8.6.14

Resenha: Juvenília

Juvenília, de Jane Austen e Charlotte Brontë


Editora: Companhia das Letras
Páginas: 472
ISBN-13: 9788563560919
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.


À primeira vista, Jane Austen e Charlotte Brontë parecem radicalmente opostas. Austen representa a elegância e a proporção neoclássica, parodiando excessos literários e criticando as fraquezas humanas. Brontë, por sua vez, imprime em sua escrita toda a paixão e a extravagância do espírito romântico, não raro com forte influência da fantasia. Numa época em que a literatura popular era considerada perigosa para a mente das jovens, a erudição precoce, a originalidade e a liberdade de espírito aproximam essas duas autoras. Ambas tinham como personagens centrais mulheres, sendo responsáveis pelos retratos mais marcantes de lealdade e dedicação feminina da literatura inglesa. E ambas constroem as suas heroínas como produtos do condicionamento feminino da época, cujas expectativas sociais eram muito restritas. Austen e Brontë tiveram uma produção bastante fértil na juventude, reunida neste livro, a qual parece encontrar uma espécie de equilíbrio no conflito entre a moral individual e social, criando heroínas complexas que se destacam por sua coragem e independência.



Sobre o que se trata?

Juvenília, como a própria palavra define, reúne os escritos de Jane Austen e Charlotte Brontë produzidos quando as escritoras ainda eram muito jovens. Organizadas por Frances Beer, doutora em inglês pela Universidade de Toronto, as obras são apresentadas de forma cronológica e divididas entre suas autoras, que, ao contrário do que se imagina à primeira visa, tinham muito em comum.

A juvenília de Jane Austen foi composta entre os anos de 1787 e 1793 - quando a autora tinha entre 12 e 18 anos - , e Beer aponta para o fato de que a própria autora havia organizado sua produção em três volumes, como se pretendesse publicá-los em algum momento, pois muitas alterações e correções foram feitas nos textos. Em sua maioria, os textos de Jane Austen consistem em histórias curtas ou inacabadas, dedicadas a amigos e familiares, a quem ela costumava escrever como forma de entretenimento. Suas histórias abordam situações cotidianas como excursões ao campo, bailes e chás, acompanhadas de críticas menos aprofundadas à sociedade e à natureza humana.

"É impossível saber o que Austen rejeitou, mas, nos três volumes que decidiu manter, fez questão de dedicar pelo menos uma obra para o pai, a mãe e cada um dos irmãos, para sua melhor amiga e para duas de suas primas preferidas". (P.10)

Já os primeiros escritos de Charlotte Brontë, produzidos entre 1829 e 1839, não apresentam o mesmo processo de seleção e organização dos de Austen, o que resulta em um material com menos alterações posteriores mas, ao mesmo tempo, mais confuso. Beer explica que os textos de Charlotte Brontë publicados em Juvenília são apenas uma parte de tudo o que a autora escreveu. Seus escritos reúnem histórias sobre um reino fictício chamado Angria - que criou junto com Branwell, seu irmão -, que trazia um elaborado elenco de personagens: o protagonista Arthur Wellesley - gentil e romântico, mas que ao longo das histórias se transforma gradualmente em um conquistador de mulheres e poderoso guerreiro; Alexander Percy - o conde de Northangerland e maior inimigo de Arthur; e as muitas mulheres que cruzam o caminho do protagonista e que trazem características que evidenciam o amadurecimento da autora. 

De uma forma geral, os escritos em Juvenília revelam processos criativos de experimentação que foram abandonados pelas autoras com o passar dos anos, ou aproveitados posteriormente em suas obras mais maduras. Em um período em que mulheres não tinham muito acesso à literatura popular - e muito menos à possibilidade de publicarem as suas próprias histórias - Austen e Brontë já apresentavam uma produção bastante fértil e que, ainda que não se mostrassem completamente maduras, permitem ao leitor perceber o quanto essas escritoras cresceram e aprimoraram suas técnicas até publicarem clássicos como Orgulho e Preconceito e Jane Eyre.

Minhas impressões

Antes de tudo, preciso dizer o quanto me identifiquei com as versões mais jovens de Jane Austen e Charlotte Brontë. 

É impressionante como Austen, aos 12 anos, já criticava e expunha ao ridículo suas personagens, sem tentar amenizar nada. À princípio, estranhei um pouco a sua produção, porque além de as histórias serem bem curtas, trazem aspectos burlescos e personagens unilaterais, sem muita profundidade. No primeiro volume de sua juvenília, a autora tinha como principal inspiração a crítica aos "romances lacrimosos" feitos na época, marcados por um excesso de sentimentalismo. Por isso, seus primeiros textos (como Jack e Alice e Amor e Amizade) focam principalmente nas falhas de caráter dos personagens e os expõe ao ridículo. Porém, por seus personagens serem a incorporação dos vícios que representam e não trazerem profundidade, não são muito críveis, logo, de difícil identificação.

É interessante mencionar que, mesmo aprimorando muito a forma como desenvolvia suas personagens, Jane Austen, desde o princípio buscava criticar aspectos da sociedade por meio do humor e do ridículo. Em toda a sua obra é possível encontrar personagens com algum tipo de vício reinante: A Sr. Allen (A abadia de Northanger), o Sr. Palmer (Razão e Sensibilidade) e Sir Walter (Persuasão), por exemplo. Já mais para o fim de sua juvenília é que Jane começa a dar ares de quem viria a se tornar uma das maiores escritoras inglesas. 

Como Beer aponta na apresentação, é com As três irmãs que Austen começa a dar os seus primeiros passos em direção à Orgulho e Preconceito. Mesmo que muito do burlesco ainda apareça na obra, é possível reconhecer Jane e Elizabeth Bennet em Sophy e Georgiana. A história também está carregada de forte crítica social. Ao trazer uma família de moças com uma mãe viúva e de poucos recursos, as meninas precisam encarar a realidade de que uma delas terá que se casar com um homem detestável, mas rico, para que possam sobreviver e ser sustentadas.

Por fim, em Catherine, o último texto da juvenília de Jane Austen, somos apresentados àquela que traz os primeiros traços de uma heroína típica de Austen. Aqui, a autora traz Camilla - uma menina fútil, que não desenvolveu seu intelecto por meio da leitura e que se preocupa com frivolidades - em contraste com a protagonista, Catherine Percival (também chamada de Kitty), que adora passar seu tempo em um caramanchão, na companhia dos livros e sem fazer questão de participar dos eventos sociais e se opondo aos costumes da época.

"Kitty, ao contrário de Camilla, é a primeira heroína perfeitamente construída de Austen, e ela sobrevive apesar de sua sociedade, e não graças a esta." (P.20).

Com Charlotte Brontë também ocorreu um estranhamento, mas estava mais relacionado às histórias e temas do que à escrita. Todos os escritos de sua produção quando jovem apresentados em Juvenília giram em torno do distante reino de Angria e de seu protagonista, Arthur Wellesley. O início de Angia foi inspirado em As mil e uma noites e traz elementos de magia e mitologia, com a presença de gênios que ajudam os cavaleiros/guerreiros europeus a derrotar o povo de uma ilha e tomá-la para si, chamando-a de Angria. 

Arthur Wellesley é o filho do duque de Wellington e, a princípio, é um jovem encantador e romântico que ficou rico e famoso por escrever poesias para sua distante amada, Marian Hume, com quem vem a se casar depois de muitos anos, despertando o ciúme de Zanobia. E aí, pasmem, temos uma trama marcada por um triângulo amoroso e, pela primeira vez, começamos a ver que Arthur não é tão louvável. Após a partida do duque de Wellington, o protagonista se torna o novo líder de Angria e as histórias passam a girar em torno de sua rivalidade e batalhas com Alexander Percy, o conde de Northangerland.

Com o passar dos anos e com mais maturidade, Brontë começou a se afastar das histórias de batalha e aventura e focou mais nos relacionamentos entre Arthur e suas esposas. Ao fazer isso, não só foi capaz de mostrar um processo de degeneração de seu protagonista (mostrando o desenvolvimento de seu personagem), mas também ir, aos poucos, criando a sua heroína perfeita por meio das personalidades de suas personagens femininas. Há um amadurecimento enorme entre a bela, doce e frágil Marian Hume e Elizabeth Hastings que, além de resistir aos encantos de Arthur e Sir William, é responsável pelo próprio sustento e não tem muita graciosidade - a personagem é muito parecida com Jane Eyre e, de certa forma, com a própria Charlotte Brontë.  Elizabeth, assim como as heroínas de Brontë, preza por sua independência, mesmo que para isso, precise lidar com algum tipo de dor pessoal.

"Elizabeth Hastings é uma criação tão significativa para Brontë quanto Catherine Percival foi para Austen: ambas as heroínas mostram que suas autoras chegaram ao estágio final de seu desenvolvimento juvenil, refinaram e integraram seu senso moral e artístico e reconhecidamente estão no limiar de suas primeiras obras maduras". (P.32)

Ao fim da juvenília de Brontë, a sensação que fica é a de que, aos poucos ela foi se afastando do mundo fantasioso de Angria, procurando escrever histórias com temas mais realistas e próximos de suas experiências. Não há como negar que ambas as autoras, Austen e Brontë, foram influenciadas pelo meio em que cresceram e viveram. Da mesma forma que Austen, que veio de uma família numerosa e harmoniosa que vivia em meio a carinho e alegria, escreveu sobre a sua realidade - bailes, chás, passeios no campo, casamentos - buscando criticar alguns aspectos dela, Brontë fez uso das dificuldades pelas quais passou quando criança e adolescente para criar as suas histórias.

Enquanto a principio as histórias de Angria não passem de aventuras e romances, em seu capítulo final, Henry Hastings, Brontë consolida a já evidente degeneração de Arthur Wellesley - que, neste ponto da história, já não tinha tanto destaque - e foca na heroína Elizabeth Hastings, que além de ser à frente de seu tempo, tem uma relação com seu irmão, Henry, muito próxima da relação da autora com Branwell. 

Ao concluir a leitura de Juvenília, percebi que, de fato, Jane Austen e Charlotte Brontë tinham muito em comum, mesmo que seus passados e experiências fossem bastante diferentes. Como Beer aponta, ambas tiveram a morte por perto; Jane e sua irmã, Cassandra, conseguiram escapar do tifo; Charlotte e seus irmãos, Branwell, Anne e Emily, perderam duas irmãs para a doença. É possível que essas situações tenham feito com que se aproximassem mais de suas irmãs e que este elo tenha refletido em suas obras por meio das relações entre Elinor e Marianne (Razão e Sensibilidade), Elizabeth e Jane (Orgulho e Preconceito) e Jane as irmãs River (Jane Eyre).

Mesmo que suas motivações para escrever, a princípio, fossem diferentes (Jane escrevia por diversão e Charlotte, por fuga), ambas não deixam de mostrar um forte descontentamento no que diz respeito a limitações impostas à suas heroínas pela sociedade. O tempo todo, em suas histórias, elas buscam desfechos que tragam algum tipo de dignidade e integridade às suas protagonistas, mesmo que seja dentro dos limites sociais do contexto histórico em que viviam.

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