25.4.14

Resenha: A outra volta do parafuso

A outra volta do parafuso, escrito por Henry James.

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 200
ISBN: 9788563560247
Exemplar cedido em parceria com a editora.


A volta outra do parafuso conta a história da jovem filha de um pároco que, iniciando-se na carreira de professora, aceita mudar-se para a propriedade de Bly, em Essex, arredores de Londres. Seu patrão é tio e tutor de duas crianças, Flora e Miles, cujos pais morreram na Índia, e deseja que a narradora seja a governanta da casa de Bly. Ao chegar a Essex, a jovem logo percebe que duas aparições, atribuídas a antigos criados já mortos, assombram a casa. O triunfo íntimo da protagonista, mais que desvendar o mistério de Bly, consiste em vencer o silêncio imposto pela diferença de condição social entre ela e seus pequenos alunos.




Sobre o que se trata?

A outra volta do parafuso traz aquilo que poderíamos chamar de uma história dentro de outra e tem início com um grupo de amigos reunidos, às vésperas de natal, em uma antiga casa em Londres para contar histórias de terror. Após escutar uma narrativa envolvendo aparições de espíritos e crianças, Douglas decide contar uma história que lhe foi confiada em um manuscrito há muitos anos. Os acontecimentos, ele afirma, são reais e registram algo monstruoso, nunca antes escutado - a não ser por ele.

"Ninguém, além de mim, até agora, a ouviu. É, de fato, horrível demais". (...) "Em matéria de horror?", lembro-me de haver perguntado. (...) Ele parecia dizer que a coisa não era assim tão simples; que na verdade, lhe faltavam palavras para qualificá-la. Passou a mão pelos olhos, fez um pequeno esgar de repulsa. "De monstruosidade - monstruosidade!" (P.08)

De posse do manuscrito onde a história é contada, Douglas começa a lê-la para seus companheiros e, neste ponto, o livro ganha uma nova narradora. O leitor conhece uma governanta - cujo nome nunca é revelado - filha de um pároco que recebe a sua primeira proposta de emprego:  tomar conta de duas crianças órfãs que vivem, sob os cuidados de um tio bastante ausente, em uma região do interior chamada Bly.

Ao chegar à Bly, a governanta logo se torna amiga da sra. Grose, uma das empregadas da casa, e é informada sobre os seus novos pupilos: Flora e Miles, as duas crianças mais lindas e doces que já existiram. Durante os seus primeiros dias de trabalho, a narradora recebe uma carta da escola de Miles informando que o menino fora expulso por perturbar as demais crianças. Sem compreender como um menino tão gentil pudera ser expulso, a governanta fica intrigada. E essa sensação só aumenta quando duas aparições, atribuídas à dois criados mortos, passam a assombrar a propriedade.

Minhas impressões

Sem sombra de dúvidas, Henry James sabia criar uma atmosfera horripilante e propícia para histórias de terror. Já havia algum tempo que queria ler algo do autor mas nunca sabia por onde começar; hoje sei que não poderia ter feito escolha melhor.

A outra volta do parafuso reúne elementos de mistério e terror que resultam em uma história intrigante, assustadora e muito ambígua. Durante todo o tempo em que acompanhamos a narrativa da governanta - que busca compreender o que aquelas duas aparições querem ao voltarem para o mundo dos vivos e se aproximarem de suas queridas crianças - não sabemos o que é verdade e o que pode ser alucinação. Com exceção da narradora, é impossível perceber quem mais presencia o fenômeno sobrenatural e todos os diálogos do livro são carregados de muita ambiguidade, abrindo margem para mais de uma interpretação dos acontecimentos. E acho que é justamente este fator que faz desta uma história incrível.

Por estarmos sempre presos ao ponto de vista da governanta, é inevitável nos deixarmos levar por suas afirmações; porém, em diversas passagens, o leitor percebe algumas contradições e começa a se questionar. E ainda assim, é impossível, ao concluir a leitura, chegar à um consenso do que de fato aconteceu. Porém, nada disso se torna um empecilho para que se tenha uma boa experiência de leitura, que rende muitos momentos de tensão e arrepio no pescoço. Não sou o tipo de pessoa que sente medo de histórias de terror, mas A outra volta do parafuso conseguiu me surpreender em alguns momentos; não cheguei a ficar com medo a ponto de fechar o livro, mas foi impossível não me impressionar com a forma como as aparições foram descritas por Henry James. 
O dia estava bem cinzento, mas a luz da tarde ainda resistia, e ela me permitiu, ao cruzar a soleira, que não apenas reconhecesse, (...) mas também percebesse a presença de uma pessoa do lado de fora da janela, olhando diretamente para dentro. (P. 39)

A pessoa que olhava diretamente para dentro de casa era a mesma que já me havia aparecido. (...) mas com uma proximidade que representava um avanço no nosso relacionamento e que me fez, ao defrontar-me com ele, prender a respiração e gelar. (P.40)

Apesar de ter gostado muito da leitura, tenho apenas uma ressalva: a narrativa, por vezes, prolixa. Por ser um clássico, já sabemos que um livro trará um ritmo diferente dos livros contemporâneos. Porém, no caso de A outra volta do parafuso, a narradora se perde muito em seus pensamentos e isso, na minha experiência, acabou por quebrar um pouco o ritmo de tensão. Claro que muitos dos devaneios tornaram possível perceber uma evolução da personagem, mas também, em outros momentos, pareciam não acrescentar nada à narrativa. Este fator não chega a ser algo realmente incômodo, mas pode ser um obstáculo para algumas pessoas, por isso, achei interessante mencionar. Ainda assim, não posso deixar de recomendar este clássico de terror para todos aqueles que gostam de sentir um pouco de medo de vez em quando.

5 comentários:

  1. Nunca li um livro de terror, mas cheguei a ficar com vontade de ler esse. Ainda mais se tratando de um clássico de terror. Gostei. :D

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  2. Michas, assisto a todos os seus vídeos.
    Li esse livro dia 01/01/2013 foi uma excelente maneira de começar o ano né?! kkk Livro ótimo, mas também me deixou tensa. Já viu o filme? Recomendo.
    E o título também achei incrível.

    Um beijo pra vc :*

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  3. Oi, Leonardo


    Desculpe a demora em responder! :)


    Olha, terror não é o meu gênero preferido também, viu? Mas esse livro é super envolvente. E, de tão curtinho, acaba rápido! Se decidir ler, me conte o que achou, tá?

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  4. Oi, Haida :)


    Obrigada pelo carinho e mil desculpas pela demora em responder :)


    Esse livro é muito intrigante, né? Com certeza, foi uma ótima forma de começar o ano, hehe! Ainda não assisti ao filme; é "Os Inocentes", né? Pretendo fazer isso em breve e aí, fazer um vídeo para o canal:)


    Beijos

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  5. Plácido Rodrigues16 de janeiro de 2015 05:09

    Boa resenha. Li esse livro há alguns anos e confesso que fiquei impressionado. Lerei outra vez para fazer uma resenha também. Nunca devemos confiar em um narrador em primeira pessoa, pois ele pode mentir, esquecer os fatos, aumentar, sem contar que tudo é sua impressão dos fatos. Se temos um narrador em primeira pessoa religioso, um fato estranho pode ser atribuído a um milagre, por exemplo; se for ateu, o assunto já é outro.
    Em um trecho de sua resenha , você diz que quando Douglas começa a ler o relato, a história ganha um novo narrador. Muitas resenhas desse livro pregam que há mais de um narrador nessa história, mas não há. Só existe um narrador nessa história, e ele não é nem a governanta, nem o Douglas. O narrador não menciona o seu nome. Trechos como mostram quem é o narrador:

    (...) - A história o dirá - ousei responder.
    - Oh, mas eu não posso esperar a história!
    - A história não o dirá - disse Douglas. - Pelo menos não o fará de uma maneira literal, vulgar. (...)

    Vemos aí que Douglas não é o narrador. O narrador diz na primeira fala que ousou responder. E quando o relato escrito da governanta chega às mãos de Douglas, o narrador diz:

    (...) Mas Douglas, sem dar-me atenção, já havia começado a ler, com uma dicção tão nítida que era como se estivesse levando aos nossos ouvidos a elegância da letra do autor.

    Após isso, a impressão que temos é que muda de narrador, e a história passa a ser contada pela governanta, mas não muda de narrador. Ela escreveu o relato dela, mas não nos conta a história dela, pois está morta quando Douglas começa a lê-lo aos amigos. E, nós, os leitores, temos acesso ao escrito da governanta pela fala do narrador que ouviu o amigo Douglas ler a história. Ou seja, a história nos chega a partir das impressões que esse narrador, que não fala o nome, teve da leitura de seu amigo Douglas.
    Por isso, e outros motivos, é claro, que a história é tão ambígua. Quem conta um conto aumenta ou modifica um ponto. O narrador certamente não lembra de toda a história lida. E nem a governanta ao escrevê-la o fez com precisão. Se não devemos confiar em um narrador em primeira pessoa que viveu a história que conta, imagina em um narrador em primeira pessoa que conta a história de uma outra pessoa, que foi lida por outra. Complicado, né? Mas, a meu ver, o autor pensou muito bem nisso, antes de escrever sua história.

    Beijo e parabéns pelo site.

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