25.5.14

Resenha: Fluam, minhas lágrimas, disse o policial


Fluam, minhas lágrimas, disse o policial, escrito por Philip K. Dick

Editora: Aleph
Páginas: 256
ISBN: 9788576571308
Livro cedido pela editora em parceria com o blog.
No romance Fluam, minhas lágrimas, disse o policial, Philip K. Dick explora os limites entre percepção e realidade, criando uma impressionante distopia na qual Jason Taverner, um dos apresentadores mais populares da TV, um dia acorda sozinho num quarto de hotel e percebe que tudo mudou; que se tornara um ilustre desconhecido. E pior. Descobre que não há qualquer registro legal de sua existência.

Dividido agora entre duas realidades, ele vê-se obrigado a recorrer ao submundo da ilegalidade enquanto tenta reaver seu passado e entender o que de fato aconteceu, dando início a uma estranha busca pela própria identidade. Ao unir à trama desconcertante uma sensível incursão no comportamento e nas emoções humanas, Philip K. Dick prende o leitor e faz desse livro um de seus trabalhos mais comoventes.

Escrito em 1974, Fluam, minhas lágrimas, disse o policial (Flow My Tears, the Policeman Said) foi publicado pela primeira vez no Brasil nos anos 1980, sob o título Identidade Perdida: O Homem que Virou Ninguém. O livro foi indicado aos prêmios Nebula, em 1974, e Hugo, em 1975, ano em que venceu do prêmio John W. Campbell como melhor romance de ficção cientifica. 

 

Sobre o que se trata?

Eu não existo, ele disse a si mesmo. Não existe nenhum Jason Taverner. Nunca existiu e nunca existirá. Que se dane minha carreira, só quero viver. Se alguém ou algo estiver querendo liquidar minha carreira, o.k., que o faça. Mas não terei permissão para ao  menos existir? Sequer nasci? pg. 27

Jason Taverner é um músico e apresentador de televisão super famoso. Tudo o que ele exibe ou compõe se reproduz com muita rapidez. Rico, bonito e influente, sua vida era sossegada e cômoda até acordar, no dia 12 de outubro de 1988, num quarto de hotel barato e sem os seus documentos. Pior: sem registro oficial de sua existência, sem ninguém que sequer o conhecesse (ou lembrasse dele): fãs, agentes, namorada, resquícios de sua vida completamente inexistentes. Como se ele fosse uma despessoa.

Num mundo completamente opressor e controlador, sair de casa sem documentos é pedir para ser preso e mandado para algum campo de concentração como um estudante fora da lei (estudantes são contrários ao regime dos pols). A cada esquina você pode encontrar com policiais e, se isso acontecesse a Jason, ele não saberia explicar sequer a sua existência. Sabendo disso, ele procura por alguém que faça documentos falsos para, pelo menos, conseguir transitar até compreender o que está acontecendo consigo. 

Jason é um Seis, o sexto projeto a desenvolver um ser humano geneticamente modificado. Portanto, seus instintos são mais sensitivos, seu controle sobre si - sobretudo o psicológico - é extremo, e seu poder de atrair pessoas é intenso. Por conta disso, sua maior preocupação é não ser descoberto pelos pols, as dúvidas surgindo a seguir, até de modo complementar à preocupação de permanecer no anonimato. Desse modo, ele transita pelo submundo dos Estados Unidos, por documentos manipulados, pela própria manipulação governamental e por drogas recreativas completamente nocivas. A crítica que o autor constrói com base nesses argumentos é impactante.

Minha impressões

Dick explora com maestria duas questões filosóficas: O que é o ser humano? O que é a realidade?

Em cima disso, ele dialoga de modo chocante com realidade versus percepção, completando, assim, a tontura que a capa do livro (linda, por sinal!) me proporciona. São questões existenciais que, expostas de modo simples ao leitor, não permanecem tranquilamente em sua cabeça: você fica com a história e com as dúvidas na cabeça por dias e dias depois de concluir a leitura. E elas incomodam, demonstrando a eficiência do que é abordado pelo livro.

Diante disso, ele desistiu. Não tem jeito, disse a si mesmo. Como se vivesse num mundo feito de borracha. Nada permanecia no lugar. Tudo mudava de forma com o toque ou até mesmo com o olhar. pg. 230

A escrita é instigante e ágil. Há mais diálogos do que descrições no livro. Por um lado, são diálogos incríveis, que inserem na obra pensamentos críticos e interessantes, sob um ponto de vista prismado. Do outro, senti falta de mais explicações sobre a sociedade ali composta, e até sobre a situação do personagem principal. Tudo é explicado nas últimas páginas do livro, porém ainda assim me restam dúvidas. Creio que se não fosse assim, eu não continuaria pensando no tema do livro e, portanto, sua intenção de gerar questionamentos diminuísse. 

O livro é dividido em quatro partes, sendo a última um curto epílogo. O título do livro é explicado lá pela metade, sendo uma alusão à música "Flow my tears" de um músico renascentista chamado John Dowland que o autor e um de seus personagens de Fluam apreciavam. Eu simplesmente adoro títulos que fazem esse tipo de conexão.

Não tenho como comparar com outras obras do autor, pois esta é a primeira dele que leio. Porém recomendo bastante para quem gosta de ficção científica ou para quem quer começar a ler algo do autor. Como primeiro contato, foi muito gratificante.

6 comentários:

  1. Oi, Mell, td bom?
    Esses dias estava assistindo um vídeo que falava sobre diálogos nos livros (nem lembro de quem...mas era legal). A pessoa falava que autores mais recentes "desaprenderam" a escrever diálogos e falava de uma época em que livros eram escritos somente ou na sua maior parte em forma de diálogo. Enfim, lembrei com o que vc falou sobre esse livro hehe
    Não gosto muito de ficar "perdida" nos livros. Tipo, lendo O Processo do Kafka. Até hoje ele me vem na cabeça, fico tentando entendê-lo hehe

    Beijos!
    Arrastando as Alpargatas

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  2. Oi, Mell!

    Não sei se fico muito atraída por esse livro porque ficção científica não é a minha praia :( Mas sua resenha ficou tão incrível <3 E essa história de desenvolvimento ágil, com muitos diálogos, talvez seja tudo o que preciso para finalmente ser conquistada pelo gênero. Quem sabe?



    Beijos!

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  3. Mell, esse livro parece incrível! Fiquei curiosa! :)


    Ao mesmo tempo em que levanta questionamentos e apresenta uma sociedade diferente da nossa, a história ainda instiga o leitor para querer saber o que aconteceu com a identidade do protagonista :) Pelo menos é o que parece ser hehe!


    Nunca li nada do autor, mas morro de curiosidade. Vou adicionar à wishlist literária hehe :)


    Beijos

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  4. Nossa, eu juro que nunca ia imaginar essa capa com essa história. Sabe, a capa não traduz quase nada, e foi uma verdadeira surpresa para mim saber do que se tratava. Gosto de livros que fazem links com a nossa realidade - parece que fica mais próximo da gente, ao mesmo tempo em que diverte, né? Ainda podemos tirar algumas lições da leitura, o que é sempre muito válido. Percebo que, se eu fosse ler, sublinharia muitos parágrafos, hehe.
    Linda resenha. Muito bem escrita, como sempre ;)
    Beijos.

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  5. Concordo com a amiga Tary aqui debaixo, tenho dificuldades em ler ficção cientifica, mas tuas resenhas são sempre tão detalhadas e sinceras que me coloco com vontade de ler o livro! Gostei da premissa. Dica mais do que anotada ;)

    Beijos Joi Cardoso
    www.estantediagonal.com.br

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  6. Oi Mell eu acabei de ler esse livro e não entendi o final você pode por favor me explicar, ficaria muito agradecido BJs

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