impertinente Mr. Lovel e sua ansiedade por você após a ópera, provou-lhe ser um homem de senso e sentimento.’ Quando li isso, foi inevitável não imaginar Jane Austen com seu exemplar de "Evelina" nas mãos, destacando o trecho com uma pena recém-mergulhada em tinta (risos). Em outra parte, numa carta de Evelina para Mr. Villars, ela escreve: ‘Parece não haver fim para as confusões da noite passada. Neste momento estou entre a persuasão e o riso [...].’ Ao ler este trecho, lembrei imediatamente de "Persuasão", mas há personagens em "Evelina" que me lembram outros em "Emma", em "Razão e Sensibilidade" e em "Mansfield Park". Neste último, a situação vivida por Fanny Price e seu berço, do qual ela se envergonhava; depois, já na casa da tia, a forma desdenhosa com a qual ela era tratada pelas primas; a proteção e o cuidado recebidos do polido e bom-caráter Edmund Bertram, isso tudo tem referência em "Evelina". Assim como as futilidades das jovens Bertram; o rico e estúpido Mr. Rushworth e o pai de Fanny, um personagem vulgar da Marinha.

C: O herói tem o mesmo estilo de Mr. Darcy, às vezes lembra Mr. Edmund Bertram, de "Mansfield Park". Mas a semelhança dos personagens de "Evelina" com os de "Orgulho e Preconceito" é imensa. A própria Evelina é muito parecida com Elizabeth Bennet e com a própria Jane. Os episódios também são semelhantes: o primeiro encontro de Evelina com Lord Orville é muito parecido com o de Elizabeth e Darcy.

O que vocês podem destacar do estilo de Austen no modo de escrever de Burney?
G: Ambas eram irônicas demais! E posso afirmar que "Evelina" é imperdível e apaixonante.

C: A mesma forma de falar, o tão recorrente “ouso dizer...” das obras de Jane. Ambas têm humor satírico, irônico. Ao contrário de Austen, Burney frequentou a corte e, portanto, ela satiriza com propriedade a pequena nobreza da Inglaterra. Seu humor é muito parecido com o de Austen, é poderoso, perspicaz, ela não se importa se o personagem é um lord ou um prateiro para classificá-lo de vulgar.

Qual seu próximo projeto?
G: Minha próxima obra, já em tradução, é "Margareth Hale" ("Entre o Norte e o Sul"). Também já está comigo para tradução "A Vida de Charlotte Brontë", também por Elizabeth Gaskell, que era para 2014, mas foi adiada para 2015.

3 comentários:

  1. Abrahão Vendramini29 de julho de 2014 19:24

    Muito legal a entrevista :)

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  2. Mell, fiquei com vontade de conhecer este livro desta autora tão influente! Influenciar Jane Austen não é pra poucos rs

    Beijos,
    Caroline, do criticandoporai.blogspot.com

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  3. Pretendo ler, apesar de não saber se vou gostar de ler um livro em forma epistolar....
    bjs

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