15.6.14

Resenha: 1984

1984, escrito por George Orwell.
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 414
ISBN: 9788535914849
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.

Winston, herói de 1984, último romance de George Orwell, vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder cínico e cruel ao infinito, além de vazio de sentido histórico. De fato, a ideologia do Partido dominante em Oceânia não visa nada de coisa alguma para ninguém, no presente ou no futuro. O'Brien, hierarca do Partido, é quem explica a Winston que "só nos interessa o poder em si. Nem riqueza, nem luxo, nem vida longa, nem felicidade: só o poder pelo poder, poder puro". Quando foi publicada em 1949, poucos meses antes da morte do autor, essa assustadora distopia datada de forma arbitrária num futuro perigosamente próximo logo experimentaria um imenso sucesso de público. Seus principais ingredientes - um homem sozinho desafiando uma tremenda ditadura; sexo furtivo e libertador; horrores letais - atraíram leitores de todas as idades, à esquerda e à direita do espectro político, com maior ou menor grau de instrução. À parte isso, a escrita translúcida de George Orwell, os personagens fortes, traçados a carvão por um vigoroso desenhista de personalidades, a trama seca e crua e o tom de sátira sombria garantiram a entrada precoce de 1984 no restrito panteão dos grandes clássicos modernos. Algumas das ideias centrais do livro dão muito o que pensar até hoje, como a contraditória Novafala imposta pelo Partido para renomear as coisas, as instituições e o próprio mundo, manipulando ao infinito a realidade. Afinal, quem não conhece hoje em dia "ministérios da defesa" dedicados a promover ataques bélicos a outros países, da mesma forma que, no livro de Orwell, o "Ministério do Amor" é o local onde Winston será submetido às mais bárbaras torturas nas mãos de seu suposto amigo O'Brien.


Sobre o que se trata?

Num mundo caótico no qual a guerra é ininterrupta e presente no dia-a-dia, o governo é controlado por um Partido que monitora rigidamente a população, sobretudo através de teletelas que existem em todos os lugares: tanto públicos quanto privados. Tais teletelas servem para transmitir mensagens oficiais e programas rotineiros, mas também para observar os indivíduos, seja visualmente ou sonoramente - ela te vê e te escuta vinte e quatro horas por dia, sempre. Porém, este não é o único método utilizado pelo Partido para supervisionar. Eles possuem uma burocracia complexa, membros especializados na captação de condutas - e pensamentos - rebeldes (até os traços faciais são analisados) e a própria guerra para alienar os membros do Partido Externo. A sociedade praticamente não possui mobilidade social e é dividida em três estamentos: Núcleo do Partido, do qual fazem parte os indivíduos mais abastados e controladores, Partido Externo, composto pela massa supervisionada, e os Proletas, indivíduos abandonados na miséria e à margem de todo o sistema.

A narrativa é focada num membro do Partido Externo, trabalhador do Ministério da Verdade (onde se modifica as informações de acordo com as intenções do governo) e ser questionador, Winston Smith. Por conta de seus pensamentos críticos e de sua existência incômoda e insatisfeita, acompanhamos o destino de alguém que se torna contra o Partido.

Minhas impressões

Minha nota não poderia ser menor do que 10 para esse livro. Gosto muito quando um livro me faz submergir numa crítica social, porém 1984 o faz com uma destreza ímpar: o leitor não somente submerge, Orwell promove um mergulho perturbador

Do que considero a "quadrilogia clássica distópica" (Laranja Mecânica, Admirável Mundo Novo, Fahrenheit 451 e 1984), este é, com firmeza, o livro mais bem escrito. Tanto os personagens quanto a apresentação do mundo distópico possuem um papel explícito na obra. Pode-se observar uma  excelente construção desses aspectos, com tudo em seu devido lugar e tendo um porquê bem definido. Agora entendo por que George Orwell é venerado na literatura: sua proposta é transmitida ao leitor com maestria.

Porém, o tema é o mais "pesado" dos quatro títulos citados. Se por um lado a escrita é fluída, sendo que a narrativa se transcorre de maneira tranquila, o assunto chega a pesar sobre as costas do leitor. Não é uma proposta fácil de ser lida justamente por exigir uma mente crítica e questionadora - assim como a do próprio personagem principal. Tive sorte de ter tido a oportunidade de lê-lo somente depois dos outros títulos antes citados, pois assim creio que estivesse melhor preparada para a experiência que 1984 propõe.

O livro é dividido em três partes. A primeira é destinada a explicar a sociedade onde Winston Smith está inserido. A segunda, o desenvolvimento das condutas rebeldes do personagem. Por fim, a terceira parte é o desfecho da história, e simplesmente me causou náuseas: até hoje sonho com ratos (quem ler, entenderá). De todos os livros, este foi o que mais me chocou com o seu final. Totalmente pessimista, porém isso reforça o sentimento que prevalecia na época em que a obra foi escrita. Orwell a escreveu em 1948, publicou em 1949 e morreu em 1950. Portanto, ele viveu um período em que a humanidade perdia a esperança característica de uma época das Luzes, para constatar a crueldade em potencial do ser humano. O autor trabalhou como escritor na Segunda Guerra Mundial, vivenciou horrores e isso o marcou profundamente, tal como marcou o mundo de então. Dessa forma, sua obra expressa o sentimento de angústia e pessimismo de uma população mundial com medo de uma guerra nuclear iminente. Esta característica é evidente em todo o livro. Sendo fruto, portanto, de uma ordem bipolar, foi considerado permissivo por muitos capitalistas (sobretudo na época macartista dos EUA, onde a perseguição aos comunistas rolava solto) por aparentar, para quem o lê por cima, um livro destinado a criticar apenas o socialismo. Porém, ele vai além: sendo o próprio Orwell da esquerda, 1984 critica algo mais profundo: o totalismo como um todo, sem vestimentas.

13 comentários:

  1. Marina Rocha Daros16 de junho de 2014 10:40

    Oi, Mell!
    Quero muito ler 1984 e a sua resenha confirmou a ideia que eu já tinha do livro.
    O meu irmão tem o exemplar, mas ainda não li, pois quero ler Admirável Mundo Novo antes. :)

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  2. Parabéns pela resenha muito bem escrita Mell!
    Já tinha visto sua opinião em vídeo, e fiquei bem curiosa para conhecer essa obra, que é tão conhecida e muito bem falada por todos que já leram.
    Como você disse que achou que foi melhor ler as outras 3 distopias primeiro, vou tentar iniciar a leitura delas dessa mesma forma.
    Espero que consiga ler, compreender e apreciar 1984 tanto quanto você. rs
    Beijos e obrigada pelas indicações!

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  3. Amo quando recebo esse tipo de elogio, MUITO obrigada pelo tempo que dedicou à leitura do blog e ao comentário :D Sempre muito bem-vinda!
    Leia as outras três, sim, eu aconselho, apesar de não ver problema se quiser ler essa antes. Apenas uma sugestão boba ;) Eu li Admirável Mundo Novo, Fahrenheit 451, Laranja Mecânica e 1984, nessa ordem. A ordem que acho mais bacana é Fahrenheit, Laranja, Admirável e 1984...
    Beijão, e se tiver indicações, amaria recebê-las rs

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  4. Meniiina, leia! rs Só estava esperando ter o livro físico para poder ler. E me arrependi de ter demorado tanto hahahaha
    Mas acho bacana ler Admirável antes, mesmo ;)

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  5. Irisvanda Oliveira18 de junho de 2014 16:41

    Até que fim venho me manifestar a comentar no blog de uma pessoa que acompanho a tanto tempo e a minha inútil timidez não me permitia falar rs. Inacreditavelmente estou lendo esse livro no momento e sem comentários para ele e principalmente para o autor. George Orwell se tornou o meu escritor e pessoa em si de exemplo ,principalmente quando eu li A Revolução dos Bichos que também é uma obra excelente ,que me fez ter mais vontade ainda de ler 1984. 1984 é uma obra gratificante ,mas pesada. Um livro totalmente real ,que faz realmente a gente colocar os pés no chão e refletir sobre aquilo que o autor escreveu e se questionar. Mesmo sendo maravilhoso ,é um livro que estou lendo bem devagar por ver várias resenhas por ser bem pesado ,forte e totalmente enlouquecedor para o leitor (o final). Parabéns para o blog ,a resenha e também para seus videos que estou sempre acompanhando.
    Um grande beijo e um grande abraço e se não leu A Revolução dos Bichos ,eu lhe imploro. Leia!
    Sucesso querida <3

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  6. Aristóteles Lima Santana23 de junho de 2014 11:43

    1984 é muito bom, mas o tom pessimista final não me agrada. De que adianta falar contra o totalitarismo e concluir que ele é invencível? Uma conclusão errada, inclusive, pois tanto o nazifascismo foi derrotado militarmente como a URSS entrou em colapso. Melhor e, para quem não sabe, anterior a 1984 e supostamente plagiado por Orwell, é o livro "Nós", do soviético Evgueni Zamiátin. No final ao menos a rebelião se mostra provando que existe esperança. Mas não retiro o valor literário da obra de Orwell, embora ache que "A revolução dos bichos seja melhor".

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  7. http://www.periodicodelibros.com/2014/02/1984-o-la-encrucijada-hacia-la.html

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  8. Aeeee, deixa essa timidez de lado que internet não é lugar pra isso! hahaha Fico feliz :)
    Sem comentários, mesmo, Irisvanda, ele é demais, né? A revolução é outro livro bacana do autor, preciso relê-lo, comprei recentemente em sebo.
    Gratificante, mas pesada, é uma bela descrição para este livro. Já terminou ele? Gostou do final?
    Obrigada pelo carinho e por me acompanhar! :)
    Beijos

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  9. Eu achei justo o final, apesar de totalmente pessimista, mesmo. Eu acho que acima de qualquer pessimismo acerca dos regimes totalitários, aquele tom pessimista no final do livro é mais para a índole humana. Mas acho que quanto à crítica aos regimes totalitários, o final só serviu para reafirmá-la ainda mais. Não que um final menos pessimista também não cumprisse com isso, como acontece em Fahrenheit 451, cujo final é um pouco mais positivo e ainda assim conserva seu tom crítico.
    Então, nessa edição da Companhia há um apêndice que cita "Nós", mesmo.
    E eu também gosto de A revolução dos bichos, mas preciso relê-lo. Li há 6 anos hahaha
    Abraços.

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  10. Bacana, obrigada pela indicação de leitura :) Porém, infelizmente, não leio espanhol

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  11. Olá, Mell. Tudo joia?

    Parabéns pelo site, muito bom de tê-lo encontrado. 1984 é meu livro preferido, fiz até trabalhos de faculdade sobre ele. Gostei também de sua resenha, e trouxe um texto complementar sobre como foi a produção do livro que "matou" Orwell.
    Texto muito interessante! Espero que você também goste: http://www.revistabula.com/235-1984-o-livro-que-matou-george-orwell/

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  12. Parabéns pelo site !!!! é uma ótimo livro !!!! Achei essa resenha também bem bacana do livro:https://www.youtube.com/watch?v=QTOc8PbKcjQ

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  13. Esse livro é sensacional <3 tão maravilhoso que vim buscar ajuda sobre como me expressar para escrever uma resenha sobre ele... Queria que todas as pessoas no mundo pudessem lê-lo e discuti-lo comigo hahaha

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